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Para a turma de 2016: Sejam resilientes e encontrem a gratidão profunda

Publicado: Atualizado:
SHERYL SANDBERG
Reprodução/Facebook
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*Post adaptado do discurso proferido na formatura da UC Berkeley, em 14 de maio de 2016.

Obrigada, Marie. E obrigada estimados membros do corpo docente, pais orgulhosos, amigos devotados, irmãos aborrecidos. Parabéns a todos vocês... e especialmente à magnífica turma de formandos de Berkeley em 2016!

É um privilégio estar aqui em Berkeley, que produziu tantos ganhadores do Prêmio Nobel, vencedores do Turing Award, astronautas, membros do Congresso, medalhistas de ouro nas Olimpíadas... e isso só contando as mulheres!

Berkeley esteve sempre à frente dos tempos. Na década de 1960, vocês lideraram o movimento pela livre expressão. Naquela época, as pessoas costumavam dizer que, com tanta gente de cabelo comprido, como é que sabemos quem é menino e quem é menina? Agora temos a resposta: coques masculinos.

Desde cedo, Berkeley abriu as suas portas para toda a população. Quando este campus foi inaugurado, em 1873, a turma incluía 167 homens e 222 mulheres. Foram necessários mais 90 anos para que minha escola desse um diploma para uma mulher solteira.

Uma das mulheres que vieram para cá em busca de oportunidades foi Rosalind Nuss. Roz cresceu esfregando o chão da pensão Brooklyn onde morava. Ela foi tirada da escola no ensino médio para ajudar a sustentar a família. Um de seus professores insistiu que seus pais a colocassem de volta na escola -- e, em 1937, ela se sentou onde vocês estão sentados hoje e recebeu um diploma de Berkeley. Roz era minha avó. Ela foi uma enorme inspiração para mim, e eu sou tão grata por Berkeley ter reconhecido o potencial dela.

Quero separar um momento para oferecer um parabéns especial aos vários estudantes aqui hoje que são a primeira geração de suas famílias a se formar na faculdade. Que feito notável. Hoje é um dia de comemoração. Um dia para celebrar o trabalho duro que trouxe todos até aqui.

Hoje é um dia de agradecimento. Um dia de agradecer aqueles que te ajudaram a chegar aqui - te alimentaram, te ensinaram, te aplaudiram, enxugaram suas lágrimas. Ou pelo menos os que não rabiscaram sua cara com canetinha quando vocês dormiram numa festa. Hoje é um dia de reflexão. Porque hoje marca o fim de uma era de suas vidas e o começo de algo novo.

Um discurso de formatura deve ser uma dança entre juventude e sabedoria. Vocês têm a juventude. Alguém chega para ser a voz da sabedoria - essa parte deveria caber a mim. Estou aqui para contar todas as coisas que aprendi na vida, vocês jogam os chapéus para cima, deixam suas famílias tirar um milhão de fotos -- não se esqueça de postá-las no Instagram --, e todo mundo vai para casa feliz.

Hoje vai ser um pouco diferente. Ainda vamos jogar os chapéus para cima e tirar as fotos. Mas não estou aqui para contar todas as coisas que aprendi na vida. Hoje vou tentar contar o que aprendi na morte. Nunca falei publicamente sobre isso antes. É difícil. Mas vou fazer o meu melhor para não assoar o nariz nesta bela beca de Berkeley.

Um ano e treze dias atrás, perdi meu marido, Dave. Sua morte foi repentina e inesperada. Estávamos na festa dos 50 anos de um amigo, no México. Tirei uma soneca. Dave foi para a academia. O que se seguiu foi o impensável -- encontrá-lo caído no chão. Voltar para casa para contar aos meus filhos que seu pai se fora. Olhar o caixão descendo.

Durante muitos meses, e várias vezes desde então, fui engolida pela névoa profunda da tristeza -- o que penso como o vazio, um vazio que enche o coração e os pulmões, que restringe sua capacidade de pensar e até mesmo de respirar.

A morte de Dave me mudou de maneiras muito profundas. Aprendi sobre as profundezas da tristeza e a brutalidade da perda. Mas também aprendi que, quando a vida te puxa para baixo da água, você pode tomar impulso no fundo, passar da superfície e respirar novamente. Aprendi que, diante do vazio -- ou de qualquer desafio --, você pode escolher alegria e significado.

Compartilho isso na esperança de que hoje, ao dar o próximo passo em suas vidas, vocês possam aprender as lições que só aprendi na morte. Lições sobre esperança, força e a luz dentro de nós que não será apagada.

