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'Queria ser lembrado como um bom palhaço': Uma entrevista (quase) inédita com Domingos Montagner

Publicado: Atualizado:
DOMINGOS MONTAGNER
Reprodução/Facebook
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A cena final da novela Velho Chico, exibida no último sábado (1), me fez pensar que Domingos Montagner permanecerá no imaginário das pessoas como Santo. A trama terminou com a imagem do ator em um barco no Rio São Francisco, imortalizando o personagem e o rio que lhe custaram a vida. Foi belo e triste, como são as tragédias, assim como as cenas das últimas semanas, em que a presença do ator foi marcada pela ausência, quando os colegas contracenavam com a câmera, como se ele estivesse ali.

O último episódio da novela das nove, contudo, me levou de volta a uma entrevista que fiz com Domingos, há 3 anos, para a extinta revista Status. Na época, agosto de 2013, ele estava cheio de planos, tinha acabado de se mudar para o Rio com a família, prestes a estrear como Raimundo, na novela Jóia Rara. Imaginando um futuro distante, no fim da conversa, perguntei sobre como gostaria de ser lembrado. Ele pensou um bocado e depois de longa pausa respondeu: "Como um bom palhaço".

Não cheguei a ver Domingos no picadeiro como o palhaço Agenor. Quem o assistiu ao vivo na Cia. La Mínima ou no Circo Zanni talvez guarde essa lembrança. Confesso que sempre me soou contraditório um palhaço tão galã. Na entrevista, outros detalhes de sua personalidade pareceram antagônicos: de um lado, o artista circense, casadão, pai de família. De outro, o galã da novela que chegou de moto e casaco de couro, que dizia ser apreciador de uísque (em um papo voltado para a revista masculina) e despertava nas fãs cantadas como: "Isso não é um Domingos, é um feriado prolongado!". Só sei que voltei me perguntando como descreveria, no texto de abertura da matéria, aqueles dois lados do ator, meio bandido, meio mocinho, de um jeito original. Com o enigma na cabeça, lembro que fui lavar louça e me veio Elis Regina cantando: "Eu hoje me embriagando, de uísque com guaraná...".

A combinação de álcool e refrigerante da canção Dois pra lá, dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc, me pareceu perfeita para definir Domingos Montagner: "Uísque com guaraná" (leia aqui a entrevista publicada). Poucos dias antes de sua morte, cheguei a usar esse texto como exemplo de como reunir ideias antagônicas em um curso de escrita criativa. Os alunos curtiram, alguns me escreveram no dia da tragédia mencionando a entrevista. Eu fiquei, como todo mundo, perplexa. Diante dos rumores sobre o desaparecimento do ator, imaginei que só podia ser mentira. E de péssimo gosto. Mas quem inventaria um enredo tão similar à realidade? O destino deu a resposta.

Talvez por ter estado com o ator pessoalmente, ainda que por poucas horas, fiquei especialmente tocada. Domingos era mesmo tudo o que parecia ser: um homem bonito, de sorriso aberto, educado e generoso nas respostas, sem o menor traço de estrelismo que acomete alguns galãs. A perplexidade diante de sua partida precoce foi agravada pelo mistério e a sincronicidade de situações que tornaram a máxima "a vida imita a arte" difícil de engolir. Hoje, uma segunda-feira cinza, três domingos depois da tragédia que levou o ator, compartilho aqui a entrevista na íntegra (sem a edição da revista), para não guardar comigo esse conteúdo e, de certa forma, homenageá-lo. Como Santo dos Anjos ou Agenor, entre tantos outros personagens, certamente Domingos Montagner vai ficar na memória do público não apenas como um bom ator ou palhaço, mas como uma pessoa que espalhou no mundo sobretudo luz e poesia.

O que você anda se perguntando?
Domingos Montagner: Nossa, tanta coisa! Eu vivo me perguntando se estou conduzindo bem a educação dos meus filhos. Penso muito na família, agora que mudamos para o Rio. Foi algo que questionei bastante. Ao mesmo tempo em que, gravando novela, eu ficava distante, me incomodava deslocar todo mundo. Em São Paulo, morávamos no Embu das Artes, em uma casa meio chácara, onde eles tinham um círculo grande de amigos. Eu me perguntava se essa mudança não ia abalar a vida tão harmoniosa que construímos.

E como tem sido a adaptação no Rio (em agosto de 2013)?
Agora está bacana. O mais velho tinha mais resistência. Ele é conservador. Até se parece um pouco comigo nesse sentido. Eu demoro para fazer mudanças. Mas quando resolvo, vou, e ele também. Tanto que, ao chegar, todos os dilemas acabaram. Eu sempre dizia: "Um dia vou morar na praia". Mas tem aquela coisa, paulista quer ir para a praia e levar microondas, torradeira... Não dá. (risos) No Rio, não tem como ter o que São Paulo tem, e vice-versa.

