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Sobre a (falta de) diversidade no governo Temer

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Não há negros nem mulheres nos ministérios do novo presidente. Muitos não veem necessidade disto. Afinal, como tem sido observado, a primazia no processo de seleção desse pessoal de alto-escalão deve estar na competência dos mesmo e não em gênero, traços físicos e background sócio-econômico. Estamos falando, no fim das contas, da formação de um governo, e não em um ensaio para brochura de universidade internacional.

A tese/crítica faz sentido. Mas padece de pelo menos três graves falhas.Quais sejam:

1. Soa capciosa porque nos induz a acreditar que a introdução de diversidade no alto escalão de um governo serve tão somente para satisfazer as frequentemente irritantes preocupações com o "politicamente correto" (PC). Não é (ou não precisa ser). E isso me traz ao segundo problema.

2. Ignora a evidência existente sobre o impacto da diversidade da força-de-trabalho na performance da organização (para uma revisão da literatura, ver esse artigo aqui) e até mesmo no apoio político dos eleitores às políticas a serem implementadas (ver, nesse sentido, artigo de Jóhanna Birnir e David Waguespack). Nesse sentido, é possível ver a crítica à falta de diversidade não como uma pressão para ceder ao PC mas como uma lamentação por não colher os benefícios que a diversidade, mesmo ali, poderia ter -- respeitado, claro, que o governo não caísse numa espécie de discirminação reversa, com "overrepresentation" de minorias, como é provável de acontecer quando o empregador é "não-seletivo, como nos mostrou Morgan e Vardy (American Economic Review, 2009, vol. 1).

3. Ignora que é altamente improvável que no "pool" de candidatos aos cargos de ministro não haja pelo menos meia dúzia de mulheres (ou duas, para ficar no número do período FHC) capazes de satisfazer o critério de competência que deve ser exigido (uma expectativa pós-entrevista de que o indivíduo vai cumprir seu trabalho com quase certeza). Era possível, portanto, obter os benefícios de (alguma) diversidade sem comprometer a competência do time.

É possível, talvez, que a preocupação com diversidade seja desnecessária. Mas isso requereria demonstração empírica de que um mix heterogêneo de funcionários (diversidade de gênero, cor, idade, orientação sexual, origem, religião, estilo de vida etc etc) tem mais custos que benefícios para a organização. O que sabemos até o momento sugere que esse é dificilmente o caso.

A decisão do novo governo de não implementar algum grau de diversidade na equipe ministerial foi possivelmente fonte de arrependimento: deixou tanto benefícios de diversidade quanto benefícios políticos (não abrir brechas para críticas logo de início) "na mesa". Para um governo que começa em crise fiscal, sob fortes restrições orçamentárias, não se aproveitar desse "almoço (quase) grátis" parece simplesmente míope.

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