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Hipocrisia, preconceito e a música brasileira

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A banda Móveis Coloniais de Acaju tem um projeto bem legal há cerca de dois anos. Com o "Móveis Axé 90", o grupo apresenta clássicos do axé dos anos 1990 em versões bem semelhantes às originais.

Só recentemente pude conferir esse show e, entre coreografias e uma energia incrível vinda do palco, chamou a atenção do meu grupo de amigos o quão hipócrita grande parte daquele público se mostrava.

O Móveis é, originalmente, uma banda que apesar das influências variadas toca rock. Um rock pop dos melhores entre a cena independente nacional. Para muita gente, parece ok, então, ir a um show da banda, mesmo que o repertório seja todo dedicado ao axé. "Vai ser engraçado" ouvi algumas vezes antes da apresentação começar.

Acontece que foram quase duas horas de hits cantados em coro por todo o público. Não foi só engraçado pela performance icônica do vocalista André Gonzalez. Foi uma expressão cultural mais brasileira impossível. E saindo do show vieram perguntas à mente:

  • Se o SESC não tivesse chamado o Móveis e sim a Banda Eva, a recepção seria a mesma?
  • Por que muita gente fez questão de frisar "não curto axé, mas foi legal"?
  • Por que outra porrada de gente justificou cantar junto só por "nostalgia"?
  • O que raios tem de errado em gostar de axé?

Há sim os fãs assumidos do gênero. E que bom! Mas para uma grande maioria - de leigos aos críticos de Youtube - é liberado ouvir axé no Carnaval ou em situações como a descrita.
Mas consumir no dia a dia já é demais. E por que?

Por esse ser um estilo musical com raízes africanas (dos batuques ao próprio nome axé)? Por ser nascido no Nordeste brasileiro? Por ter fácil aceitação "das massas"? Porque crítico tem sempre que ser blasé e falar mal do "popular"?

São muitas as perguntas. E lá no fundo você foi respondendo "sim", pelo menos com um balançar de cabeça. Porque é isso: os preconceitos enraizados na sociedade contaminam toda e qualquer forma de cultura. E no Brasil, o legal é falar mal do produto nacional. A não ser que ele seja aquela banda que conseguiu destaque na gringa.

Veja bem, não quero generalizar nada. Há casos e casos, ouvintes e ouvintes. Críticos e críticos. Mas há muito o que se pensar e discutir quando, por exemplo, em um momento de debate sobre a cultura do estupro vemos dedos apontados apenas para o funk, quando há rock por aí esbravejando "abre essas pernas pra mim, baby".

Afinal, funk vem do morro com essa sua apologia ao sexo e batidas indecentes. Mas o rock e suas guitarras não.

Axé pra todos!

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