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Cigarros eletrônicos: a nicotina líquida é segura?

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E CIGARETTES
JIM WATSON via Getty Images

O debate sobre os cigarros eletrônicos vem se aquecendo. Esses pequenos aparelhos que fornecem nicotina, movidos a bateria e sem fumaça, são uma porta para o hábito de fumar entre jovens, ou uma boa maneira de ajudar os fumantes a abandonarem o hábito? Especialistas em saúde pública são encontrados nos dois lados do debate.

Um artigo no "New York Times" em 22 de fevereiro citou duas figuras importantes, o doutor Michael Siegler, da Universidade de Boston, e o doutor Stanton A. Glantz, da Universidade da Califórnia em San Francisco. O primeiro afirma que os "e-cigarros" "podem ser o fim do hábito de fumar nos Estados Unidos", enquanto o doutor Glantz afirma que não apenas eles podem atrair as crianças para esse hábito, como também manter os adultos presos a ele. Um dos problemas desse debate é que há provas insuficientes para confirmar ou negar qualquer dessas alegações.

Faltam provas de que os e-cigarros ajudam a parar de fumar
Isso está começando a mudar. Um pequeno estudo relatado no "JAMA Internal Medicine" em 24 de março revelou que o uso de cigarros eletrônicos por fumantes não foi acompanhado por maiores índices de abandono ou redução do consumo de cigarros um ano depois. Essa descoberta parece sustentar a preocupação do doutor Glantz. Embora os autores reconheçam várias limitações em seu estudo, afirmam que "os regulamentos devem proibir publicidade que afirme ou sugira que os cigarros eletrônicos são dispositivos eficazes para parar de fumar, até que essas afirmações sejam comprovadas por evidências científicas".

Riscos da nicotina líquida
Ainda mais perturbador que a falta de evidências significativas em apoio às afirmações opostas sobre os riscos e os benefícios dos e-cigarros é o dano que pode ser causado pela nicotina líquida usada no equipamento. Outro artigo no "New York Times", publicado no mesmo dia que a pesquisa do "JAMA" [Jornal da Sociedade Americana de Medicina], relatou intoxicações acidentais, especialmente entre crianças, e casos envolvendo danos a adultos. Em sua forma líquida, a nicotina é uma neurotoxina poderosa que pode ser absorvida através da pele. A reportagem do "Times" cita toxicologistas que advertem que a nicotina líquida representa um risco significativo para a saúde pública.

Alguma coisa deveria ser feita para minimizar os riscos de danos, principalmente para crianças? Seria suficiente exigir rótulos de advertência nos frascos de nicotina líquida encontrados à venda?

Alguns produtores já estão usando esses rótulos voluntariamente, mas parece que não têm tido sucesso para proteger adultos ou crianças de acidentes. A Administração de Alimentos e Drogas dos EUA (FDA) ainda não regulamentou os cigarros eletrônicos; a reportagem do "Times" diz que a agência pretende regulamentar, mas não deu detalhes. Diante dos muitos anos que se passaram antes que a FDA começasse a regulamentar os produtos de tabaco, em 2009, poderá passar algum tempo até que o órgão tenha provas empíricas suficientes para justificar sua intromissão no mercado desses novos produtos.

Mais orientação necessária
No mínimo, precisamos de anúncios de saúde pública sobre os perigos da nicotina líquida -- tanto quando o produto é inalado como quando ele entra em contato com a pele. Uma mulher foi internada com problemas cardíacos quando seu cigarro eletrônico se quebrou quando ela estava na cama. Para ajudar a evitar o uso inadvertido por crianças, as tampas à prova de crianças comumente usadas em medicamentos e produtos domésticos são uma solução fácil. Mas além desses passos iniciais não está claro o que mais é garantido do ponto de vista da saúde pública. Embora as empresas comerciais detestem a regulamentação do governo, o presidente de uma empresa de cigarros eletrônicos foi citado na reportagem do "Times" de 24 de março dizendo: "Francamente, nós aprovamos algum tipo de regulamentação em torno desse líquido".

Um princípio de ética de saúde pública, conhecido como princípio precautório, afirma que "quando uma atividade aumenta as ameaças de danos à saúde humana ou ao meio ambiente, medidas de precaução devem ser adotadas, mesmo que algumas relações de causa e efeito não estejam plenamente estabelecidas cientificamente" (Science and Environmental Health Network, 26/01/1998, Conferência sobre o Princípio Precautório em Wingspread). Essa maneira bastante formal de dizer "melhor prevenir que remediar" é uma advertência útil, mas não dá uma orientação clara.

As opções de uma agência regulatória vão de simplesmente exigir rótulos de advertência a limitar o que a publicidade de um produto pode dizer a proibir totalmente sua venda. Como a última opção é altamente improvável no caso da nicotina líquida, só nos resta imaginar a melhor maneira de evitar danos a crianças e usuários adultos.

Será interessante ver onde a FDA entrará em ação. Enquanto isso, os usuários de e-cigarros o fazem sem orientação suficiente com base científica.

(Texto publicado originalmente no The Doctor's Tablet)