Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e an√°lises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Rodrigo Borges Headshot

Sobre nosso amado 'falso moralismo'

Publicado: Atualizado:
Imprimir

2016-08-27-1472318403-6997207-Calmagente_Post2801.png

J√° faz alguns meses que escrevo o "Calma, gente" e, muitas vezes, tenho dificuldades de me limitar a ponderar, refletir e fazer sugest√Ķes sobre temas relativos a qualidade de vida, intelig√™ncia emocional e assuntos relacionados. Apesar de serem esses os motivos que me fazem escrever a coluna, nem sempre eu consigo me manter na linha. Eventualmente, eu sou agressivo, reclam√£o, impaciente e intolerante - tra√ßos de humanidade que carregarei sempre comigo. Tive a sorte de conseguir pensar e executar uma forma de me lembrar constantemente da import√Ęncia da pondera√ß√£o e acabei criando a coluna. Mas, ironicamente, esse mecanismo de lembran√ßa √©, √†s vezes, comprometido pelos meus pr√≥prios defeitos.

Seria contraditório se não fosse compreensível comigo mesmo, de forma semelhante como tento ser compreensível com todos os outros. Então, sabendo dos meus defeitos, sigo tentando superá-los com a calma que tanto busco.

Entretanto, percebo que minha postura eventualmente reclamona e agressiva n√£o s√≥ √© recorrente tamb√©m em muita gente, como costuma chamar mais aten√ß√£o do que a postura moderada na qual idealmente se baseia o "Calma, gente". Meus posts mais pol√™micos s√£o os mais bem sucedidos em termos de audi√™ncia. S√£o, normalmente, textos nos quais eu me oponho a algo, criticando uma postura ou identificando um "inimigo". Se voc√™ tem costume de utilizar m√≠dias sociais, talvez j√° tenha percebido isso em diversos outros casos. √Č prov√°vel que os posts nos quais voc√™ mais clique e mais compartilhe sejam aqueles que denunciam algo, em que uma revolta √© manifestada, em que uma injusti√ßa √© registrada, etc.

A quest√£o √© t√£o curiosa que mensagens com esse cunho soam mais verdadeiras ou valiosas do que outras. √Č como se o mundo real fosse desvelado no sofrimento de um grupo espec√≠fico, em horr√≠veis atos de viol√™ncia, no embate entre classes sociais ou em a√ß√Ķes deliberadas de maldade. O desabafo tem mesmo esse car√°ter de autenticidade, ainda que n√£o seja necessariamente a melhor forma de se expressar e nem trate da verdade em si.

O desabafo √© uma rea√ß√£o intempestiva a dificuldades e limita√ß√Ķes. N√£o costuma resolver muita coisa, sen√£o nos ajudar a extravasar uma frustra√ß√£o. Faz parte. Quem nunca?

√Č comum v√°rios canais de YouTube, contas de m√≠dias sociais e sites de not√≠cia autointitulados independentes ficarem famosos liderados por pessoas que est√£o cheias disso ou daquilo. Desabafar - al√©m de ajudar a aliviar a press√£o - √© uma ferramenta ret√≥rica bastante efetiva e chamativa.

Tenho me perguntado com frequ√™ncia sobre porque somos assim. Por que nos sentimos t√£o atra√≠dos pelo desabafo, pela agressividade, pela reclama√ß√£o e intoler√Ęncia? Tomando-me como exemplo, posso dizer que n√£o √© f√°cil manter o controle. Acontecem muitas coisas inesperadas em nossas vidas e somos pegos desprevenidos. Sem saber como reagir, esperneamos. Ao vermos algu√©m fazendo o mesmo, prestamos aten√ß√£o, talvez por empatia. O problema √© que, em meio √† rea√ß√£o comumente desproporcional, o m√©rito da quest√£o - por exemplo, um problema dif√≠cil de resolver - se perde, podendo at√© ser deixado de lado em nome de uma falsa sensa√ß√£o de seguran√ßa. Fechamo-nos ao mundo e esperamos que o mundo se adapte a n√≥s. Acabamos por afastar as pessoas com quem n√£o concordamos.