Qualquer pessoa que tenha passado por Cálculo sabe o que é decepção. Você queria um A, mas tirou B. OK, vamos ser sinceros -- você tirou A --, mas ainda está com raiva. Você se candidatou a um estágio no Facebook, mas só conseguiu uma vaga no Google. Ela era o amor da sua vida... mas aí ela te arrastou para a esquerda.

A série Game of Thrones se afastou demais dos livros -- e você se deu o trabalho de ler todas as 4.352 páginas.

Vocês quase certamente irão enfrentar adversidades piores e mais profundas. Há as oportunidades perdidas: o trabalho que não dá certo, a doença ou acidente que mudam tudo em um instante. Há perda de dignidade: a dor aguda do preconceito. Há a perda do amor: os relacionamentos rompidos que não têm mais volta. E às vezes há a perda da própria vida.

Alguns de vocês já viveram o tipo de tragédia e dificuldade que deixa marcas indeléveis. No ano passado, Radhika, vencedora da Medalha University, falou tão bem sobre a perda repentina de sua mãe.

A questão não é se algumas dessas coisas vão acontecer com você. Elas vão. Hoje quero falar sobre o que acontece em seguida. Sobre as coisas que vocês podem fazer para superar a adversidade, não importa que forma ela assuma ou quando surjam. Os dias fáceis diante de vocês serão fáceis. Mas os dias difíceis - que te desafiam profundamente -- é que vão determinar quem vocês são. Vocês não serão definidos apenas por aquilo que conquistarem, mas pela forma como sobreviverão.

Poucas semanas depois da morte de Dave, estava conversando com meu amigo Phil sobre uma atividade de pai e filho. Dave não estava mais entre nós para participar. Bolamos um plano para substituí-lo. Chorei: "Mas eu quero o Dave". Phil me abraçou e disse: "A opção A não está disponível. Então botar para foder com a opção B."

Todos nós, em algum momento, temos de optar pelo plano B. A questão é: o que fazer então?

Como representante do Vale do Silício, tenho o prazer de dizer que podemos aprender com dados. Depois de passar décadas estudando como as pessoas lidam com contratempos, o psicólogo Martin Seligman descobriu que há três letras - P, A, P, de personalização, abrangência e permanência -- fundamentais para superar dificuldades. As sementes da resiliência são plantadas de acordo com maneira como processamos os eventos negativos em nossas vidas.

A primeira letra é o P de personalização -- a crença de que a culpa é nossa. Isso é diferente de assumir responsabilidades, o que vocês devem fazer sempre. A lição é que nem sempre temos culpa pelo que acontece conosco.

Quando Dave morreu, tive uma reação muito comum: me culpar. Ele morreu em segundos, por causa de uma arritmia cardíaca. Debrucei-me sobre o histórico médico dele, me perguntando o que eu poderia -- ou deveria -- feito. Só aceitei que não poderia ter evitado sua morte depois de conhecer as três letras de Seligman. Os médicos não haviam identificado a doença arterial coronariana. Eu sou formada em economia; como poderia chegar a um diagnóstico?

Estudos mostram que superar a personalização te faz uma pessoa mais forte. Professores que sabiam que podiam melhorar ajustaram seus métodos depois de ver seus alunos não passarem de ano - e as turmas seguintes tiveram ótimas notas. Nadadores universitários que tinham desempenho inferior, mas acreditavam que eram capazes de nadar mais rápido, melhoraram seus tempos. Não levar os fracassos para o lado pessoal nos permite nos recuperar -- e até mesmo prosperar.

A segunda letra é A, de abrangência -- a crença de que um evento vai afetar todas as áreas de sua vida. Conhece aquela música Everything is Awesome (Tudo é maravilhoso, em tradução livre)? É o contrário: tudo é horrível. Não há onde se esconder de uma tristeza que tudo consome.

Os psicólogos infantis com quem falei me incentivaram a colocar meus filhos de volta na rotina o mais rápido possível. Então, dez dias depois da morte de Dave, eles voltaram para a escola, e eu voltei a trabalhar. Lembro de participar da primeira reunião no Facebook depois da minha volta. Estava envolvida em uma profunda neblina. Tudo o que conseguia pensar era: "O que é que todo mundo está falando? Que importância isso pode ter?" Mas então fui arrastada para a discussão e, por um segundo -- uma breve fração de segundo --, esqueci a morte.

Esse breve segundo me ajudou a ver que havia outras coisas na minha vida que não eram horríveis. Meus filhos e eu somos saudáveis. Meus amigos e família foram tão amorosos e nos carregaram - às vezes literalmente.

