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Apesar dos ataques do ISIS, sou jornalista e muçulmana com esperança

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MUSLIM
AHMAD AL-RUBAYE via Getty Images
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Há algumas semanas, olhei para o relógio às 15h. O dia estava terminando e eu planejava o que fazer à noite. Queria ficar sozinha, mas meu telefone começou a vibrar.

Eram os últimos dias do Ramadã, os dias mais sagrados do mês em que os muçulmanos passam longas horas na mesquita, fazem mais doações de caridade e se esforçam para aproveitar a paz e virtude oferecidas por esse mês. Equilibrar o Ramadã com a vida na redação nem sempre é fácil. É quase impossível tentar desconectar-se num ambiente em que você tem de estar conectada o tempo todo. Mas, ainda assim, há momentos de calma, talvez na pausa para o almoço ou no começo da manhã.

Todo ano espero ansiosamente pelo efeito purificador do Ramadã. Um mês tão especial para milhões de pessoas do mundo inteiro nos dá tempo para refletir, para nos olharmos no espelho e perguntar: o que poderíamos estar fazendo melhor?

O Ramadã também oferece uma tranquilidade que costuma estar ausente de nossas vidas diárias. Exercitando disciplina sobre nossos desejos físicos, emocionais e mentais, conseguimos dominar nossos vícios e expressar nossa gratidão pelas coisas mais simples. Para mim, o Ramadã é amor, família e crescimento. No Ramadã, sempre existe esperança. Mas o jornalismo pode ser muito mais sombrio.

Na redação, as notificações começaram a piscar no celular: explosões na Turquia. Imagens de sangue derramado e famílias aterrorizadas começaram a aparecer nas minhas redes sociais. A Turquia, um país de maioria muçulmana, foi atingida por um atentado a bomba do ISIS. As notícias chegavam sem parar, e o número de mortos começou a aumentar rapidamente. A redação estava alerta e prontamente começamos a fazer nosso trabalho, a única coisa que podíamos fazer naquele momento: noticiar.

Alguns dias depois, meu telefone voltou a apitar freneticamente, dessa vez com notícias de Bangladesh. Meu coração ficou apertado com os detalhes do ataque horrendo do ISIS em outro país de maioria muçulmana.

Respirei fundo, orei e me lembrei: no Ramadã, sempre existe esperança.

Depois de uma semana movimentada, era hora de ir para casa. Sexta-feira: tinha decidido passar a noite na mesquita, um ritual comum durante as últimas dez noites do Ramadã, quando muçulmanos do mundo inteiro esperam que seja a noite sagrada do Laytul Qadr, ou a noite em que todas as preces são atendidas.

Fui para um canto e comecei a rezar, tentando - com todas as fibras do meu ser - ignorar meu telefone. Eu precisava daquilo. Comecei a abrir meu coração.

Mas é difícil ter sorte. Um dos piores ataques da história recente do Iraque aconteceu na manhã seguinte, matando mais de 200 pessoas prestes a se despedir do Ramadã e começar a celebrar os feriados do Eid. Dias depois da Turquia. Dias depois de Bangladesh, outro país muçulmano foi vítima de um atentado a bomba do ISIS.

Mas não parou ali. Menos de 24 horas depois, outro atentado suicida a bomba aconteceu do lado de fora da mesquita do Profeta Maomé, em Medina, na Arábia Saudita, a segunda cidade mais sagrada do Islã.

Como jornalista, infelizmente me deparo várias vezes com situações como essa. Olhe para qualquer parte do mundo e é fácil sucumbir a um buraco negro de negatividade e desesperança. É por isso que jornalistas são incentivados a se desconectar do mundo de vez em quando. Em uma era em que o globo está na palma das nossas mãos, isso é muito difícil.

Para vários americanos muçulmanos, entretanto, essa tarefa pode ser ainda mais complicada. Muitas vezes estamos não só cobrindo as notícias, mas consistentemente sendo parte do noticiário. Tentamos manter nossas identidades pessoais e nossas carreiras à parte, pois misturar as coisas pode resultar numa combinação perigosa e pouco saudável.

Mas dessa vez havia algo diferente. Esses ataques não foram como as notícias urgentes de sempre. Sendo jornalista, dizem, você aprende a lidar com esse tipo de situação. Tentei fazer isso naquela semana. Respirei fundo e comecei a ler minha lista de checagens habitual. Me certifiquei de que as pessoas que conheço naqueles países estavam bem e voltei a trabalhar.

Mas aí dei-me conta de que não aprendi a lidar com situações desse tipo.

Estou exausta com a ironia da minha existência. Quando corro para escrever sobre as notícias mais recentes, não consigo esconder a dor que sinto com o silêncio ensurdecedor no mundo inteiro depois de assassinatos não em um, mas em quatro países muçulmanos numa mesma semana.

Simplesmente não tenho como negar a realidade de que não houve check-ins no Facebook para as pessoas confirmarem que estavam bem. Não houve vigílias. Monumentos não foram iluminados de jeito diferente. Não houve orações. Só muçulmanos morrendo em um lado do mundo e, no outro, muçulmanos sendo assassinados a caminho das mesquitas, sendo atacados e revistados em público. Vivemos num mundo em que as pessoas ainda associam a brutalidade e a covardia do ISIS com as mesmas pessoas que morrem pelas mãos do grupo terrorista.

Apesar de estar de luto, não estou derrotada. Não saber lidar com essa situação na minha profissão me mantém em contato com minha humanidade. Me permite enxergar além dos números, me conectar com as histórias pessoais. Lutar contra um mundo que quer me colocar na mesma categoria que matou centenas de muçulmanos como eu.

Então, como jornalista muçulmano-americana, vou continuar noticiando os nomes das pessoas mortas e cujas famílias serão perseguidas por causa de sua religião. Tenho fé que o poder da palavra diminua a distância de empatia entre as mortes de muçulmanos e não-muçulmanos.

Estou magoada, mas tenho fé. O Ramadã não só me permitiu atravessar esses tempos difíceis como me deu a solidão necessária para enxergar a esperança. Me deu a força, nem que seja por um momento, para continuar enfrentando os comentários de ódio nas minhas redes sociais, as notícias de cortar o coração nos Estados Unidos e no resto do mundo, o silêncio ensurdecedor que as acompanha. Não é fácil ser uma jornalista muçulmano-americana, mas quando as opções são esperança e derrota, escolho a esperança.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- A relação perigosa entre o ataque na Turquia e o avanço do conservadorismo europeu

- Genocídio moderno: Os relatos do massacre contra os Yazidi pelo Estado Islâmico

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