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Os desabafos de uma mãe solo

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Glow Images, Inc via Getty Images
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Texto escrito por Nat Welter, colunista do Superela.

Eu estava apaixonada há dois anos pela mesma pessoa. Ele não queria, eu seguia escrevendo e pensando nele. Eu estava numa transição profissional, com milhões de coisas acontecendo. Uma carreira nova e brilhante pela frente. Estava numa outra rotina há 1 ano, junto com minha irmã, meu cunhado e nossas filhas. Sim, as filhas da minha irmã e meu cunhado também são minhas filhas.

Eu estava no auge de tudo, me sentindo a mulher mais poderosa do mundo. Acordava todo santo dia e tinha mil possibilidades. Eu tinha vários homens aos meus pés, queria de verdade o que não me queria, mas jamais deixei de viver por isso (leia mais aqui). Tinha uma vida sexual intensa, mas era bem sossegada, talvez por viver uma rotina de mãe, talvez por ser bem assim mesmo. Um dia eu estava brincando num App e a Manu (a mais velha das filhas) viu um menino e suspirou, eu curti. Ele me curtiu também, nos curtimos. Conversamos por um tempo e, para nossa alegria, ele teve que viajar para cá. Nos encontramos e foi tudo incrível.

Foi tão incrível que no outro dia eu fiquei com sentimento de perda. Fiquei triste por saber que era só aquilo. Conversas, sexo, risos. Eu não me apaixonei perdidamente, mas me apaixonaria se não fosse algo tão insensato, tão louco quanto a minha paixão pelo outro que não me quer. Transamos uma noite inteira com camisinha e ao amanhecer, bobeamos. Nas minhas contas, não tinha problema. Nas minhas contas, foi um risco transar sem camisinha com alguém que mal conhecia, mas nessas mesmas contas, nada aconteceria.

Uns dias depois, veio um pequeno sangramento, que continuou, dia após dia. Meus seios incharam como na tpm, mas não desincharam. O sangramento não parava, mas não era como a menstruação. Fiquei assustada. Fui na médica e ela disse: ou tá grávida ou com uma infecção. Saí desnorteada de lá. Óbvio que estava pensando em uma infecção, pensando no mundo de remédios que teria que tomar e toda a chatice de estar doente. Fiz a ecografia e lá estava aquele pontinho no meu útero, com coração batendo forte. Foi assustador. A partir daquele instante, a minha vida mudou, a minha e de toda a minha família, que está sendo incrível. Aí foi um misto de choro, medo, felicidade, amor, problema no útero, milhões de dúvidas e o tal do repouso.

Eu sei que no momento que a minha médica e o médico da ecografia falaram de todos os riscos, eu abri mão de tudo. Abri mão da minha rotina, dos meus planos, da minha vida, dos meus medos. Abri mãos das possibilidades, do amor que nem me queria. Abri mão da minha vida para o bem de outra. Abri mão de estar com minhas outras filhas/sobrinhas. Abri mão do orgulho quando aceitei a ajuda do pai da bebê, sendo que, logo que contei pra ele, eu disse que ele podia sumir, mas os dias em cima de uma cama não chegam ao fim, os exames e gastos também não. Eu abri mãos do silêncio, dos mistérios e fui sincera com todos: sou uma mãe solo que está descobrindo um mundo completamente novo (leia mais aqui).

Ainda estou de repouso (60 dias com umas 3 tentativas frustradas de sair dele) e cada dia as duvidas aumentam. Aumentam os medos, a vontade de uma vida de grávida normal. Os enjoos não passam e o sangramento vai e volta. Um dia depois da médica me liberar do repouso pela primeira vez, a cadeira que eu estava sentada trabalhando bem feliz, quebrou e eu caí. Como eu chorei, chorei tanto, tanto. Um medo imenso de ter acontecido algo.

Não aconteceu nada, mas tive que voltar pro repouso. A minha vida tá de cabeça pra baixo, mas eu não troco ela por nada. Eu bato ponto nas clínicas de ecografia. Eu vivo com medo disso acabar. Não consegui ter uma vida normal ainda, saio do repouso, sangramento volta, bate desespero e medo. Qualquer dor boba me assusta. Não consigo explicar esse medo, mas acho que amor define, é tanto amor pela minha filha, que qualquer possibilidade de perdê-la, mesmo que infundada, me deixa profundamente triste e apavorada.

O pai da minha filha está dando suporte financeiro. Era isso que eu queria? Não, eu queria uma mão para segurar nessas horas complicadas, não ser uma mãe solo, um ombro pra chorar as minhas dores, um coração disposto a me amar e amar essa guriazinha que carrego aqui, mas, como disse para ele, cada um dá o que tem a oferecer e a ajuda dele está sendo importante (leia mais aqui). Também não julgo, cada pessoa lida de uma maneira com uma surpresa desse tipo.

Eu entendo que ele queria ter filhos com alguém que ama, que queria uma família tradicional e bonitinha, mas lá no fundo bate uma tristezinha, como se eu e minha filha não fôssemos amáveis. Estamos aqui precisando de amor, precisando de palavras doces, precisando de energias positivas. Cada coisa no seu tempo, eu penso. Eu vou estar ligada a ele pra sempre e talvez isso me deixe confusa. Essa mistura de sentimentos é tão doida que, às vezes, ouso dizer que até estou apaixonada por ele. Em outros momentos penso que apenas mantenho meu carinho e admiração. Fico feliz por ele estar fazendo o que está dentro de suas possibilidades e entendimento e estaremos aqui, caso um dia ele queira ter contato com ela.

Eu fico pensando que a vida não é nada parecida com aquilo tudo que planejamos, mas, de alguma maneira, ela consegue ser até melhor. Eu não esperava ter filhos agora, assim como ninguém planeja quebrar uma perna, ficar doente, ter qualquer problema que o faça estacionar a vida. Eu tinha mil planos, eu queria ficar mais vezes com o cara que eu gosto, porque o sexo era incrível, eu queria encontrar alguém para amar e ser amada.

Eu queria também me acabar escrevendo e trabalhando para mudar a minha vida, deixá-la do jeitinho que sempre sonhei, mas agora estou aqui na cama e quer saber? Eu tô fazendo do meu limão, a melhor limonada da minha vida. Estou aqui enfrentando tudo, enfrentando minhas próprias frustrações, porque eu simplesmente amo essa menininha que está aqui, porque em cada ecografia, meu coração transborda de alegria, porque em cada enjoo, depois de vomitar e reclamar, eu me sinto tranquila, porque sei que é um sinal de que ela está ali, crescendo e se preparando para vir ao mundo e deixá-lo ainda melhor.

Não está sendo fácil, mas eu deixo bem claro que a peteca não vai cair, o samba não vai morrer e a vida vai ficar cada vez mais linda, porque a verdade é que eu continuo a mesma e posso ser e ter tudo que queria antes, só que no momento, sou uma mãe solo e muito feliz com dois corações batendo aqui dentro.

Texto publicado originalmente no Superela.

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