A perda de um parceiro muitas vezes tem consequências financeiras negativas graves, especialmente para as mulheres. Então, muitas mães solteiras -- e pais - lutam para fechar as contas da casa ou têm empregos que não lhes dão o tempo necessário para cuidar dos filhos. Eu tinha segurança financeira, a capacidade de ficar fora do escritório se fosse necessário e um emprego em que eu não só acreditava, mas em que realmente é OK passar o dia todo navegando no Facebook. Aos poucos, meus filhos começaram a dormir durante a noite, chorando menos, brincando mais.

A terceira letra é o P, de permanência -- a crença de que a dor vai durar para sempre. Durante meses, não importava o que eu fizesse, parecia que a dor excruciante estaria sempre lá.

Costumamos projetar nossos sentimentos de hoje indefinidamente no futuro -- e sentir o que chamo de segunda derivada desses sentimentos. Nos sentimos ansiosos -- e então nos sentimos ansiosos porque estamos ansiosos. Nos sentimos tristes -- e então nos sentimos tristes porque estamos tristes. Em vez disso, devemos aceitar os nossos sentimentos -- mas reconhecer que eles não vão durar para sempre. Meu rabino me disse que a cura seria o tempo, mas que por agora eu deveria "aceitar".

Nenhum de vocês precisa de mim para explicar a quarta letra... que é, naturalmente, o P de pizza. Mas gostaria de ter sabido sobre essas três letras quando tinha a sua idade. Essas lições teriam ajudado tanto, em tantas ocasiões.

No primeiro dia do meu primeiro emprego depois da faculdade, meu chefe descobriu que eu não sabia inserir dados no Lotus 1-2-3. Isso é uma planilha eletrônica -- perguntem para os seus pais. Ele ficou boquiaberto e disse: "Não acredito que você conseguiu esse emprego sem saber isso", e saiu da sala. Fui para casa convencida de que seria demitida. Achei que era péssima em tudo... mas na verdade eu era péssima só com planilhas. Entender a ideia de abrangência teria me poupado de muita ansiedade naquela primeira semana.

Gostaria de ter sabido mais sobre permanência quando terminei com namorados. Teria sido reconfortante saber que o sentimento não duraria para sempre e se eu estava sendo sincera comigo mesma... assim como esses relacionamentos não o foram.

E gostaria de ter entendido a personalização quando namorados terminaram comigo. Às vezes, o problema não é com você -- é realmente com eles. Sério, aquele cara nunca tomava banho.

E todas as três letras se uniram contra mim nos meus vinte anos, depois que meu primeiro casamento terminou em divórcio. Na época, me considerava que era um enorme fracasso, a despeito de todas as minhas conquistas.

As três letras são reações emocionais comuns a tantas coisas que nos acontecem -- em nossas carreiras, nossas vidas pessoais e nossos relacionamentos. Vocês provavelmente estão sentindo uma delas agora, em relação a algo da suas vidas. Mas, se perceberem que estão caindo numa das armadilhas, podem se salva a tempo. Assim como nossos corpos têm um sistema imunológico fisiológico, nosso cérebro tem um sistema imunológico psicológico -- e há coisas que vocês podem fazer para fazê-lo pegar no tranco.

Certo dia, meu amigo Adam Grant, que é psicólogo, sugeriu que pensasse como as coisas poderiam ter sido piores. Isso foi completamente contra-intuitivo; para mim, a maneira de me recuperar seria tentar encontrar pensamentos positivos. "Pior?", perguntei. "Você está brincando? Como as coisas poderiam ser piores?" A resposta foi direta: Dave poderia ter tido essa mesma arritmia cardíaca enquanto estava dirigindo, com os filhos no carro." Uau. No momento em que ele disse isso, fiquei imensamente grata por minha família estar viva e saudável. Que a gratidão se sobrepôs a parte da dor.

Encontrar gratidão e apreço é a chave para a resiliência. As pessoas que separam um tempo para listar as coisas pelas quais são gratas são mais felizes e mais saudáveis. Contar suas bênçãos pode realmente aumentar suas bênçãos. Minha resolução de Ano Novo deste ano é anotar três momentos de alegria antes de ir para a cama cada noite. Esse simples ato mudou a minha vida. Porque, não importa o que aconteça, todos os dias vou dormir pensando em algo alegre. Tentem. Comecem hoje à noite, quando vocês têm tanta coisa boa para colocar na lista - mas talvez seja melhor fazer isso antes de ir para o bar, ou então podem esquecer tudo.

