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Para homenagear a África, baile da Vogue 2016 escolheu o racismo

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Esse ano a Vogue lançou como temática para seu tradicional baile de Gala, a "África". O anúncio da comentada festa já deixava claro: "Para quem ainda não tem fantasia, o nosso guia fashion africano te ajuda a se embelezar para o Baile da Vogue 2016."

Eu realmente acredito que ninguém desta revista e meio fashionista tenha lido sobre apropriação cultural, um assunto tão debatido e tratado por nós negros, muito menos tenha considerado que usar o termo "fantasia" soa muito ofensivo. Contudo, numa pesquisa rápida no Google encontraremos vários textos escritos por pessoas negras e até um artigo na Wikipédia, abordando a questão da apropriação.

Basicamente, apropriação cultural é quando uma cultura minoritária ou de alguma forma subordinada social, política ou etnicamente é apropriada por uma cultura dominante. No contexto brasileiro onde estamos inseridos, num país de 516 anos e quase 400 de escravização do povo negro, há que se considerar as implicações dessa "moda". Temos a cultura vinda de negros como sendo subordinada a cultura branca/europeia, imposta e valorizada. As modelos, estilistas e marcas que lucram com a apropriação são brancos.

Quando pessoas brancas "ditam moda" e tornam-se referência de estilo e beleza ao usar turbantes e dreads, isso configura apropriação cultural. No caso, o turbante é um ornamento de símbolo religioso em várias culturas, inclusive na afro. Ele enfatizava a ligação dos negros escravizados com seus costumes originais e representava a resistência.

Ou seja, o turbante não é moda ou tendência, muito menos um adereço como brincos que usamos em festas. Ele é um elemento político-social de empoderamento do povo negro.

Já o dread é característico em indianos, africanos e outras culturas não-ocidentais e, quando reproduzido, as pessoas se apropriam de um item que faz parte da "beleza natural" de determinado povo, mas que também está ligado às tradições.

Isso é desrespeitoso.

A apropriação cultural é esvaziada de senso político e militante, ora, o que para um povo é tradição para outros é fantasia. Mas parece que a Vogue e seus convidados estão ignorando isso, ou não têm conhecimento sobre. Fizeram um baile homenageando a África, entretanto, sequer pesquisaram sobre africanos e negros da diáspora. O resultado foi uma violência simbólica para nós.


Vimos os convidados fazendo do cabelo crespo um acessório, um fetiche ocasional. Anos de imposições estéticas baseadas no cabelo liso como padrão desejado, capas de revistas com celebridades, atrizes, cantoras, modelos e seus cabelos lisos. Séries, novelas, filmes e bonecas exaltando seus cabelos lisos, e crianças negras crescendo acreditando que nosso cabelo é um grande problema. Então uma mulher branca faz dele um adereço como se fosse um colar, para um evento? Nem parece que esse ano começou com o debate do porquê um boneco negro com cabeça de palha de aço está sendo usado num reality show de uma grande emissora de televisão nacional. Enquanto fazem do nosso cabelo uma piada, nós, negros, ainda sofremos muito com comentários maldosos vindos de estranhos na rua e até vagas de emprego perdidas.

E quando pensamos que o vexame da Vogue não poderia ser mais estratosférico, eis que surge o Blackface de uma das convidadas. Para quem ainda não entendeu, blackface é racismo, uma prática antiga do teatro basicamente feita por pessoas brancas que, no auge dos seus privilégios e cinismos, satirizam o negro quando fazem uma caricatura estereotipada de nós, ou melhor dizendo, do que imaginam ser o negro, reforçando nossas características físicas que se sobressaem aos olhos racistas como lhes sendo esdrúxulas, com intuito de debochar, zombar, fazer piada e provocar risos...


Utilizar-se dessa técnica é, sobretudo, contribuir para a manutenção do pensamento racista mantendo a hegemonia dos espaços a serem ocupados, em que o papel dos formadores de opinião, criadores, artistas e intelectuais das diversas esferas da arte, entretenimento, jornalismo, literatura e humor se faz crucial para o debate engajado e a tão almejada mudança. Nós negros não estávamos lá em peso, mas nossas roupas e cultura sim, de uma forma distorcida e resultado de uma visão colonialista.

Interpretações catastróficas do tema


A África é um CONTINENTE muito diverso culturalmente, é o terceiro mais extenso do mundo e tem 54 países - em cada um deles podem haver até setenta culturas diferentes.

Arredondar tudo e resumir em animais e até pessoas selvagens, é puro desconhecimento e pensamento colonizador. Não existe um "traje" que represente as várias áfricas e seu sincretismo. Na África se usa jeans e camiseta, como aqui. O que existem são roupas que remetem muitas vezes as tradições e crenças de alguns povos, que estão sendo apropriadas de forma leviana por pessoas que se negam a ver África com um olhar rico, humano e não-colonizador.

O baile destacou o uso de estampas de animais, além dos turbantes. Algumas pessoas inclusive acharam estar referenciando à cultura egípcia, porém estavam novamente desrespeitando o que desconheciam vestindo trajes que beiravam o bizarro.