Conte sobre suas origens.
Eu nasci no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Tenho um irmão mais velho, que é economista. Meu pai era comerciante, sempre teve bar e restaurante no centro da cidade. Eram aqueles restaurantes antigos, em que no caixa vendia cigarro, chocolate, baralho, sabe? Eu ajudava no caixa, no café.

Você começou a trabalhar cedo, então.
Sou quase aposentado! (risos) Comecei as 16 anos, como office boy. Depois trabalhei como arquivista nessa mesma empresa de engenharia. Daí fui servir o exército. Era época de ditadura, não tinha como escapar. Saindo, entrei na faculdade de educação física e comecei a dar aulas para adolescentes. Foi assim por 10 anos.

Como o professor de educação física virou ator, o ator virou palhaço, e o palhaço virou galã?
Sempre gostei de educação. Comecei no teatro pesquisando novas didáticas. Até que entrei para a primeira companhia. Abracei o teatro e nunca mais fiz outra coisa. Sempre vivi dos meus espetáculos. Senti que era ali. Quando a gente sente, pode ser difícil, mas a coisa flui. Descobri a comédia satírica, que mistura circo, dança, música. Entrei para o Circo Escola Picadeiro, estudei com seu Roger Avanzi, o famoso palhaço Picolino. Depois conheci outros grandes, como Leris Colombaioni, italiano, que trabalhou com Fellini. Sem falar nas referências visuais, como o Golias, que plantou em mim essa vontade de ser palhaço.

Tem um lado melancólico no palhaço.
Faz parte. O bom palhaço é muito humano. Mas não é triste. Os grandes que conheci eram felizes, sem fazer palhaçada o tempo todo. Gracinha é uma coisa, humor é outra. O palhaço resulta simples, mas é sofisticado.

Você não parece um cara engraçado.
Em geral as pessoas me acham sério. Deixo para fazer humor mais no palco. Quem me vê na TV e nunca me viu no circo, se surpreende ao ver que meu trabalho não passa necessariamente por ser galã. Sobretudo porque não sou um galã, eu faço um galã. É roubada entrar em cena "se achando" o galã. Você o carisma. O galã acontece.

Qual é a sua referência de galã?
Gosto da escola italiana, do (Marcello) Mastroiani, do Vitorio Gassman. São atores imponentes, bonitões, que souberam adequar o humor a sua figura. Meu trabalho sempre foi off, circo, rua. Diante do convite para o primeiro papel na TV, na minissérie Mothern, do GNT, hesitei. Pensei muito.

O que você leva em conta ao tomar uma decisão?
Vou muito pela intuição. Percebi durante a vida que, quando não levei o instinto em conta, me dei mal. Na primeira dúvida, vejo se a sensação em relação a situação é boa. No caso de "Salve Jorge", senti que seria legal. Tinha amigos no elenco. Era um papel que me abria um leque de opções de atuação. Mas não deixo de lado a análise concreta. Não era um papel de dois meses. Aquilo ia influenciar meu cotidiando de maneira substancial.

Realmente, o Ziah de Salve Jorge roubou a cena e te consagrou como galã. O que esse personagem te acrescentou?
Um monte de coisas, viu? Sou calouro na televisão. Tinha feito o Herculano, de Cordel Encantado, um cangaceiro, lúdico. A passagem do circo para o vídeo foi suave. Depois veio o presidente, em O Brado Retumbante, um personagem realístico. O Ziah era um cara entre o mágico e o real. Ele carregava uma mítica forte da Turquia, do guia conquistador, e ao mesmo tempo tinha uma aura fantástica: era encantador de cavalos, morava numa caverna. A grande qualidade do ator são suas escolhas. Porque você pode fazer um personagem de diversas maneiras. E tem de ter uma coerência, até, sei lá, na maneira como ele toma um café ou bebe água. O mais difícil é conduzi-lo até o final. E o Ziah atingiu uma empatia grande.

É curioso como você parece agradar o público feminino de 9 a 90 anos. Ao mesmo tempo, tem um visual rústico, diferente dos galãs asseados e certinhos que a TV Globo vende. Voce se vê assim? Acha que o sucesso decorre disso também?
Não sei. Uma das coisas interessantes da arte é essa imprevisibilidade. Nunca se sabe o que causa esse "uau!". Era um pouco improvável eu virar galã. Primeiro que comecei com quase 50 anos. Minha figura criou uma empatia, talvez pela surpresa de aparecer assim, mais velho. Acredito que a trajetória artística também conta. Adoro minha história: ter vindo do teatro, do circo, ajuda na apreciação dessa figura. Quanto ao padrão rústico, tem outros exemplos aí. Acho que comunico outras coisas além da figura. Vem tudo junto. Como quando você gosta de uma pessoa, ela é bonita, mas tem algo mais ao qual se apega.

Mesmo na maturidade, o ego deve pegar...
O ego é complicado, né? Você precisa mandar ele ficar na dele. Por ser mais velho, tenho mais autoridade. Mando ele ficar quietinho e ele fica. Porque tudo leva ao descontrole. É esquisito andar na rua e todo mundo te conhecer. Eu me digo: "Calma, isso passa". Por ter tantos anos de carreira, sei que é efêmero. Já fiz espetáculos que foram um sucesso e pensei que estava com a vida ganha. No ano seguinte, nada. A vida é assim, irregular. As pessoas que permanecem são aquelas que levaram seu ofício em primeiro plano. Tendo um bom trabalho, a base cresce sólida. Com Ziah, aprendi a conviver com a fantasia que o personagem gera. Quando acaba a novela, acaba a fantasia. Se não tomar cuidado, você acaba junto.

Imagino que sua mulher tenha se casado com o artista de circo e agora está com o galã da novela, tendo rumores de affair com atrizes etc. Como lidam com isso?
Sei que para ela é difícil. Mas essa decisão de eu ir para a TV passou por ela, e foi incentivada até. Só que, me convidaram para fazer uma novela, não para ser galã. Em Salve Jorge, eu ficava muito tempo longe, isso foi complicado. Mas fomos administrando à medida em que foi acontecendo. Sem perder o chão. Se você se distrai, a relação vai à deriva. Você não pode perder a noção de quem é. Aos 50 anos, ao menos sei o que não sou. A idade ajuda a ter menos ilusões.

Parece que tudo acontece meio tarde para você: casou e teve filhos aos 40...
Filhos, sim. Mas Luciana é minha segunda mulher. Tive um primeiro casamento, que durou 12 anos. Sem filhos, por opção. No intervalo entre um e outro, fiquei sozinho.

Quantas vezes você amou?
Poxa, fazer conta...? Amei bastante. Amei essas duas vezes, amo muito agora. Mas tive muitas paixões. Não sei se amar e só quando se efetiva a relação. Vivi paixões tão legais, tão sofridas...

Algum fora fenomenal?
Nem cheguei a levar o fora. No ginásio, lembro que me apaixonei por uma garota. Ela nem soube. Foi completamente platônico e mal sucedido. (risos)

O que te encanta numa mulher?
Lógico que mulher bonita me atrai. Bonita de alguma forma. Porque a beleza é sensorial. Tem de vir acompanhada de uma personalidade sedutora, que tem a ver com espontaneidade, segurança, e principalmente bom humor.

Como você e sua mulher se conheceram?
Foi em um trabalho no nordeste. Ela é de Natal e fazia a produção do evento. Minha mulher é linda. Gostei do jeito dela conversar, do humor. Namoramos à distância por um ano. Depois ela veio para o circo comigo, fazia números aéreos. Hoje, trabalha na administração do Zanni.

Como soube que era a mulher da sua vida?
É complexo definir amor, não tenho essa pretensão. Mas acho difícil encontrar alguém e em um mês dizer que é a mulher da sua vida. Você constrói isso. Depois de um tempo, vieram os filhos, a forma de ela se relacionar com a casa, com a profissão. A realidade é a melhor escola. O cotidiano determina a cor bonita da relação.

O que te atrai num casamento longo?
O que se constrói junto. Há um processo de formação da personalidade, quando se vive com alguém, que é impossível conquistar sem essa experiência. Depois de tanto tempo, você se torna alguém que jamais seria se não estivesse com aquela pessoa. É genial. Você aprende a se conhecer, deixa de ser egoísta. Economiza até analista. E eu nunca fiz análise. Gosto de observar, de escutar. Se não fosse casado, não seria quem sou hoje. Eu me considero mais evoluído do que há 12 anos.

Beijo técnico, pegada técnica, isso existe?
Existe! Você tem de lembrar que, além daqueles dois, tem mais ou menos uns trinta do lado. O diretor, o maquiador, o figurino, e tem a câmera, o enquadramento, não pode cobrir a luz, e o diretor fala para virar um pouco para cá... Acredite.

É isso o que você diz para a sua mulher?
É! (risos)

E o ciúme, como fica?
Sempre tem um ciumezinho. Tem que ter. Eu também sou ciumento. Um pouquinho é saudável. Dá um frescor.

Sexo, só com amor?
Os dois valem a pena. A atração conta, tudo depende do momento. Contanto que seja sempre gentil.

O que é fidelidade para você?
Nunca defini, mas acho que passa pela honestidade. A fidelidade é o exercício da franqueza. Se fiz ou fiquei com vontade de fazer, e isso não for tratado... Se ponho em dúvida a relação, e acho que a pessoa que está comigo não merece ser informada, entro num código comprometido de honestidade. Se conto, é porque essa pessoa é fundamental. Casais ficam juntos muitos anos porque mil coisas foram trabalhadas no caminho. É preciso usar os dilemas para evoluir, senão não faz sentido.

O que a paternidade te trouxe?
Um choque de realidade. Fundamental para um ator. Os filhos me cobraram responsabilidade. Ser pai é um exercício incrível da existência. Quem tem filho é uma coisa, quem não tem é outra. Não sou melhor do que ninguém por isso, mas sou melhor do que eu era antes, por ser pai.

O que considera essencial ensinar aos seus filhos?
Alguns valores fundamentais. Honestidade nas relações. Responsabilidade pela própria vida, sem delegar para ninguém. Gentileza. Porque existe uma mítica do "fora da lei", das contravenções. Espero que eles não percam o rumo da bondade.

Hoje existe uma cultura da criança como centro das atenções...
Pois é. Cresci num tempo em que a criança é quem corria atrás do adulto. Meus pais vinham do pós-guerra, prezavam a boa educação, mas os diálogos não eram frequentes. Descobri as coisas na rua, com os amigos. O que era ruim. Mas hoje vejo um desequilíbrio, uma dificuldade em dizer não e ser mal quisto, que deixa as crianças confusas. Não é porque o filho te questiona que tem de ter razão. Ele só quer te testar. Dou altas duras nos meus filhos. Quinze minutos depois, eles estão abraçados comigo. Tenho que educar, pô.

Verdade que você não deixa eles verem novela?
Não é assunto para eles. Sem contar que acham chatíssimo. (risos) Em casa só temos uma televisão, não tem o negócio de uma na sala, outra no quarto... Novelas das nove trazem assuntos pesados, eu teria de explicar diariamente alguma coisa que não está na hora de eles saberem.

Drogas. Qual foi a sua experiência?
Nunca me atraí por drogas. Sempre fui do álcool. Gosto da social da cerveja, do whisky. Meu pai era dono de bar, conhecia a vida e foi rigoroso. Mas o vinho nas refeições, a prática social do álcool sempre foi natural e saudável. O que não rola é incentivar o alcoolismo. Hoje acho demais, moleque de 15 anos tomando vodka, e olha que eu gosto de beber...

Qual é o seu vicio favorito?
Uísque. Adoro.

O que pensa sobre a descriminalização da maconha?
Não acho tão simples. Mas a gente funciona no nível do palpite. Não sei se legalizar vai abrir o mercado, se o cara vai pagar imposto. Acho simplista, ingênuo até. Na Holanda, há uma quantidade de porte legal. Mas se trata de outra sociedade, a gente tem de contextualizar. A legalização de um porte mínimo talvez tenha um impacto positivo na criminalidade. Mas é que nem o trânsito, não tem uma coisa só que vai resolver. É o corredor, o rodízio...

Qual é a sua bandeira política?
Nunca me senti seguro para ter um partido. Estive no comício das Diretas, em 84. Fui a comícios do Lula. Mesmo sendo contra ao que aconteceu depois, é inegável a figura do Lula na história política do país. O cara que era operário, não se pode desprezar sua trajetória. Aconteceram erros incríveis. Mas é preciso ter um olhar macro. Analisar a história, o getulismo, a ditadura, onde embargamos. A evolução do processo democrático é isso, a gente reconhecer uma figura importante, analisar os erros e não cometer de novo. As manifestações são um bom sinal. A política atingiu um afastamento flagrante da realidade. A sensação do povo era de que a política estava em outro lugar. Vivemos um momento de despertar da população em relação ao seu destino.

Quando você mais batalhou na vida?
A vida toda. A rotina de um grupo independente de teatro é mambembe, itinerante. Às vezes deixava minha casa e ficava num trailer, no circo, com a família toda. Sempre nos mantivemos pelo trabalho. Somente nos últimos cinco anos, com o reconhecimento do Zanni e da companhia La Mínima, os trabalhos vieram com menos esforço. E, na TV, tenho carteira assinada.

Você já disse que no circo se sente mais criador. O palhaço é o papel preferido
Sim. Não que não goste de ser dirigido. Como ator, creio que fiz boas escolhas. Mas quando fico solto, vou criar um projeto pelo olhar do palhaço. É onde me sinto completo.Também fiz trapézio. Mas o trapézio cobra fisicamente... Não dá mais para fazer de quinta a domingo.

Alguma crise com a passagem do tempo?
Não. Ainda. Fico imaginando jogador de futebol quando tem que parar, deve ser um horror. No trapézio, rola uma eletricidade, e isso dá um traço de personalidade especial. Você vive um risco diário. Mas, até os 47, fiz acrobacias. Não estou tão mal assim.

Como mantém a forma?
Sou meio xiita. Antes o cotidiano do circo me bastava. Agora, amigos preparadores físicos me deram um treinamento. Faço na academia do prédio, na praia. Gosto de ar livre. Ás vezes, de manhã, fico na piscina com meus filhos. Quer ver me ver mal humorado é passar dois dias sem treinar.

Vaidades?
Tenho uma vaidade saudável, ligada a elegância. Gosto de um figurino básico, uma boa calça, um bom sapato. Gosto de perfume. Vou mudando conforme a época, mas são sempre fragrâncias secas.

O que o dinheiro realmente pode comprar?
Tenho um lado presenteador. Gosto de oferecer. Outro dia dei um uma jóia bacana, um brinco com pérolas para minha mulher. Mas em geral penso em estabilidade. Tenho um sentimento guerreiro pela família Aspiro um conforto relativo, uma escola boa para meus filhos. Gosto de boa comida em casa. Meu pai sempre dizia: "Não economize na geladeira, pra não gastar na farmácia". Meu maior luxo talvez seja comer e beber bem. Fora isso, ando de moto há 30 anos. Gosto de moto alta. O último presente grande que me dei foi minha moto.

Você é motoqueiro, então.
Motociclista. Motoqueiro não honra a categoria. Antigamente a gente tinha medo dos carros. Hoje temos medo dos motoqueiros. Os caras são apressados. Motociclista vive em outra dimensão. Ainda quero viajar de moto até a ponta do Chile.

Você também toca saxofone?
Sim, mas não sou músico. Sou proprietário de instrumento. (risos). O palhaço tradicional sempre tem um instrumento. Tentei o piano, mas não dava para carregar. Se não fosse ator, teria sido músico.

Tem uma coisa de perfeição em você. O cara ator, palhaço, galã, toca saxofone, tem uma mulher linda, três filhos lindos. O que você faz mal?
Informática. Sei o básico, entre abrir o e-mail e postar no Facebook. Não consigo evoluir. Um amigo me disse que existe uma incompatibilidade que os aparelhos sentem. Que nem cavalo quando sabe que o cara está com medo, sabe? Comigo é assim, tudo trava. Daí minha mulher mexe, funciona.

Como lida com perdas?
Eu processo. Recentemente perdi meus pais. É para sofrer? Vamos sofrer. Se ficar segurando, você carrega mais do que precisa. Perder pai e mãe dá a sensação de que a sua história também morre um pouco. Fica um pouco menos de você aqui.

Qual é a sua fé?
Fui formado na crença católica, mas como instituição, me afastei. Tenho minha relogiosidade particular. Todo dia de manhã e de noite, sozinho, faço a minha fezinha. São textos autorais. (risos) Gosto de agradecer. Acredito nessa parada de inconsciente coletivo. Peço pelo não-sofrimento. Minha religiosidade passa pela vibração de coisas positivas.

Quando chorou a última vez?
No enterro da minha mãe.

Homem chora?
Não sei, eu choro. Sou bem italiano, melodramático. Lembro do meu avô, rústico pra caramba, enxugando as lágrimas. É uma emoção tão primitiva. Acho legal. Às vezes vejo meu filho fazendo algo, me dá uma alegria, me emociono. Essa máxima de que homem não chora é para criança, para não valorizar um machucado. Não se pode levar a sério.

Como gostaria de ser lembrado?
(longa pausa) Como um bom palhaço.

Tem mesmo um carinho especial aí pelo palhaço...
O palhaço mudou minha vida. O meu jeito de ver o mundo. Tem o antes e depois. No palhaço, um exercício fundamental é se desapegar do ego. Ao pintar o rosto, ironizo a beleza, me volto para o humano. Mesmo os grandes atores não chegam a um grande palhaço. O palhaço é sublime. É o top da capacidade artística. Por isso, nem quero ser lembrado como um grande, mas um bom palhaço. Se eu fizer jus à dignidade dessa arte, estou feliz.

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