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Descobrindo o Vidigal

Publicado: Atualizado:
VIDIGAL
Christian Science Monitor via Getty Images
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Sabe aqueles passeios pela favela com turistas de binóculos em cima de um jipe? Sempre disse que devem ser evitados. Concordo com os críticos que dizem que aquilo parece um safari humano, algo desrespeitoso com os moradores dessas comunidades.

No entanto, sempre tive muita curiosidade com as favelas. Queria conhecê-las, conversar com as pessoas sorridentes que vivem nelas, saborear suas comidas e apreciar suas vistas. Em uma recente viagem ao Rio de Janeiro, tive uma oportunidade improvável.

Estava eu na cidade olímpica com meus pais procurando um bom lugar para comer. Pedi ajuda no Twitter e recebi uma resposta de um amigo gringo: "Vá para o Vidigal e procure o Bar Lacubaco. É totalmente seguro, barato e a comida é ótima".

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Fiquei em dúvida. Apesar de minha curiosidade, ainda estava um pouco inseguro. Eu já me viro bem no Brasil, mas meus pais chamam atenção a um quilômetro de distância. Em todo caso, eles concordaram em ir.

Primeiro problema: chegar lá. Cinco ou seis taxistas recusaram a corrida, citando o perigo de subir o morro. Pensei: sério? Talvez não fosse a melhor ideia, afinal. O sétimo motorista topou o corre, mas e aquilo que os outros haviam dito? Será que é realmente perigoso? "Bom, é uma favela, não é?", o taxista devolveu. "Coisas acontecem, mas alguns motoristas não gostam porque as ruas são estreitas e difíceis de dirigir".

Se essa era a verdadeira razão, me sentia mais confiante.

Mais ou menos na metade da principal rua do Vidigal se encontra o Bar Lacubaco. Saímos do táxi, pagamos nossa tarifa e ficamos olhando ao redor por alguns minutos. Foi estranho, porque sempre passava pela entrada da favela e ficava me perguntando como era lá dentro.

Imediatamente, tive a sensação de que tinha deixado o Rio e entrado em outra cidade. O agito era enorme: bares, lojas de todos os tipos, um banco e um supermercado. Basicamente, tudo o que uma comunidade necessita para sobreviver. As ruas estavam cheias de pessoas andando para cima e para baixo do morro íngreme. Crianças indo para a escola, trabalhadores reparando vias e cabos aéreos, centenas de moto-táxis circulando. A vista era espetacular, mas de onde estávamos não víamos o mar. Toda a favela estava radiante de grafites, que claramente são um importante aspecto do Vidigal. Nunca tinha visto artes de rua tão impressionantes.

O Bar Lacubaco é um pequeno e colorido restaurante, com as paredes repletas de fotos de comentários positivos recebidos pelas principais revistas e jornais do Brasil. Decidimos comer o prato do dia: picanha com arroz de brócolis, feijão e batatas fritas. Foi incrível. Um prato simples, mas saboroso e muito bem servido. Foi de longe a refeição mais barata que tivemos no Rio. Recomendo muitíssimo. Mas chegue cedo, pois na hora do almoço o local fica bastante movimentado.

Passamos a tarde na praia da Barra, que fica nas redondezas, mas algo estava incomodando todos nós: não tínhamos visto o suficiente. Decidimos voltar ao pôr do sol, mas desta vez para o topo do morro. Ficamos então sabendo do Bar da Laje. O caminho até lá foi uma experiência incrível. Tudo se tornava mais rústico na medida em que nos aproximávamos do ponto mais alto do Vidigal.

O Bar da Laje, porém, é meio que uma armadilha de gringo: um clube no topo da favela onde as celebridades se encontram. A vista é absolutamente espetacular. À esquerda está a praia de ipanema, a frente o Oceano Atlântico, atrás as montanhas e a floresta tropical. Foi sensacional. Tomamos umas e outras, admiramos a vista e conversamos com alguns moradores fora do bar. As crianças batiam bola, enquanto os homens mais velhos assistiam ao futebol nas televisões dos bares. A polícia patrulhava, conversando com todos pelo caminho.

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Um motorista local com quem conversávamos concordou em nos levar de volta à entrada da favela em seu carro. Já estava escuro e não estávamos dispostos a enfrentar a caminhada, que levaria uns 45 minutos. O lugar é enorme! Ele então nos perguntou se queríamos um pequeno passeio. Olhamos nervosamente entre nós e concordamos, partindo para o meio da favela a pé. O que se seguiu foi uma experiência intimista com alguém que viveu no Vidigal a vida toda.

A paixão de nosso guia por sua comunidade brilhava através de seus olhos cheios de orgulho. Ele explicou tudo sobre o lugar. Levou-nos à sua casa para nos mostrar a maravilhosa vista que tem; apresentou seus vizinhos (alguns dos quais também eram gringos) e família e nos mostrou alguns de seus bares favoritos. Falamos sobre os taxistas que haviam se recusado a nos levar para a favela. A resposta foi que grande parte da classe média do Brasil, incluindo motoristas de táxi, tem preconceitos em relação à favela e seus moradores. Aliás, a maioria das pessoas que visitam favelas é de gringos, porque os brasileiros simplesmente não gostam da ideia. Ele acrescentou, porém, que isso está mudando lentamente.

O que mais me impressionou foi a história de pacificação da comunidade. O projeto de pacificação das favelas tem sido amplamente criticado e com razão, mas não no Vidigal, ele nos disse. A polícia chegou lá de forma respeitosa, trabalhando com a comunidade para torná-la mais segura para todos. Agora, ele disse, qualquer um pode andar por ali durante o dia e a noite. Antes, não era permitido dirigir pela favela sem autorização do tráfico. Hoje, o Vidigal é uma favela segura e próspera, devidamente policiada.

Conheci uma comunidade forte onde as pessoas olham umas pelas outras e estão felizes. Em alguns sentidos, o Vidigal é vítima de seu próprio sucesso, porque a Copa do Mundo, os rumores de que David Beckham havia comprado uma casa no local e a compra de propriedades e negócios pelos gringos trouxeram uma rápida gentrificação. Mas, como disse nosso motorista, não se pode colocar um preço sobre o Vidigal.

Se você tem alguma dica de viagem para mim, entre em contato pelas redes sociais, como meu blog, YouTube, Instagram, ou Twitter.

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