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Donald Trump: De onde ele veio e para onde pode ir?

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O presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1946) dizia que a única coisa que os estadunidenses deveriam temer era o próprio medo. A frase parece esquecida. A vitória de Donald Trump, candidato conservador pelo Partido Republicano, pode parecer o triunfo da coragem, mas é resultado do medo reacionário diante de três processos diferentes e interligados: a crise econômica sistêmica e o empobrecimento da população nos últimos trinta anos; o terrorismo internacional; e a aceleração das lutas e das conquistas de direitos civis e liberdades individuais. Entretanto, ninguém pode governar apenas apelando para medo e para a reação.

Diante do medo da crise econômica e da pobreza, Trump, um mega empresário do setor imobiliário e de entretenimento que faliu algumas vezes, personificou o empreendedor bem sucedido e liderou uma reação contra a, suposta, ineficiência estatal, o desemprego e miséria. Para isso, Trump apelou para o retorno a um passado glorioso imaginado expresso no mote "Make America Great Again". Na prática, propôs reduzir os impostos dos empresários e não participar de blocos econômicos de livre comércio. Essas medidas liberariam capacidade de investimento privado, fariam a industria estadunidense crescer e salvariam empregos. Consequentemente, livraria a população de novas crises econômicas e do empobrecimento.

Em face do medo de ataques à segurança dos Estados Unidos, Trump vestiu a capa de herói para combater o medo e liderar a reação contra o terrorismo e pela segurança dos Estados Unidos. Em meio as ações militares estadunidenses intermináveis na Síria, Líbia, Iraque e Afeganistão, Trump acusou o governo Obama de ter fracassado e exposto os Estados Unidos a ação terrorista dos inimigos. Mais do que isso, acusou o Obama e Hillary Clinton, que foi Secretária de Estado entre 2009 e 2013, de terem criado propositalmente o Daesh. Para sua cruzada, Trump propôs fechar as portas dos Estados Unidos para os muçulmanos, presumidamente terroristas, e intervir apenas em questões internacionais vitais para os "interesses estadunidenses". Ademais, Trump sugeriu que as guerras que não servem aos "interesses estadunidenses" custam caro. Inclusive, os Estados Unidos deveriam rever sua participação na ONU e na OTAN.

Frente ao medo do empoderamento dos diferentes em um momento de crise, Trump, que se casou três vezes e costumeiramente grita insultos e vulgaridades, vestiu o manto da moral tradicional e deu sermão contra o aborto, a igualdade de gênero, o casamento homoafetivo e a presunção da inocência para negros, latinos e muçulmanos. Com isso, Trump prometeu indicar juízes conservador para a Suprema Corte dos Estados Unidos e promover leis mais duras a fim de salvaguardar os "valores tradicionais". Além disso, propôs fechar as portas do país para os latino-americanos, especialmente mexicanos, presumidamente criminosos, que trariam mais insegurança para os estadunidenses. Essa proposta, indiretamente, alimentou a ideia de que os imigrantes latinos roubavam o emprego dos estadunidenses.

Embora tenha ensaiado sua entrada na política diversas vezes no passado, Trump nunca vestiu a roupagem daquilo que de fato se tornou após lançar sua candidatura: um político. Clinton, candidata pelo Partido Democrata, buscou outro caminho. Reforçou a imagem que construiu durante sua carreira política: a profissional competente. Mas, diante do medo da crise econômica, não apresentou nada de novo e seus laços históricos com o mercado financeiro e o capital global, vistos por muitos como causadores da crise, pesaram. Na corrida eleitoral, Clinton tentou desvencilhar esses laços e adotou versões mais moderadas de algumas medidas propostas por Bernie Sanders como: a taxação do capital financeiro e a oposição ao Tratado Trans-Pacífico. Além disso, reforçou as posições em prol da igualdade de gênero, do casamento homoafetivo, do controle sobre a venda de armas, do direito ao aborto, da presunção de inocência dos negros, de medidas para facilitar o acesso ao ensino superior e de uma reforma de imigração. Para sustentar esse pequeno deslocamento progressista, Clinton escolheu um vice candidato conservador moderado, Tim Kaine.

No fim, em uma sociedade polarizada que não tem mais confiança na política tradicional, Clinton não conseguiu mobilizar suficientemente o eleitorado mais progressista, que votou em Sanders nas primárias, e não conseguiu atrair eleitores mais conservadores, propensos a votar em Trump. Dentre os eleitores habilitados a votar, 46,9% preferiram não ir as urnas. Trump venceu a eleição nos colégios eleitorais, mas sem ter a maioria do voto popular. Venceu, sobretudo, entre homens brancos com mais de 40 anos com renda anual maior que US$ 100.000. Perdeu por uma margem muito pequena entre os operários com renda anual até US$ 100.000. E por grande diferença entre negros, latinos e jovens. Todavia, Trump conseguiu uma votação expressiva entre as mulheres. Venceu entre as mulheres brancas. E, surpreendentemente, conseguiu 29% dos votos de latinos que, provavelmente, não querem ser confundidos com imigrantes ilegais. Do ponto de vista geográfico, Trump venceu nos colégios eleitorais no Sul, no Oeste e no Meio Oeste, sobretudo nas médias e pequenas cidades. Perdeu nos colégios eleitorais na Costa Oeste, na Nova Inglaterra e em capitais como Pittsburgh e Detroit, cidades tipicamente operárias.

Os homens brancos de meia idade do interior dos Estados Unidos que temem ficar mais pobre, mais inseguro e menos poderoso venceram as eleições. Trump é espelho desse grupo. Não criou esses eleitores, mas soube captar seus desejos e representar seus interesses. E agora? Para governar com estabilidade, terá que negociar com movimentos sociais; com o Partido Republicano, que será maioria na Câmara de Deputados e no Senado, mas não deu apoio total a sua candidatura; e com o capital internacional. O Partido Democrata terá vários caminhos caminhos. Poderá fortalecer a ala mais progressista, ligada ao Senador Bernie Sanders e ao movimento "Our Revolution"; construir uma mimese trumpista de viés liberal-conservadora; ou insistir no caminho do meio, neoliberal-progressista, talvez com líderes mais personalistas.

No cenário internacional, Trump não vai inventar um novo isolacionismo puro. Possivelmente, adotará medidas protecionistas, mas não colocará em risco os interesses do capital internacional. Provavelmente, não terá dificuldades em mobilizar alianças para garantir interesses indiretos do capital estadunidense. Por isso, dificilmente abandonará a ONU e a OTAN, mas poderá buscar uma relação menos custosa para os Estados Unidos. E, não vai deixar de usar tropas para assegurar a posição dos Estados Unidos como garantidor do capital internacional. Especialmente para América Latina, Trump não será necessariamente mais benevolente. Ao contrário, poderá reagir ao crescente investimento chinês no sub-continente. No Brasil, Trump já inspira seguidores e alimenta opositores. Resta saber o que nascerá do medo.

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