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Fidel Castro: Nem herói, nem vilão, um revolucionário

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FIDEL CASTRO
ORLANDO ESTRADA via Getty Images
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Dizem que aqueles que querem governar não podem demonstrar fraqueza, dúvida ou arrependimento. Franklin Delano Roosevelt, presidente que liderou os Estados Unidos no processo recuperação econômica dos Estados Unidos nos anos 1930 e na Segunda Guerra Mundial, tinha poliomielite e severas dificuldades para andar, mas poucas vezes demonstrou em público. Em 1959, Fidel Castro Ruz, depois de liderar a Revolução Cubana, interrompeu um discurso para milhares de pessoas para perguntar abertamente ao companheiro revolucionário, Camilo Cienfuegos: "estou indo bem?". A pergunta denota o temor e a dúvida de quem enfrenta uma multidão. Mas, a resposta de Cienfuegos diante de milhares de pessoas reafirma a força e a bravura do mito: "vai bem, Fidel".

A pergunta feita em 1959 ecoa até hoje. Fidel Castro, ainda jovem, liderou cubanos de todos os espectros políticos contra um governo ditatorial e fantoche dos Estados Unidos. O governo de Fulgêncio Batista mantinha o país imerso em uma situação de dependência e significativa parcela da população na miséria e na ignorância sob o julgo da força. O governo revolucionário ampliou o acesso da população aos meios de produção, às escolas e às universidades e a um sistema de saúde reconhecido internacionalmente. Em última instância, buscou emancipar o povo cubano da relação de dependência diante do capital nacional e internacional. Mais ainda, a experiência cubana nutriu os movimentos sociais da periferia do sistema com a esperança necessária para enfrentar os algozes da emancipação e da independência.

Entretanto, o processo revolucionário é indomável. O processo revolucionário acelera a história e coloca questões anteriormente inimagináveis para homens do seu próprio tempo. Como lidar com a multiplicidade e a pluralidade de projetos revolucionários? Como lidar com as identidades? Com as questões raciais? Com as questões relativas ao gênero e a sexualidade? Como uma ilha agrícola no meio do Caribe sobreviveria independente do capital e da maior potência do mundo capitalista? Desde os primeiros dias da revolução, os representantes do capital construíram imagens sombrias de Cuba e de Fidel Castro. Mais do que isso, tentaram derrubar a revolução com mercenários, dinheiro e armas. Os mísseis, o bloqueio econômico e centenas tentativas de desestabilização e assassinato vieram a reboque.

Mais do que indomável, o processo revolucionário cubano se tornou permanente. O bloqueio econômico e as operações de militares minariam qualquer possibilidade de estabilização da revolução. Neste contexto, a revolução perderia apoio da população, que buscaria os partidos contra revolucionários financiados pelo capital para viver em paz. Diante da possibilidade deste quadro, Fidel Castro e os revolucionários se defrontaram com um paradoxo: enfrentar a oposição nas urnas, arriscando a revolução e colocando Cuba em uma guerra civil aberta; ou tornar a revolução permanente, fechando o flanco político e enfrentando o bloqueio econômico e as ações militares internacionais. Fidel Castro e os revolucionários cubanos escolheram o segundo caminho. Além disso, definiram o caráter socialista da revolução. Trocaram a dependência em relação aos Estados Unidos e ao capital internacional pela dependência em relação a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Dessa vez, o personalismo, a burocratização e a democracia limitada vieram a reboque.

A história começou a julgar Fidel castro em 1979. Naquele ano, do outro lado da Bacia do Caribe, a história se repetiu. Daniel Ortega e um conjunto plural de revolucionários nicaraguenses derrubaram a ditadura e o domínio opressor da família Somoza. Diz a lenda que, Fidel Castro teria aconselhado Daniel Ortega a nunca desafiar ou se afastar dos Estados Unidos. Daniel Ortega, inicialmente, não seguiu o conselho de Fidel Castro. O capital, representado pelos Estados Unidos, apoiou e financiou os Contra, uma guerrilha contra-revolucionária sanguinária que jamais deixou o governo revolucionário nicaraguense estabilizar o país. Daniel Ortega e os revolucionários nicaraguenses decidiram enfrentar a oposição nas urnas. Contudo, a população decidiu desistir da revolução em nome da paz.

É difícil imaginar que uma revolução em uma ilha caribenha na periferia do sistema resolveria todos os problemas do país e do mundo em uma ou duas gerações. Para isso, Fidel castro precisaria ser um super-herói. Tampouco, Fidel Castro foi um vilão, um "ditador implacável" ou "o maior assassino da humanidade". Fidel Castro foi um ser humano que nasceu da modernidade e acreditou que outros seres humanos poderiam mudar o destino do mundo através da luta, com ideias e armas. Foi um revolucionários cheio de contradições, falível diante dos dilemas que a revolução impõe. E, é precisamente isso que tanto os detratores quanto os seguidores não conseguem aceitar: como um líder, humano, falível e cheio de contradições em uma ilha de 11 milhões de habitantes e distante 80km da maior potência capitalista do mundo ameaçou tanto o sistema capitalista. Se foi bem ou se foi mal, a história continuará a julgar. Todavia, não haverá outro ser humano igual, com erros e acertos. Morreu imortal.

A morte de Fidel pode ser uma barreira a menos para o fim do embargo econômico e das operações de desestabilização, que resistem ao fim da Guerra Fria. Que aqueles que veem Cuba como um farol compreendam que o maior legado de Fidel Castro e da Revolução Cubana, mesmo com todas as contradições, é a concepção de que a luta emancipatória é necessária e possível. Que Cuba siga os rumos que seu povo escolher. Que conserve as conquistas da revolução. Que seja a América que deu certo.

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