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O que Crivella e Doria entendem, de fato, sobre diversidade?

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Reuters/GettyImages
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São Paulo. Manhã chuvosa de 21 de outubro de 2016. 7h30 da manhã. No trânsito, entro em minhas redes sociais e... surpresa! Me deparo com matéria que relembra discurso que o então candidato do PRB à Prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, realizou em pregação religiosa em 2012. No vídeo, ele relaciona a sexualidade de pessoas LGBT a questões no mínimo, eu diria, inconsistentes.

Leio o texto, inspiro, vejo o vídeo, paro, expiro. Não acredito. É raso demais para ter algum sentido. É bizarro demais para acreditar que tenha dito isso. Mas disse.

Me isento de entrar no mérito da discussão conceitual. Confesso que não tenho mais paciência para esmiuçar este tipo de debate que provocou. Lamentável ver que pode pensar assim e, pior, induzir pessoas a acreditarem no que vem pregando por aí.

Passam-se algumas horas, chega ao meio-dia e eis que, no mesmo tabloide, leio outra notícia do já eleito em primeiro turno prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB). Durante evento em Paris, ele relatou que irá doar o seu primeiro salário às 'crianças defeituosas' da AACD. Queria se referir às crianças com deficiência. Parecia um lindo gesto, mas doeu ouvir isso.

Defeituoso? Talvez esteja seu discurso que, este sim, deve ser consertado. Pode até ter sido um lapso, uma gafe, mas revelou ou um despreparo ou o eco de um desconhecimento quanto à questão das pessoas com deficiência.

Tentou retratar o fato de ter anunciado durante sua campanha que acabaria com pastas voltadas à inclusão e diversidade ao fazer tamanha bondade. Contudo, o que tem parecido é que estas pautas estarão longe de se tornarem prioridade em seu governo. Espero estar errado.

Falta media training? É oportunismo? Ingenuidade? Usa-se do discurso religioso para manipular as massas? Despreparo? Não tenho a resposta exata. Me preocupa, contudo, os posicionamentos públicos daqueles a quem entregamos a administração de nossas cidades.

Me questiono, sobretudo, quanto ao que eles entendem efetivamente sobre diversidade. Quão próximos estarão, de fato, dos que são diferentes aos seus rostos brancos, aos bairros chiques onde vivem, às suas contas bancárias, ao gênero a que se identificam e à condição familiar sob a qual se colocam? Qual o reflexo de seus discursos em suas ações como gestores públicos das duas principais, maiores e mais diversas [e desiguais] cidades do país?

Ou a inclusão e a diversidade são levadas à sério, ou não avançaremos enquanto País. Nossos representantes - independentemente de quem sejam ou de onde venham - precisam levantar esta bandeira, precisam trabalhar para garantir que políticas públicas voltadas à inclusão sejam elaboradas, ampliadas, aprimoradas. Se não, continuaremos tendo por aí representantes com discursos e ações defeituosos, mal resolvidos e intolerantes.

Mas não vou devolver na mesma moeda. Até porque, no caso do Crivella, entendo os "dramas que ele vive, as angústias que ele sofre, os seus problemas".

Resta-me, contudo, a reflexão e esperança que nós, cidadãos, teremos mais atenção a estas questões e cobraremos que nossos políticos desenvolvam ações afirmativas que promovam e solidifiquem cidades cada vez mais dignas, humanas e inclusivas.

Enquanto isso, melhor seja rezar o "Pai Nosso" pra que possa "perdoar a quem nos tem ofendido". Assim seja.

LEIA MAIS:

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