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Como uma cama desarrumada me fez perceber o quão hipócrita eu sou

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MESSY BED
Andrei Spirache via Getty Images
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É a manhã de quarta-feira e estou atrasada. Tomo um gole apressado do meu café, junto minhas coisas e vou para a porta. Só paro quando percebo que ainda não arrumei minha cama. Considero a possibilidade de deixar a cama assim. Afinal, ninguém vai vê-la antes de eu voltar para casa.
Então que mal haveria nisso?

Eu estava atrasada, mas fiquei ali, olhando para a cama desarrumada e me sentindo intranquila com o estado de minha vida. Isso soa dramático, então vou começar por dizer que está tudo bem na minha vida.

Mesmo assim, alguma coisa naquela cama desarrumada não me deixava sair de casa. Arrumei a cama, como faço todas as manhãs. Fiquei olhando para ela, impecável, até estar com 15 minutos de atraso.

Saí sentindo um pouco de alívio graças à aparência de minha cama e percebi que eu estava vivendo a vida como hipócrita. De verdade.

Arrumei minha cama por uma questão de hábito e por alguma necessidade mais profunda de fazer minha vida parecer organizada e certinha. Eu sabia que, se voltasse do trabalho e encontrasse a cama bagunçada, isso abriria meus olhos para as ansiedades da noite passada deixadas sobre o travesseiro.

Essa não é a única coisa sobre a qual sou hipócrita. Comecei a pensar em todas as áreas da minha vida em que, essencialmente, eu estava mentindo para mim mesma.

Frequentemente escrevo sobre o amor. Escrevo sobre quanto eu quero encontrar amor e como sonho em encontrar meu "príncipe encantado" qualquer dia deste, em alguma circunstância adorável.

Escrevo isso, mas não ajo como se estivesse preparada para me apaixonar. Recuso convites para sair com caras que na realidade são simpáticos, só porque não se enquadram em "meu tipo". Em vez disso, aceito drinques de homens que provavelmente nem se interessam em saber meu nome.

Escrevo sobre ser solteira, sobre empoderamento e autoconfiança. Grito isso a plenos pulmões e gosto de pensar que é bem convincente. Mas todos os dias eu me olho no espelho e me questiono.

Fico feliz por minhas amigas que estão ficando noivas ou se casando, mas me deprimo porque não estou nem sequer perto de seguir o exemplo delas. Divulgo a vida de solteira como se fosse a melhor coisa do mundo, mas, subconscientemente, às vezes tenho medo dessa vida.

Falo na importância de você começar por se amar, mas faço pouco para seguir meu próprio conselho. Ainda deixo de ir à academia quando estou com preguiça. Ainda peço a opção pouco saudável do cardápio, depois de ter prometido a mim mesma que pediria uma salada.

Ainda me esqueço dos cuidados com minha pele à noite, ou porque chego em casa tarde demais ou porque estou cansada demais para fazer as três coisas adicionais, e então me repreendo por isso. Prometo cuidar bem de mim, e, no dia seguinte, me pergunto por que não estou fazendo isso. Minto para mim mesma dizendo "hoje vai ser o dia".

Digo a mim mesma que quero escrever um livro e falo às pessoas que essa é minha meta. Mas, quando finalmente encontro tempo livre depois do meu emprego, minha atividade secundária e os compromissos da vida, ligo o Netflix em vez de fazer meus sonhos virarem realidade.

Digo que quero viajar mais. E, embora eu viaje bastante, peço aquela refeição pelo Seamless quando não estou afim de fazer comida, peço aquele terceiro coquetel por US$20, compro aquela roupa que vou usar só uma vez na vida, apenas para aparecer no Instagram, e peço aquele café à tarde com cafeína mínima. E lá se vai o dinheiro que pagaria por mais uma passagem de avião.

Arrumei minha cama naquela manhã, mas isso não esconde a verdade entre os lençóis. Adormeci fazendo promessas a mim mesma que não cumpri naquele dia. Acordei com um falso senso de confiança, quando, na realidade, não estou positiva em relação à pessoa em que me tornei.

Francamente, sou hipócrita. E agora?

Nós, os hipócritas, admitimos. Aceitamos. Então fazemos alguma coisa a esse respeito. Em vez de viver em um estado de decepção constante, você reavalia sua vida. Que papel você quer exercer neste mundo? Que impacto você quer ter sobre este planeta?

Escolha suas vitórias e aprenda com seus fracassos. É hora de alinhar sua voz com suas ações. Recue um passo e escolha quem você quer ser. Olhe para você mesmo, olhe de verdade, e comece a descobrir todas as camadas belas que você possui. Apare as bordas e acrescente o glitter -mas, o que é mais importante: seja sincero com você mesma.

Porque não basta simplesmente arrumar a cama.

É preciso encontrar beleza no caos ou recriar o caos para que vire uma oportunidade, em vez de simplesmente tentar jogar um pano por cima. É preciso adormecer sentindo gratidão por um dia bem gasto e acordar cheio de garra para ir atrás de um futuro pelo qual você trabalhou muito. É preciso correr atrás de seus sonhos quando você está acordada, não apenas quando está dormindo.

É preciso começar cada dia com gratidão e terminá-lo sorrindo para você mesma ao dizer boa noite ao mundo, porque você sabe que hoje fez do mundo um lugar melhor, de alguma maneira.

É preciso ficar em paz em relação a não ser perfeita e aprender a ficar à vontade com o que é incômodo. É preciso amar a você mesma em primeiro lugar e realmente acreditar nisso quando você o diz.

Por isso, um brinde às camas arrumadas, mas não às vidas de faz-de-conta. É hora de começar a viver autenticamente, e nunca é tarde demais para começar.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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