No mês passado, 11 dias antes do aniversário da morte de Dave, caí no choro com uma amiga. Estávamos sentadas no chão do banheiro. Eu disse: "Onze dias. Há um ano, ele tinha onze dias de vida. E não tínhamos ideia. "Nos olhamos entre as lágrimas e nos perguntamos como viveríamos se soubéssemos que tínhamos só mais onze dias de vida".

No dia da formatura, vocês podem se perguntar como viveriam se tivessem mais onze dias? Não estou falando em detonar tudo e fazer festa sem parar - embora hoje seja exceção. Falo em viver sabendo como seria precioso cada um dos dias. Como cada dia é realmente precioso.

Há alguns anos, minha mãe teve que de colocar uma prótese no quadril. Quando ela era mais nova, sempre caminhou sem dor. Mas, conforme o quadril foi se desintegrando, cada passo era mais doloroso. Hoje, anos depois da operação, ela é grata por cada passo que dá sem sentir dor -- algo que nunca teria ocorrido a ela antes.

Aqui, hoje, um ano depois do pior dia da minha vida, duas coisas são verdadeiras para mim. Tenho um enorme reservatório de tristeza que está sempre comigo -- bem aqui, onde posso tocá-lo. Nunca soube que eu poderia chorar tantas vezes -- ou tanto.

Mas também estou consciente de que estou andando sem dor. Pela primeira vez, sou grata por cada inspiração e expiração -- grata pelo dom da própria vida. Costumava comemorar meu aniversário de cinco em cinco anos, e aniversários de amigos, às vezes. Agora comemoro sempre. Costumava ir dormir preocupada com todos os meus erros do dia -- e pode acreditar quando digo que essa lista costumava ser bem grande. Agora me esforço muito para me concentrar nos momentos de alegria de cada dia.

É a maior ironia da minha vida: perder meu marido me ajudou a encontrar mais profunda gratidão -- gratidão pela bondade dos meus amigos, pelo amor da minha família, pelo riso dos meus filhos. Minha esperança é que vocês encontrem essa gratidão -- não apenas nos dias bons, como hoje, mas também nos dias ruins, quando vocês realmente precisarem dela.

Há tantos momentos de alegria à sua frente. A viagem que vocês sempre quiseram fazer. O primeiro beijo em alguém que vocês realmente gostam. O dia que vocês começarem um trabalho em que realmente acreditam. Derrotar Stanford. (Vamos, Bears!) Todas essas coisas vão acontecer com vocês. Desfrutem todas elas.

Espero que vocês vivam suas vidas -- cada dia precioso -- com alegria e significado. Espero que vocês andem sem sentir dor -- e que sejam gratos por cada passo dado.

E, quando os desafios vierem, espero que vocês lembrem que a capacidade de aprender e crescer está ancorada no fundo de cada um de vocês. Ninguém nasce com uma quantidade fixa de resiliência. Ela é como um músculo. Vocês podem desenvolvê-la, utilizá-la quando for necessária. Nesse processo, vocês vão descobrir quem realmente são - e provavelmente vão se tornar as melhores versões de si mesmos.

Turma de 2016, saindo de Berkeley, desenvolvam resiliência.

Desenvolvam resiliência em si mesmos. Quando acontecerem tragédias ou grandes decepções, saibam que vocês têm a capacidade de superar absolutamente tudo. Prometo. Como diz o ditado, que somos mais vulneráveis do que jamais imaginamos, mas somos mais fortes do que jamais pensamos.

Construam organizações resilientes. Se alguém pode fazê-lo, são vocês, porque Berkeley está cheio de pessoas que querem fazer do mundo um lugar melhor. Nunca parem de trabalhar com esse objetivo - seja num conselho de administração que não é representativo ou num campus que não é seguro. Manifestem-se, especialmente em instituições como esta, tão cara a vocês. Meu cartaz favorito no trabalho diz: "Nada no Facebook é problema de outra pessoa". Quando vocês virem algo errado, corrijam.

Construam comunidades resilientes. Encontramos a nossa humanidade -- nossa vontade de viver e nossa capacidade de amar -- em nossas conexões com o outro. Estejam presentes para sua família e seus amigos. E isso significa estar presente pessoalmente. Não só com uma mensagem de emoji de coração.

Ergam uns aos outros, ajudem uns aos outros chute a detonar com a opção B -- e comemorem cada momento de alegria. Vocês têm o mundo inteiro diante de vocês. Mal posso esperar para ver o que vocês farão com ele.

Parabéns, e "Vamos, Bears!".

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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