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Várias vozes e um julgamento: O que somos capazes de aprender diante da barbárie?

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Ueslei Marcelino / Reuters
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O diabo diz mil. Esse! Vige mas não rege...
(Riobaldo, jagunço filósofo).

Qual a real distância entre as seguintes sentenças: "não configura estupro" e "orgia não é estupro"?

Essas são as palavras utilizadas respectivamente pelo primeiro delegado responsável por investigar o estrondoso caso de estupro de uma menina de 16 anos por mais de trinta homens e por alguns frequentadores da comunidade São José Operário, na Praça Seca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde teve lugar o ocorrido - uso esse termo, pois muitos ainda não têm claro para si de que se possa chamar aquele "acontecimento" de crime.

Apesar de termos dois enunciados que se diferenciam não só por quem os profere como também pela escolha dos termos - no caso do delegado, o verbo "configurar" dando um ar de quem fez uma análise prévia e cuidadosa antes de concluir algo, e no dos moradores, bem mais diretos, esclarecendo sem rodeios que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa -, será que não temos diante de nós a manifestação de uma condição comum a todos nós?

Falo de um tecido social que se esfacela diante de nossos olhos em um processo progressivo de apodrecimento. Não estou desmerecendo o papel investigativo da polícia, mas não sou ingênuo a ponto de acreditar que suas conclusões sejam imunes ao caos que essa instituição deveria ordenar, nem à violência que deveria combater.

Nesse caso, "não configura estupro" me parece não mais que outra forma de dizer o caos, não muito mais sofisticada que "orgia não é estupro". Aquilo que deveria ser essencialmente diferente mostra-se como diferentes maneiras de dizer a mesma coisa. Configurar ou não estupro não é o suficiente para disfarçar essa infeliz semelhança.

Não há sinal de que socialmente aprenderemos algo com mais um episódio de barbárie

Mudaram de delegação, de homem. Agora temos uma mulher responsável pelo caso e a nova delegada chegou a uma nova configuração: definitivamente, temos estupro (certamente, alguns apressados concluíram que orgia é estupro, sim senhor. Mas isso é outra discussão). Alívio? Gostaria de pensar que sim, mas tive alguns preciosos mestres que me ensinaram que uma dose de ceticismo não faz mal a ninguém.

O fato é que, independentemente das palavras escolhidas e conclusões tiradas, não há sinal de que socialmente aprenderemos algo com mais um episódio de barbárie. Se há lições, elas são em sua esmagadora maioria superficiais e puramente reativas, baseadas em opiniões previamente sustentadas. A lição é confirmar o que já se sabia antes.

A maior prova disso é que ainda não se tem exatamente claro se a vítima é vítima: da hipótese de que ela participou de uma orgia de uma contra todos à lição de que não deveria ter aquele tipo companhia, a ela é retirado o direito de dizer o que aconteceu. Ou porque ela consentiu ou porque é uma irresponsável. Em ambos os casos, alguém tem que dizer por ela. Estado (representado pela polícia) e opinião pública: todos têm muito a dizer e pouco a escutar (Sobre a voz da comunidade, sei que a coisa é muito mais complexa do que poderia supor. Portanto, silencio).

Incrivelmente, essa enxurrada de opiniões irrefletidas, de quem se recusa a repensar certas coisas, me fez lembrar uma das maiores pérolas desse maravilhoso universo que é a literatura brasileira. Estou falando de Grande Sertão: veredas, do genial Guimarães Rosa. Dentre suas inúmeras incríveis passagens, esse caso me fez lembrar o julgamento de Zé Bebelo, no meio desse grande Nada que é o sertão brasileiro, onde tudo tem que ser inventado a todo instante, inclusive, senão principalmente, a justiça. Um lugar onde a sobrevivência tem que ser reinventada a cada vereda.

O que me assusta é que os jagunços do sertão real podem ser muito mais insanos e intolerantes que aqueles do sertão da ficção

Zé Bebelo, homem sagaz e corajoso, líder nato, é enviado pelo governo para combater um bando de jagunços comandados pelo não menos virtuoso Joca Ramiro. Zé, a voz que representa a "lei oficial", perde a batalha e é capturado vivo. Em pleno Sertão é armado o tribunal: como se numa democracia jagunça, cada um dos principais homens de Joca Ramiro é convidado a proferir sua opinião, como se cada voz fosse capaz de materializar um código penal. Cada opinião uma sentença. Obviamente, a última palavra seria a do líder, mas fica nítido que, numa terra sem leis, estas têm que ser improvisadas e que a liderança pode a qualquer momento mudar de mão: outra liderança, outra justiça.

Guimarães Rosa faz do Sertão uma grande metáfora do Brasil, uma terra onde a voz da lei é sempre incerta e frágil, quando não injusta; onde todos estão a todo instante desprotegidos. O incrível é que mesmo entre homens brutos e violentos, a vítima é ouvida e sua palavra tem também o peso de uma justiça possível. Sua voz produz efeitos. Aparentemente o Brasil continua sendo um grande sertão, onde a sobrevivência nunca está garantida. O que me assusta é que os jagunços do sertão real podem ser muito mais insanos e intolerantes que aqueles do sertão da ficção. Não vejo justiça, vejo estupro. Ela diz: fui estuprada.

LEIA MAIS:

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