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Falta de representatividade no Brexit pode virar 'castigo' aos mais jovens

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O dia 24 de junho de 2016 ficará marcado na história do continente europeu, sendo conhecido como a oficialização da saída do Reino Unido da União Europeia. O resultado, votado em referendo na última quinta-feira (23), representa uma grande inquietude, desintegração e ruptura da governança global e da democracia britânica.

A decisão chega em um momento turbulento para a Europa, pois, inevitavelmente, essa realidade apresenta uma nova forma de fazer política, onde a força do United Kingdom Independence Party (UKIP) prevaleceu sobre ambições supranacionais.

Pode-se classificar a proposta do Brexit como antiquada e economicamente desafiadora, sendo fundamentada em propostas conservadoras. Por esta perspectiva, percebemos o início de uma "crise existencial" para o continente europeu, podendo significar um mau exemplo para outros países e até alimentar grupos populistas, anti-islâmicos e anti-imigratórios.

As tentativas em vão de manter a Europa unida simplesmente não parecem ser suficientes para integrar uma bipolaridade tão latente.

Para o resto do mundo, que observa a Europa como simplesmente um bloco econômico de livre mercado, trocas comerciais, políticas ambientalistas e política externa (lembremos das sanções contra a Rússia na Crimeia e as sanções sobre as negociações nucleares do Irã), a saída do Reino Unido só solidifica uma falha considerável nas plataformas democráticas de governança.

O Reino Unido, conhecido por sua estabilidade política, tem ganhado momentos de tensões e instabilidade nos últimos meses, principalmente porque a ideia do Brexit ganhou força após a divergência de opiniões e características da população: de um lado, uma geração mais nova, influente e cosmopolita (os Britons), e de outro uma parcela da população mais velha, pobre e menos educada, residente de regiões rurais e industriais.

A consequência disso é que a população jovem, que em sua maioria votou a favor da permanência, viverá por mais tempo com esta decisão, que não representa seus valores defendidos ou estilo de vida.

Brexit é mais excludente e menos integracionário?

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Há, ainda, a narrativa da principal polêmica: as políticas anti-imigração. A campanha de permanência do Reino Unido na UE via as forças de imigração como um benefício à liberdade econômica, o cosmopolitismo e a multiculturalidade, além do respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais.

A campanha de saída do Reino Unido, por sua vez, entendia isso como uma forma de desestabilização do salário mínimo, do serviço público, das políticas conservadoras e um mal de longo prazo da soberania e identidade nacional. Uma visão que é, inclusive, desmentida por estudos diversos, inclusive de universidades britânicas, mas que conquistou apoio suficiente do eleitorado para sair vitoriosa - ainda que por uma margem estreita.

O que de fato o Brexit representou foi uma polarização política de protecionismo e conservadorismo. O UKIP, partido de extrema direta que liderou a campanha anti-imigração e contra a presença dos refugiados, conseguiu trazer uma política similar à tentativa de Donald Trump, agora na corrida presidencial norte-americana. Política essa que também pode ser notada em outros países europeus e que deve ganhar força com a vitória do Brexit, com potencial para repercutir além dos limites do continente.

A polarização de elites e a diminuição de valores multilaterais e multiculturais não afeta somente a identidade, agora tão miscigenada do Reino Unido, mas também fere o futuro de uma nação, da qual foi moldada pela inclusão e pelo apoio intercultural. Em suma, representa um grande retrocesso no qual tais valores perdem espaço para o ódio e para desconfiança e criminalização do outro - que pode ser o negro, o imigrante, o homossexual, o muçulmano ou qualquer outro considerado "diferente".

O que a juventude e a sociedade civil têm a dizer

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De acordo com o The Guardian, 75% da parcela de jovens votantes de 18 a 24 anos de todo o Reino Unido votou a favor da permanência na União Europeia. Essa parcela é bem mais representativa do que os 52% que retiraram o Reino Unido do bloco. E por quê?

Simplesmente pelo motivo da vitória do Brexit ser definida por uma maioria de pessoas, das quais, motivadas pelos partidos de extrema direita, de ordenamentos separatistas, nacionalistas, conservadores e xenófobos, conseguiram alcançar uma parcela da população, que possuía uma elevada taxa de baixa escolaridade e já de elevada idade. Isso quer dizer que, ao curso dos próximos anos, não serão as pessoas que votaram pelo 'sim', que irão colher as consequências dos atos do último dia 24, mas sim, a população jovem, maioria, que votou pelo 'não'.

Além de má representada, injustamente enquadrada e indesejada, a comunidade jovem, imigrante, trabalhadora, a classe média e a maior parcela representativa da sociedade civil inglesa sofrerá, tanto politicamente quanto economica e educacionalmente, pela escolha de uma 'maioria' qualificada, que nada apresenta.

Crise europeia e consequências imediatas do Brexit

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Sobretudo, a crise existencial da Europa e sua esquizofrenia política possuem um futuro incerto, no sentido demográfico, econômico e geopolítico. Muitos dos desafios que a globalização traz agora se desenvolvem com mais permeabilidade (imigração, competitividade de trocas comerciais, novas tecnologias, direitos humanos).

Otimistas observarão o Brexit como um novo começo para a Europa - ou quase uma terapia de choque sem anestesia -, a qual busca um novo modelo de governança e independência, enquanto preservam as realidades individuais e coletivas europeias, como a abertura de mercados e fronteiras.

Na realidade, essa crise chega mesmo com o oposto de otimismo. A realidade inevitável de menos comércio, menos multiculturalismo, mais protecionismo e uma desintegração de valores europeus que, até então, eram indivisíveis, hoje, começa a tomar uma forma excludente, de proporções das quais ainda temos que acompanhar.

Em um continente que há menos de 30 anos atrás celebrava a queda do Muro de Berlim, a expansão e provável consolidação de tais políticas representam um grande retrocesso e a construção de novos muros - sociais, políticos, econômicos e culturais. Barreiras essas que são bem mais difíceis de serem derrubadas do que os muros de concreto.

*Texto originalmente publicado em Diplomacia Civil

LEIA MAIS:

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