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E quando nossas Câmaras de Vereadores 'saírem do armário'?

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POLITICIAN LGBT
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Modesto foi o número de candidatos que se declararam gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais nestas eleições, representando apenas 0,04% do total de candidatos. E, pasme, este foi o maior índice desde 1996, ano em que se se iniciou o registro dos aspirantes "fora do armário", a partir de levantamento feito pela ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).

Em São Paulo, cidade com maior número de eleitores e com a maior quantidade de candidatos assumidos e aliados (18 candidatos), apenas duas vereadoras aliadas à causa foram eleitas, o que significa menos de 4% do total de 55 vereadores eleitos. Soninha (PPS) conseguiu 40.113 votos enquanto Adriana Ramalho (PSDB) recebeu 29.756 votos. Os demais estarão, quem sabe, na lista de suplentes ou esperarão, enquanto continuam desenvolvendo seus projetos políticos, uma nova oportunidade, seja em 2018 ou 2020.

Não tão distante de São Paulo, em Lins, cidade do interior paulista, o candidato pelo PSDB, Edgar de Souza, primeiro prefeito assumidamente gay do Brasil, foi reeleito nestas eleições com 47,99%, vencendo seu principal opositor, Rogério Câmara (PPS) com pouco mais de 2% de diferença. Este resultado traduz uma satisfação da população de Lins com o trabalho desempenhado por Edgar, que também se identifica como cristão e tucano, tendo abraçado outros segmentos sociais, independentemente de sua sexualidade.

Mas o que faz com que a população LGBT, diferente de outros grupos sociais (religiosos, desportivos, ideológicos, dentre outros) não consiga eleger número significativo de legisladores e líderes do executivo que, de fato, a represente?

Políticas públicas que promovem a diversidade e a inclusão LGBT são sempre difíceis de receber recursos públicos e serem implementadas, sobretudo por razões políticas, e, consequentemente, são pouco difundidas à sociedade como um todo.

Soma-se a isso o fato que tais políticas têm sérias dificuldades de mensuração de resultados e impacto social, isso se compararmos com os impactos de políticas públicas de saneamento básico, habitação, saúde e educação, por exemplo.

Ou seja, por mais que o candidato tenha realizado ações concretas em prol da causa, tendo garantido o acesso de pessoas LGBT a políticas públicas já existentes, bem como criado novas ações específicas à população (Centros de Referência, Espaços de Convivência, Eventos de Afirmação e Promoção à Diversidade, etc), suas ações não se tornam tão conhecidas ao público e reconhecidas quanto outras políticas públicas, sobretudo assistenciais.

Vale ressaltar que a ausência de financiamento eleitoral específico para campanhas de candidatos LGBT dificulta a disseminação de seu nome, ações e ideias, sobretudo a partir deste ano, marcado com um arrocho no processo de financiamento eleitoral.

Além disso, muitos candidatos e candidatas gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais se mantêm enclausurados em seus próprios preconceitos e medo de não aceitação social, optando por não revelar sua identidade sexual, o que implica na perda de um possível eleitorado LGBT. Nestes casos, enquanto não vencerem seus medos e preconceitos internos, melhor seja mesmo que não representem a causa. É preciso ter muita garra e coragem para tal.

Pensando no lado do eleitor, por mais qualificada que a população LGBT tenha se tornado ao longo dos últimos anos, conseguindo aos poucos uma melhor alocação no mercado de trabalho formal, ainda trata-se de um público que, no geral, pouco tem se interessado por política, tanto no debate quanto na atuação em formação e desenvolvimento de políticas públicas voltadas a sua própria população e à sociedade em geral.

Falta haver uma maior articulação dos grupos formais e informais já existentes, falta a criação de ONGs que desenvolvam ações de formação e capacitação sociopolítica para LGBTs (e não estamos falando apenas da periferia, nos centros econômicos também há muita ausência de consciência pública e cidadania), falta o engajamento de grandes figuras públicas e artísticas que promovam nomes de candidatos que, de fato, levem o arco-íris aos espaços públicos.

É necessário, portanto, ampliarmos os espaços de participação e interação social à população LGBT, garantindo ações progressistas e propositivas para uma maior diversidade e inclusão em nossa sociedade. No dia que as casas legislativas "saírem do armário", será este um bom sinal de humanização política e da garantia de uma cidade mais inclusiva.

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