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Eu queria que minha ansiedade social fosse como uma alergia

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Chorei na frente do condutor de trem inglês. Quem já tentou expressar um fiapo de emoção na frente de um inglês sabe muito bem que eles embrulham a cara e ficam com a boca completamente seca. A única cura possível é um chá inglês com gosto de terra tirada de um gramado onde acabou de rolar um festival de música.

"Você pode entrar em qualquer trem e procurar um lugar", repetia ele. Meu trem tinha sido cancelado, então agora os assentos estavam livres - as reservas não valiam mais. Estava tudo um caos. Era cada um por si na estação King's Cross. Os britânicos não estavam nem aí. Keep calm e escolhe um lugar logo, mate.

"Preciso ter certeza de que vou encontrar um lugar, se não...", disse para o condutor, procurando a palavra certa, "... não funciono".

"Provavelmente vai ter lugar", ele respondeu.

"Preciso ter certeza", disse eu.

Alguns meses antes, quase chorei na frente de uma vendedora na Austrália. Ela estava tentando me vender uma mochila. O que, pode-se argumentar, é o trabalho dela. Expliquei que precisava de uma mochila com um zíper na parte de trás, de modo que alguém que estivesse atrás de mim não pudesse abri-lo. Um compartimento que só fosse acessível quando a mochila não estivesse nas minhas costas. Expliquei que sabia que não era fácil encontrar um modelo assim, que estava procurando havia meses.

Ela disse que tinha uma mochila ótima, vermelha, que eu poderia usar para carregar minhas coisas e pendurar nas costas e tudo o mais. Mas o zíper era na frente. Tirando esse detalhe, ela atendia a todas as minhas exigências - com exceção, é claro, da única exigência que eu tinha.

Queria que as pessoas entendessem ansiedade social da mesma maneira que entendem alergias. Todos sabem que, se uma pessoa alérgica a amendoim come amendoim, precisa ir para o hospital. Eu acho que é assim. Não pesquisei a fundo.

Tentei explicar para a vendedora australiana que eu tinha uma alergia psicológica a zíper de mochila. Ela continuou enfiando amendoins metafóricos na minha boca, até eu ficar toda inchada e dizer:

"Olha, eu realmente adoraria usar mochilas legais sem esse zíper. Só que... às vezes minha cabeça é esquisita. Então não posso usar mochila sem zíper. E não consigo relaxar num restaurante se não estiver com as costas para a parede o tempo todo. Se estiver numa multidão, me escondo em banheiros públicos, porque fico muito ansiosa. Tenho de sentar na janela sempre: no avião, no trem e no ônibus. Do contrário, minha respiração fica agitada, minhas mãos começam a tremer... Não é você. Não é a mochila. Essa aqui é muito legal. Mas eu preciso do zíper nas minhas costas, para ter certeza de que ninguém vai abri-la."

Ela piscou algumas vezes. O condutor também, depois que expliquei que precisava de um lugar na janela.

Queria que minha ansiedade social fosse como uma alergia. Imagino que as pessoas alérgicas sabem que não têm culpa de nada. Imagino que elas não se achem uma diva ou uma menino mimado quando pedem para não serem assassinados por um prato de comida. Imagino que não sintam vergonha, porque os outros os entendem - e também não os acusam de inventar o problema.

O condutor inglês foi recuando devagar, dando de ombros. Perdi meu trem para a Escócia. E sou a dona de uma linda mochila vermelha que nunca vou usar.

Um amigo tem de andar à esquerda de quem o acompanha. Outra amiga não consegue esperar ninguém num lugar público. Se você se atrasar, ela vai embora. A amigo de um amigo precisa de plantas em todos os ambientes, do contrário fica pouco à vontade. Saí com um cara que passou um ano inteiro dentro de casa, porque tinha medo de sair para a rua.

Preciso de mochilas com um zíper na parte de trás e tenho de sentar na janela. Estou convencida de que isso está fora do meu controle e sei que não preciso sentir vergonha. Mas não consigo me imaginar olhando orgulhosamente nos olhos de uma vendedora ou de um condutor exigindo que minhas necessidades sejam atendidas. Porque, antes de começarmos a falar de ansiedade e antes de começarmos a aceitá-la e entendê-la, vou me sentir sozinha e esquisita.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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