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De Blackface a Whitewashing: As representações racistas na televisão

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Vivenciamos uma realidade racista e estruturante baseada na ideia da distinção entre indivíduos conforme o seu grupo racial. E estou pensando raça aqui não como um fator biológico, mas social.

Portanto, esse fator interfere e muito na vida e nas possibilidades que chegam até as pessoas. Assim sendo, o racismo continua pautando nossa sociedade, pois é ensinado e alimentado cotidianamente.

E a mídia televisiva exerce una contribuição violenta nesse sentido, sustentando e promovendo o apagamento e silenciamento dos sujeitos não-brancos. De tão naturalizada que é esta prática, fica mais fácil acreditarmos que a maioria da população mundial é composta por brancos e loiros de olhos claros, do que entender que eles são a verdadeira minoria (a porcentagem de pessoas com cabelo natural loiro no mundo, por exemplo, é de 2%).

Por isso, trago aqui alguns exemplos de como filmes, novelas e até propagandas continuam excluíndo quem não segue o padrão europeu. Afinal, um dos processos colonizadores que ainda têm impacto em nossas vidas é a imposição estética promovida pela televisão.

Blackface

marco nanini

O ator Marco Nanini na novela Eta Mundo Bom , da Rede Globo
Foto: Fabiano Battaglin/TV Globo

Erroneamente entendemos o blackface como apenas o ato de pintar o rosto/corpo de preto para representar alguém negro. Contudo, a prática vai muito além disso. Ela começou a ter notoriedade no século XIX, nos EUA, quando atores brancos representavam pessoas negras pintando seus rostos, mas também redesenhando os próprios lábios para reafirmar a ideia que negros são "beiçudos": uma visão racista sobre os traços estéticos de alguns sujeitos negros.

Tudo isso era feito visando representar o que aquelas pessoas entendiam por ser negro, ao mesmo tempo que não davam espaço para que pessoas negras pudessem ocupar o teatro. A prática era tão comum e forte que chegou até a se tornar um gênero do teatro.

Ainda hoje ele é usado como uma alternativa para interpretar uma pessoa negra sem precisar contratar e dar visibilidade para alguém realmente negro. Atualmente também é caracterizada desta forma o uso de perucas crespas em determinadas representações. Não à toa, no Brasil, uma das personagens mais simbólicas desse tipo de racismo é a chamada "Nega Maluca".

Resumidamente, o blackface é uma representação de negros feita por não-negros, que caracteriza e reforça estereótipos racistas atribuídas à população negra. E, como vivemos neste sociadade calcada na discriminação, estes personagens costumam ser "negativos": o falar errado ou com palavras entendidas como "de negros", os gestos, as roupas e até próteses de nariz são usadas. Características como preguiçosos, malandros, ignorantes, loucos, alcóolatras, exagerados, agressivos, descontrolados, raivosos, pobres e fofoqueiros são comumente usados.

rodrigo santana

Adelaide de Rodrigo Sant'anna, no Zorra Total

Yellowface

tanaka sol nascente

Tanaka feito por Luís Melo em Sol Nascente

Asiáticos foram massacrados, perseguidos e sua cultura foi apropriada por sociedades brancas ocidentais. A geografia entende divide a Ásia em algumas partes conforme análise social/cultural/política, uma delas é o Extremo Oriente composto por uma parte da China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão, Taiwan. Já uma outra parte da China é considerada Ásia Oriental. Enfim países diferentes, com culturas distintas e isso engloba línguas, costumes e tradições bem diferentes. Mas que são entendidas pelo ocidente como tudo igual, a ponto de "dividirem" em parcelas de análise e atribuir a todos os asiáticos o apelido racista "japas" e outros, que são contínuos na vida dessas pessoas quando elas vivem em sociedades ocidentais.

mr yunioshi

Mr Yunioshi foi feito por Mickey Rooney em Bonequinha de Luxo.

O yellowface nada mais é que a representação de orientais feita por ocidentais, com caracterização de personagens com estereótipos racistas atribuídos aos orientais e inclusive uso de técnicas para puxar os olhos de atores ocidentais, parece absurdo mas foi assim que Mr Yunioshi foi feito por Mickey Rooney em Bonequinha de Luxo. Muito se diz que japoneses são pasteleiros, chineses são sujos, e que os asiáticos são nerds, ligados a informática que sabem de tudo sobre esse tema. Quando isso na verdade são esteriótipos construídos de forma racista que limitam muito esses individuos inclusive nas representações em filmes, novelas, séries, e até propagandas. Não atoa que atualmente a maior emissora do país, a Rede Globo está perpetuando essa forma de racismo em sua novela 'Sol Nascente' quando prefere interpretar una personagem oriental por um ocidental ao invés de dar espaço para alguém que é realmente japonês como a personagem diz ser. Vale também prestar atenção na forma como os mangás são apropriados a partir do momento que as personagens quando são representados em filmes ganha características ocidentais como acontece com Scarlett Johansson em Ghost in the Shell.

