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A melancolia, as cinzas e o sonho da Chapecoense

Publicado: Atualizado:
CHAPECOENSE
Jaime Saldarriaga / Reuters
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"Ao meu redor rostos familiares
Lugares desgastados, rostos desgastados
Bem cedo para suas corridas diárias
Indo a lugar nenhum, indo a lugar nenhum
E suas lágrimas estão enchendo seus óculos
Sem expressão, sem expressão
Escondo minha cabeça, eu quero afogar minha tristeza,
Sem amanhã, sem amanhã..."

Mad World (1982) de Roland Orzabal (Tears for Fears)

As cinzas do acidente chegaram aos corações, o sonho dos atletas da Chapecoense representam as expectativas da grande maioria de seus compatriotas: conseguir vencer inúmeras barreiras mesmo quando não se têm berço de ouro. Suas jornadas se davam no esporte máximo da nação e o mais popular do mundo, o futebol. A canção da banda britânica resume o cenário que encontrei pela manhã de quarta-feira dia 29 de novembro de 2016, era como se pudesse sentir o cheiro de cinzas.

A Chapecoense há 7 anos estava na 4ª divisão e sua final na Copa-Sul Americana tem uma narrativa de conto de fadas, eram "Cinderelos" de chuteiras. Rapazes em boa parte entre os trinta anos e que não jogavam pelos milionários clubes do futebol europeu. Sendo assim até mais fácil de projetarmos nossos sonhos neles que eram uma mistura de João e Aquiles, homens comuns e ao mesmo tempo semi deuses com seus corpos talhados batalhando por uma bola de couro com raça, sem perder a leveza nos pés e ostentando sorrisos em seus semblantes. Um deles em especial me marcou, o goleiro Jackson Ragnar Follmann que teve a perna amputada, com o qual pude trabalhar como assessora de imprensa e constatar sua rigidez de caráter.

As manifestações de solidariedade chegaram de diversas partes do mundo: dos clubes compatriotas e estrangeiros, do emocionado vídeo do ex-tenista e ídolo nacional Guga Kuerten e até mesmo de figuras da política estrangeira como a embaixatriz dos EUA na ONU Samantha Power. Isto é uma demonstração do impacto e comoção causados pela tragédia. Torcemos pelos azarões até porque diante de um mundo imenso e injusto sabemos que também o somos.

Consumismo selvagem de imagens

Segundo o pensador francês Guy Debord (1931-1994) vivemos na Sociedade do Espetáculo, onde as nossas relações são intermediadas pelos meios de comunicação, portanto potencializadas enquanto a globalização levou a um considerável aumento deste fenômeno e ao consumo de imagens. Como afirma Debord: "o espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação (...) O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediatizada por imagens". Infelizmente há aqueles que tentam lucrar em meio à calamidade.

Veículos de comunicação passaram dos limites, como o Catraca Livre que apelou para matérias como "Medo de voar? Saiba como lidar com isso!" e "Passageiros que filmam pânico em avião" além de "10 mitos e verdades sobre viajar de avião", a insensibilidade tomou a interface do canal e por fim uma nota no qual afirmava "relevante jornalisticamente" apresentar demais aspectos da tragédia e que não era necessário apenas "lamentar, mas informar". Posteriormente surgiram postagens com avisos de "desculpas" e "erramos", mas por fim colocaram uma homenagem da página Fera do grupo Estadão em seu mural, e então, o mesmo fez um post chamando atenção que "esqueceram de linkar" sua página.

Este tipo de cultura sádica é refletida na sociedade com seus programas televisivos sensacionalistas com trilhas sonoras de filmes de drama e horror apresentando repórteres abutres com seus ternos desalinhados pousando em cemitérios prontos para incomodar familiares em momentos íntimos. O que também é reproduzido por usuários de redes sociais expondo imagens de acidentes aéreos como se não tivéssemos aprendido nada com a morte dos Mamonas Assassinas ou mesmo como jornalistas com a atrocidade cometida contra os membros da Escola Base. Vale ressaltar que no avião havia colegas da imprensa que também são vítimas da tragédia.

A Netshoes aumentou consideravelmente o preço das camisas de R$ 129,90 para R$ 249,90. A mesma afirmou que o preço havia caído em decorrência da Black Friday e o preço original era o de R$ 249,90. Mesmo assim foi criticada por internautas incrédulos com a explicação.

Pergunto a mim mesma e em na sala de aula até quando deixaremos a catraca livre para o sensacionalismo e consumismo de tragédias com sua voraz busca por meros "likes". Isto transita desde o respeito aos falecidos e as famílias dos envolvidos no acidente até como para a sociedade como um todo.

LEIA MAIS:

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