Estamos aqui falando de um baile, que teve maioria entre seus convidados, personalidades, profissionais do mundo da moda, fotógrafos e outros ilustres brancos num país de maioria negra, essa maioria negra que está intrinsecamente ligada pelo seu passado ao continente africano que não é verdadeiramente representado nas capas da Vogue Brasil (em 40 anos tivemos menos de 10 capas com negros, isso é uma vergonha), nos editais de moda da Vogue Brasil e nem entre as pessoas que trabalham na Vogue Brasil.

Jamais vejo estilistas negros e modelos negras sendo valorizados realmente pela revista, aliás mesmo adorando moda, ainda acho esse um meio elistista e racista onde dificilmente me sinto representada. Valetino desfilou uma coleção inspirada na África sem negros, a marca Farm representou Iemanjá, uma deusa negra cultuada nas religiões de matrizes africanas, com uma mulher branca, a Vogue, em um editorial deixou bem claro que mulheres negras não deveriam usar cabelos vermelhos.

Nem os convidados negros para o baile cogitaram usar estilistas africanos. Afinal, onde está a tal homenagem? Temos nomes como Palesa Mokubung (África do Sul), Amaka "Maki" Osakwe (Nigéria), Jamil Walji (Quênia), Xuly Bët (Mali) e Imane Ayissi (Camarões). A Vogue Brasil não publica sequer artigos ou edições falando sobre estilistas negras norteamericanas, o excelente trabalho dessas mulheres negras criadoras de moda é ignorado pelos grandes circuitos.


Nesse ramo, a profissional negra não é valorada a não ser quando uma modelo explode na passarela por algum tempo. Soa, para mim, super equivocado, uma revista de moda que pretende homenagear a África não publicar estilistas africanos, embora esses existam e realizem em abundância, fazendo um ótimo trabalho ao passo que a Vogue é toda elogios aos estilistas europeus e norteamericanos, idolatrando suas criações muitas vezes repetitivas, provincianas e banais.

A revista fez um baile sobre a África, baseada em qual conhecimento do continente? A Vogue, com sua abordagem superficial, colonialista e ocidentalista mutilou a cultura africana, repartiu os símbolos de resistência de um povo a serviço do consumismo e não se preocupou em fazer um trabalho disfarçando tal insensibilidade.

A edição desse mês trouxe a modelo e mulher negra Jourdan Dunn. Na tentativa de compensar qualquer embaraço e contornar a gafe, convidaram uma atriz e uma apresentadora negras, respectivamente Taís Araujo e Glória Maria. Fomos apresentar mas, entretanto, não somos vistas como belas, pois a própria Vogue elegeu quatro musas para festa e dessas apenas UMA não era branca! Não servimos para ser eleitas como bonitas, mas nossa cultura serve para ser apropriada, foi isso que a Vogue disse. Postaram dicas de roupas estilo "pop africana" e ainda por cima um editorial de como fazer uma maquiagem para pele "morena" estampado por uma mulher negra.

É lamentável que a elite nacional seja tão ignorante e tenha ideias tão ruins como achar que ser africano é alguma fantasia ou personagem, acreditando que isso é algum tipo de "genialidade" e homenagem. O olhar sobre a população negra que a revista compartilha fica explícita nessa foto de promoção do evento, onde as negras são mero plano de fundo, paisagismo para a modelo branca (veja aqui).

Algo que também vem se popularizando no Brasil são festas com nomes negros, mas realizadas em bairros de classe-média-alta com público quase 100% branco. Reafirmando a máxima que a cultura negra é popular, mas os negros não.


Mesmo com o racismo escancarado na sociedade, matando e destruindo realidades, parece que uma parte do Brasil prefere fazer festas ofensiva a negros, celebrando a própria sátira que fizeram da África entre os seus convidados, do que se preocupar com uma realidade nociva onde ser negro no dia-a-dia não é se vestir a caráter e desfilar num ambiente elitizado, mas sim ser confundido com bandido pelo simples fato de andar na rua.

SER negro não é uma escolha, não é uma tinta que escorre no banho nem uma roupa da qual se despoja a qualquer hora. Ser negro é uma identidade, um estado permanente de resistência, orgulho e celebração.

Por fim, a Vogue França demorou 5 anos para fazer uma nova capa com mulheres negras (2010 - Rose Cordero e em 2015 - Liya Kebede); a Vogue Itália, em 2014, foi denunciada por racismo depois de usar blackface num edital. Em 2016 temos a Vogue Brasil produzindo a festa onde praticamente implorou aos convidados: sejam racistas!

Moda é também sobre inclusão, engajamento e elegância, mas parece que a Vogue, no quesito sensibilidade, deixa muito a desejar quando não mostra o compromisso diante do que se dispoẽ a homenagear. Faltou generosidade para ir buscar na África (e no povo negro) sua inspiração, sobrou desrespeito de tantas formas que uma convidada chegou a usar uma boneca negra amarrada as costas como parte de sua "fantasia".

Os elementos que vemos no baile mostram que houve desinteresse pela cultura tema.

Sabe quando um trabalho é feito às pressas?

Então, reprovado!

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