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Machismo do monstro ou machismo 'sem máscara' de todos nós

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RAPE BRAZIL
EVARISTO SA via Getty Images
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"Trinta homens estupram uma menina. Ouço falarem em monstruosidade e falta de humanidade, mas acho que esse é o pior caminho: acreditar que o mal habita exclusivamente no outro. Estou sendo pouco razoável ou não está claro que vivemos de acordo com o preceito de que o outro é um meio para a realização dos nossos desejos? E a coisa se potencializa e se agrava com a vida virtual: não há realização de verdade se ela não for pública (ou seria para o público?). Estuprar e postar: tudo pelas curtidas. Outro narcisismo ou exacerbação do nosso narcisismo coletivo? Machismo do monstro ou machismo "sem máscara" de todos nós, homens de bem? Indago com sinceridade. Afinal, trinta homens acharam isso maneiro. O mal tem sido mais inclusivo do que gostaríamos de admitir?".

A verdade é que, apesar de me dedicar ao estudo de textos humanísticos, ser leitor voraz da mais variada literatura e ter na obra de Hannah Arendt, mulher extremamente corajosa, minha principal referência intelectual, nunca havia dedicado maior atenção ao movimento feminista.

Não por descaso ou por tomá-lo como objeto exclusivo ao universo feminino, mas é que o mundo tem se mostrado um lugar demasiadamente simultâneo e acelerado. Essa vertigem camaleônica nos impõe duas alternativas: escolher estratos de percepção do mundo em detrimento de outros ou a tentativa patética de lidar com todas as vias de interpretação ao mesmo tempo.

Nunca ter falado ou pensado mais detidamente sobre o feminismo, assim como sobre outras vias de interpretação da realidade, sempre foi uma maneira de manifestar, pela via do silêncio, respeito pela complexidade e dureza dessa luta. Luta suada e perigosa. Contudo, sempre tive o maior interesse no tema violência e, diretamente relacionado, no perigo da superficialidade humana: quando pessoas que se recusam a pensar se propõem a justificar o mundo e seus próprios atos.

O estupro é invariavelmente superficial em suas motivações, mas seus efeitos são insuportáveis em sua devastação e isso é o máximo que posso afirmar na minha condição de não vítima - não ousaria, nem como exercício ficcional, avançar em detalhes que desconheço. Por isso, resolvi apresentar como parágrafo de abertura dessa breve reflexão o pequeno texto que postei no Facebook no dia em que veio à tona a notícia de que uma menina de 16 anos havia sido violentada por mais de trinta homens.

Portanto, não temos aqui uma reflexão sobre o estupro, nem mesmo sobre o narcisismo ou sobre o machismo. É uma indagação mais ampla de alguém com muito mais dúvidas que certezas não sobre diferentes modos de estar no mundo, mas sobre um mesmo estilo de vida perigosamente homogêneo e levado às últimas consequências. Dados certos acontecimentos, será que existe crítica consistente e indignação sincera sem que se questionem as próprias escolhas e comportamentos?

Estou falando sobre atitudes irrefletidas e comportamentos automáticos potencializados pelo clique do mouse e pela sensação de invisibilidade do mundo virtual. Será que é possível apontar dedos sem se olhar no espelho? Maravilham-me as manifestações de apoio, mas me petrificam muito mais as inúmeras tentativas de justificar a violência - seriam ridículas se não fossem dramáticas.

"Ele sempre foi um bom menino": o violentador apresentado como uma criança que incorreu em brincadeira de mau gosto. Muito mais do que monstros, me parece que temos pessoas orgulhosas em tornar pública sua demonstração de força e sua capacidade de humilhar e punir. Será que isso passa muito longe das sugestões que são comumente apresentadas como solução por não poucas pessoas de bem? Como é grande o rebanho da irresponsabilidade.

Óbvio que o machismo é, nesse e em outros milhares de casos de covardia em nosso País, o elemento principal a ser dissecado. Não se pode deixar isso em dúvida nem por um segundo, mas minha reação a ele talvez seja ainda demasiadamente crua para que possa fazer colocações relevantes. Não vou tomar para mim o terreno arado por outras almas corajosas.

Minha namorada, ela sim, se dedica integralmente a pensar a condição das mulheres em nosso País - certamente, ela teria palavras muito mais claras e poderosas do que as minhas.

Não foi apenas seu choro angustiado e cheio de medo que motivou a escrever aquelas hesitantes palavras na minha "timeline". Foi principalmente sua desconcertante resposta quando perguntei o que poderia fazer para acalmá-la: "Rodrigo, eu quero a sua sensibilidade".

Prosseguirei tentando, meu anjo.

LEIA MAIS:

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- A violação de direitos 'mais tolerada no mundo' é o estupro de uma mulher

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