RedFace

caramuru

A atriz Deborah Secco na minissérie Caramuru, da Rede Globo

Na América Latina e América do Norte os povos originários são sempre entendidos como "nativos" ou "índios", povos que habitavam esses territórios antes da colonização e que até hoje habitam porém quase foram exterminados e ainda são silenciados, perseguidos, excluídos e assassinados. Por isso é de extrema relevância dar voz a pessoas desse grupo, considerado minoria por ão ter acessos aos direitos e dignidade que deveriam ser garantidos por lei. A mídia deveria não só falar sobre o genocídio da população indigena no Brasil e nas Américas como possibilitar a representatividade midiática desse grupo.

A representação de povos originários feita atualmente é basicamente Redface, ou seja, atuação de pessoas que não fazem parte desse grupo étnico com caracterização de personagens com estereótipos racistas como uso de penas, pintura de guerra, pintura da pele, etc é o que também é muito comum nos carnavais nacionais. No Brasil negros, asiáticos ainda são minorias em filmes, novelas e séries, já a presença de indigenas é nula, porém é muito recorrente produções que tente representar essas pessoas, porém são puro racismo. Índios não são atores bronzeados, com tinta vermelha no rosto e cocar!

claudio henrich

Cláudio Heinrich em Uga Uga.

E histórias que querem abordar a cultura dos povos originários, mas que colocam brancos ocidentais como protagonistas um exemplo Cláudio Heinrich em Uga Uga, assim como a figura da Giovanna Antonelli protagonizando o núcleo oriental, pois são "adotados", "perdidos na selva", são DESCULPAS para não dar oportunidades para pessoas que fazem parte dos respectivos grupos etnicos citados reafirmando o protagonismo branco colonizador. Por fim as personagens tendem a ser ignorantes, preguiçosos e inocentes demais visão jesuita dos índios brasileiros ainda reproduzida em pleno século XXI por grandes emissoras.

Brownface

caminhos das indias

O elenco da novela Caminhos das Índias

A representação de sul asiáticos não brancos (Sul da Ásia corresponde: Afeganistão, Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão e Sri Lanka) e não brancos latinos por pessoas que não fazem parte desse grupo étnico. No caso esse também é um grupo muito apagado e silenciado com caracterização de personagens com estereótipos racistas, reprodução de "sotaques", pintura de suas peles de marrom e apropriação de pinturas e trajes etc. E ainda hoje lida com a colonização criando guerras civis e escravizando por meio do uso da mão de obra barata suas populações.

No Brasil um caso chocante e marcante de browface foi a novela Caminho das Índias, essa novela mostrou tudo menos a realidade da Índia e pior em seu elenco não havia pessoas realmente indianas, atores em sua maioria brancos representaram tudo, inclusive os estereotipos "hollywoodianos" como o indiano taxista.

Por fim a novela romantizou a realidade e ainda por cima fez o brasileiro acreditar no indiano que tem o rosto do Caio Blat, quando na verdade a Índia é um dos países que está lutando contra uma onda de embranquecimento da população dradiviana por meio de cremes e outras técnicas estéticas. Fato que também acomete asiáticos que tentam mudar por exemplos a estética de seus olhos e negros que a todo custo mudam seus cabelos e clareiam suas peles. Ou seja, falar de representatividade é importante não só porque esses grupos estão quantitativamente representando maioria real non Brasil e no mundo, mas também porque a invisibilidade tem como consequências essas automutilações em busca do padrão europeu.

Whitewashing

josé do egito

Atrizes da minissérie José do Egito, da Rede Record

É a prática muito corriqueira de transformar em branco personagens que não são brancos. Os exemplos são tantos, Egípcios se tornam brancos como na novela da Rede Record, Samurais se tornam o Tom Cruise, Chiquinha Gonzaga mulher negra que agiu contra o racismo se torna Regina Duarte, personalidades não brancas que se destacaram em suas vidas, mesmo com todas as dificuldades do racismo se tornam tema de filmes, livros, novelas, seriados mas são representadas por brancos. Isso é apagamento histórico e racismo. Precisamos de um mundo que aceite a diversidade e para isso precisamos de una mídia que dá espaço e voz para todos nós.

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