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Brexit é exemplo do que o avanço do conservadorismo é capaz de fazer

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BREXIT
ASSOCIATED PRESS
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O povo britânico foi às urnas e, numa votação acirrada, decidiu se desligar da União Europeia. Embora o parlamento britânico ainda precise aprovar a saída do bloco, o plebiscito cria uma situação inédita para a organização, que pela primeira vez poderá perder um de seus membros - com o agravante de ser uma das principais economias do continente.

Uma das possíveis explicações para a vitória do Brexit é o crescimento do pensamento conservador e nacionalista, que não afeta apenas a Inglaterra, mas sim países de toda a Europa, principalmente por conta dos efeitos da crise econômica e, também, da recente questão envolvendo o aumento no número de refugiados que pedem asilo na região. Já é possível prever que partidos conservadores de outros países europeus - que comemoraram a vitória do Brexit - também vão propor votações semelhantes.

Caso isso realmente ocorra, corremos o risco de acompanhar a gradativa e melancólica fragmentação do bloco, causando um retrocesso a todo o esforço político e econômico de integração regional, que começou ainda com a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e da Comunidade Comum Europeia, na década de 1950, e que depois dariam origem à União Europeia em 1993.

É inegável que o conservadorismo da vitória do Brexit está ligado diretamente aos dois fenômenos citados anteriormente. O primeiro, a crise econômica, desencadeou uma série de problemas em território europeu. Diversos países, como Espanha, Portugal e Grécia, viram sua economia desacelerar, ao passo que os índices de desemprego cresciam e os investimentos estrangeiros minguavam. Diante disso, partidos conservadores ganharam adesão do eleitorado com fortes discursos nacionalistas, o que levou a um aumento de participação em diversos parlamentos da Europa.

O outro fator, a crise dos refugiados, ganhou destaque na imprensa européia principalmente a partir do ano passado. Os países do continente começaram a receber grandes contingentes de pessoas em fuga da guerra civil da Síria, por exemplo, que buscavam asilo em lugares como Grécia, Alemanha e a própria Inglaterra. O aumento da população desses Estados, somado ao crescimento do desemprego, pode ajudar a compreender como parte dos europeus passou a defender uma via conservadora para lidar com a questão.

O problema é que decisões como a vitória do Brexit têm efeitos sistêmicos. Por mais que pareça apenas uma decisão isolada da população britânica, é possível prever que movimentos nacionalistas de outros países conservadores usem esse fato como combustível para lutar pela desvinculação do bloco. Sem a Inglaterra, um dos principais mercados do continente, a União Europeia perde fôlego, o que abre precedente para que Estados de menor expressão também optem pela saída.

Se projetarmos o problema para fora da Europa, podemos compreender o quanto a decisão de ontem pode agravar ainda mais a crise econômica global. No dia seguinte à vitória do Brexit, o mercado reagiu mal e as bolsas de valores de todo o mundo despencaram, ao mesmo tempo em que a libra sofreu uma desvalorização histórica, atingindo a menor cotação em cerca de 30 anos. Fora isso, o crescimento do pensamento nacionalista pode afetar, inclusive, os empresários que possuem negócios com a Inglaterra e com outros países do continente.

O conservadorismo pode, mesmo em curto prazo, resultar na adoção de políticas protecionistas à indústria local, como forma de defender as marcas e os produtos europeus, com a justificativa de que esse tipo de medida seria benéfica até mesmo para a manutenção de postos de trabalho. Entretanto, seria uma reversão a anos de boas relações econômicas com países de todo o mundo.

Toda essa crise na zona do euro também vai, possivelmente, afugentar os investidores estrangeiros, que perderão parte do interesse no mercado europeu e devem buscar alternativas em outras regiões.

Além das multinacionais, as empresas do setor de turismo também podem perder mercado, uma vez que o eventual desligamento da Inglaterra do restante da União Europeia fará com que os turistas se submetam às regras de imigração britânicas, e não mais às normas estabelecidas pela União Europeia.

Por fim, é fundamental observarmos que uma turbulência política grave já se desenha, tanto dentro quanto fora do Reino Unido. O primeiro passo foi a queda do premiê David Cameron, contrário à Brexit, crítico dos grupos ultraconservadores vitoriosos e defensor da ideia de maior integração na Europa. Fora da Inglaterra, chefes de Estado se preocupam justamente com a possibilidade de convocação de plebiscitos semelhantes. A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, François Hollande, se pronunciaram de forma ríspida em relação à votação britânica, e clamaram por união.

Ainda é necessário aguardar a decisão do parlamento britânico para podermos medir de forma mais adequada os riscos do Brexit, porém, já é possível estimar que a União Europeia enfrentará a crise mais grave de sua história - e, dependendo dos rumos que seguir, poderá ser uma crise terminal.

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