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A relação perigosa entre o ataque na Turquia e o avanço do conservadorismo europeu

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ATATURK
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Os ataques ao aeroporto de Ataturk, em Istambul, ocorridos no último dia 28 de junho, podem reforçar a onda conservadora que atinge a Europa nos últimos meses - e que ganhou um capítulo a parte com a saída do Reino Unido da União Europeia.

É fato que o governo turco tem tentado há décadas conquistar o direito de ingressar no bloco, sem sucesso. A despeito de todas as reformas domésticas e das negociações com a cúpula da UE referentes aos aspectos econômicos, talvez o maior problema seja a posição geográfica da Turquia e às suas fronteiras com países considerados problemáticos para a segurança internacional.

Os atentados recentes expõem, de um modo geral, alguns desses elementos que afastam os turcos União Europeia. Embora outras cidades, como Paris, também tenham sido alvo de ataques, a Turquia possui pelo menos dois fatores que dificultam a aceitação do país no bloco. O primeiro é que a Turquia está localizada numa posição geopolítica delicada. A Leste, a nação fica pressionada por países do Oriente Médio, como Iraque e Síria, os dois mais afetados pelas ações diretas do Estado Islâmico.

É importante destacar que o EI surgiu no Iraque, sobretudo após as ações militares norte-americanas em 2003, e ganhou forças ao combater as forças de Bashar al-Assad durante a guerra civil síria.

Além disso, os turcos também fazem fronteira com ex-repúblicas soviéticas, como Armênia e Geórgia, que ainda não vivem uma situação política doméstica plenamente pacífica e onde ainda há a presença de grupos armados.

Embora o governo turco e a agência de espionagem dos Estados Unidos, a CIA, tenham atribuído a provável autoria dos ataques ao Estado Islâmico, é necessário refletir sobre a nacionalidade dos envolvidos: um russo, um uzbeque e um quirguiz. Logo, os supostos autores não atendem necessariamente pelo estereótipo do terrorista muçulmano de Hollywood. Eles vêm, também, de outro território conturbado e abalado por conflitos antigos.

O segundo fator é a diferença cultural e religiosa. A Europa contemporânea se formou, historicamente, a partir das cisões entre cristãos católicos e protestantes, enquanto os muçulmanos sempre foram vistos como invasores. O crescimento do conservadorismo, causado inclusive por conta dos ataques a Paris no ano passado, leva a uma equivocada associação entre terrorismo e islamismo.

Isso, por sua vez, reforça a ideia de que os muçulmanos devem permanecer afastados do mundo europeu, já que partilham valores distintos daqueles supostamente comuns aos londrinos, parisienses e berlinenses: seriam valores da violência, do terrorismo e da intolerância e perseguição religiosa.

Os europeus mais conservadores também olham com desconfiança para o Leste Europeu, talvez em alusão ao passado recente da Guerra Fria, quando o medo do conflito nuclear e a propaganda norte-americana expunham a União Soviética e suas repúblicas como sendo redutos de inimigos do Ocidente.

Por fim, isso nos leva à questão principal deste artigo: como os ataques da última semana contribuem para o afastamento da Turquia da União Europeia? As fronteiras turcas são consideradas pouco protegidas e, portanto, facilmente cruzadas.

Caso a Turquia fosse aceita na UE, terroristas, sejam eles do Oriente Médio ou de territórios da antiga União Soviética, teriam facilidade de acesso à própria União Europeia e, obviamente, aos principais núcleos urbanos da Europa: afinal, a área de livre circulação prevê que não haveria um controle de passaportes para quem viajasse de Istambul para Paris, por exemplo.

Desse modo, as alas mais conservadoras dos governos e da própria população europeia consideram que o ingresso da Turquia seria um "convite" à imigração ilegal e também ao terrorismo, seja ele perpetrado pelo Estado Islâmico ou por qualquer outro grupo externo.

Os ataques da semana passada podem ter contribuído, negativamente, para levar instabilidade a um país que vinha buscando se reaproximar dos vizinhos - e que possivelmente usaria os laços diplomáticos com Egito, Rússia e Israel para justificar sua importância para a Europa. Portanto, o antigo sonho turco de pertencer à Europa parece uma possibilidade cada vez mais distante, ainda mais para uma UE de futuro incerto que pode se fragmentar.

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