Não é legal. Agindo assim, viramos moralistas, impondo aos outros nossos costumes e regras. Entendo essa postura dentro de uma família, na qual os pais compartilham valores e costumes com seus filhos, por exemplo. Acho isso importante, ainda que costume render muitos problemas familiares. Mas o moralismo em um sentido mais amplo - esse de dizer ao outro, que você nem conhece, o que ele deve fazer ou deixar de fazer - é nefasto. E tem tomado formas distintas, de um jeito curioso.

Antes o moralismo era um ato essencialmente conservador. Agora virou também uma ferramenta de mudança social. Grupos organizados julgam a forma como a sociedade se estruturou e a condenam por ser imperfeita. Desejam que ela se molde a suas necessidades e anseios. Acabamos rodeados de moralistas em nome da mudança e do conservadorismo.

√Č poss√≠vel questionar com naturalidade relacionamentos homossexuais ou heterossexuais, discriminar seja l√° qual ra√ßa for ou difamar posi√ß√Ķes pol√≠ticas. Mas, por sermos imperfeitos, seremos sempre falsos moralistas, julgando o mundo como se n√£o f√īssemos pass√≠veis de errar e como se n√£o f√īssemos n√≥s mesmos respons√°veis por sua imperfei√ß√£o.

A inseguran√ßa, seja decorrente da experi√™ncia de vida ou da personalidade, orienta-nos de alguma forma a buscar o conforto, que se revela no desejo de que o mundo concorde sempre conosco, seja normatizado de acordo com nossas posi√ß√Ķes pol√≠ticas, curve-se aos nossos caprichos.

√Č uma luta muitas vezes ingl√≥ria superar o falso moralismo ao qual estamos t√£o acostumados. Ainda mais com tantas vias de comunica√ß√£o abertas pela internet, que se tornam v√°lvulas de escape instant√Ęneas. Acabamos por carregar o moralismo conosco, revelando-o nos momentos complicados ou mesmo em meio ao stress a que a vida nos submete. Estou certo de que terei diversas atitudes moralistas ao longo da vida, mas essa √© uma a√ß√£o que tentarei suprimir ativamente √† medida que o tempo passar. N√£o vejo outro caminho.

Às vezes, ouço pessoas dizerem que é preciso acabar com a injustiça, a vaidade, a discriminação, as diferenças, etc. Mas nada disso acaba. Tudo isso faz parte de nós. O que podemos fazer é lidar com nossos defeitos, de alguma forma mantê-los sob controle e diminuir seus impactos negativos.

H√° falsos moralistas de ocasi√£o e os profissionais. Quanto aos √ļltimos, n√£o h√° muito o que fazer. Mas os de ocasi√£o - grupo no qual me incluo - s√£o capazes de rever muitas de suas posi√ß√Ķes e, talvez, ser menos alarmistas, incisivos e agressivos.

Duvide sempre que algu√©m lhe disser que o mundo est√° piorando, que o grupo X √© malvado, que os valores sociais s√£o intencionalmente pervertidos, que o "grupo dominante" bolou um plano para seguir dominando. Se voc√™ cair nessa, ir√° se tornar um falso moralista de ocasi√£o e vai passar a julgar eventos sem crit√©rio. A sensa√ß√£o de superioridade √© tentadora. √Č f√°cil se apaixonar por esse sentimento. Mas ele √© destrutivo e n√£o cria nada, sen√£o dist√Ęncia, ignor√Ęncia, histeria e isolamento.

Mantenha sua moral (costumes e cultura) de forma positiva. E, se desejar compartilhá-la, faça-o pela sugestão, pela conversa. Ousando poetizar de uma forma meio piegas, a condenação do outro é um tipo de autocondenação.

LEIA MAIS:

- √Č poss√≠vel tirar fotos aproveitando a vida

- O problema do problema do problema

Também no HuffPost Brasil:

Close
Ansiedade e depress√£o, em quadrinhos
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual