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A placenta geralmente não recebe o reconhecimento que merece

Publicado: Atualizado:
PLACENTA
Garry DeLong via Getty Images
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Por Adrienne LaFrance

A placenta geralmente não recebe o reconhecimento que merece. Talvez isso se deva a toda a falação em torno de mães que fazem um smoothie com sua placenta e a consomem - algo que a maioria das mulheres não faz. Mesmo tirando as associações ritualísticas do órgão, as pessoas falam da placenta em um tom de menosprezo implícito.

"Ela é descrita em inglês como 'afterbirth' (o material expulso do útero após o parto)", disse a obstetra e ginecologista Catherine Spong, diretora interina do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano (NICHD) nos Estados Unidos. "Como se não passasse disso - algo que é expulso depois do parto. A placenta é um órgão que não é suficientemente apreciado e que não tem sido estudado como merece."

Para apreciar a placenta, é preciso reconhecer que ela é responsável por alimentar o feto enquanto ele cresce e se converte em um bebê. O bebê é ligado pelo cordão umbilical à placenta, implantada na parede uterina da gestante. Através desse arranjo, a placenta fornece nutrientes e oxigênio ao feto, elimina seus resíduos, regula sua temperatura, produz hormônios e desempenha outras tarefas cruciais da gestação. O fato de um órgão apenas realizar tantas tarefas - que, de outro modo, seriam desempenhadas por órgãos separados - é extraordinário.

Considerando a importância da placenta, é notável também que os médicos e cientistas saibam tão pouco sobre ela. Nos últimos dois anos, pesquisadores do Projeto Placenta Humana do Instituto Nacional de Saúde nos Estados Unidos vêm procurando preencher essa lacuna, tendo recebido verba de mais de US$50 milhões para isso. Um dos maiores desafios que eles enfrentam, e que é crucial para sua missão, é ganhar um entendimento melhor da placenta em tempo real.

A maior parte do que sabemos sobre a placenta vem de estudos realizados depois do fim da gestação. Faz sentido: do ponto de vista prático e também da perspectiva ética, é mais fácil examinar a placenta a partir do momento em que ela fica disponível para ser estudada cientificamente. Isso acontece quando a mãe e o bebê não precisam mais dela.

"Mas", diz Spong, "sob alguns aspectos, examinar a placenta depois da gestação é como examinar o toco que restou de uma árvore que foi cortada e tentar entender a partir dele como foi a árvore quando era jovem. Assim como o feto cresce, a placenta também cresce. A placenta com 20 semanas de gestação é muito diferente da placenta com 30 semanas ou 40 semanas."

Ao longo de uma gestação, a placenta cresce de tamanho e desenvolve dobras e reentrâncias. Não é apenas a estrutura que muda, mas também a função. No início da gestação, as células placentárias se dedicam a invadir o revestimento uterino - basicamente, estão estabelecendo sua presença. Com o passar das semanas, a placenta vai removendo os resíduos, como fazem o fígado e os rins; ela fornece oxigenação, como os pulmões, e ela cuida da circulação. Isto é, se a placenta estiver funcionando corretamente. Os resultados graves na gestação muitas vezes são vistos como estando relacionados a problemas na placenta, mas, em vista do pouco que é sabido sobre o órgão, muitas vezes é impossível determinar o que deu errado.

Mesmo quando os cientistas conseguem estudar uma placenta mais jovem - em casos de parto prematuro, por exemplo --, há limitações inerentes ao que podem aprender. Como o parto prematuro não é um resultado normal de uma gestação saudável, a placenta de uma mulher que dá à luz prematuramente não será necessariamente normal.

"Muitas das complicações que a mulher pode apresentar - hipertensão ou até fetos com crescimento restrito --, acreditamos que podem se original de um problema com a oxigenação [da placenta]", disse Afroux Anderson, pós-doutorando do NICHD. "Há uma espécie de mistério ali que estamos tentando decifrar. O problema é que ninguém sabe como deve ser a oxigenação placentária normal, em uma gestação normal."

Para descobrir mais, Anderson e um colega desenvolveram um aparelho de imageamento segurado nas mãos, que pode ser colocado sobre o abdome da gestante. O aparelho portátil direciona uma luz quase infravermelha para a placenta e então mede os comprimentos de onda de luz refletida para detectar a oxigenação placentária. [As gestantes já estão acostumadas com tecnologias de imageamento, como parte rotineira do pré-natal; as ecografias usam ondas sonoras de alta frequência para produzir imagens de um feto em desenvolvimento.) Uma vez que os pesquisadores determinarem os níveis ótimos de oxigenação, esse aparelho poderia ser usado para acompanhar os níveis de oxigenação placentária em mulheres com gravidez de alto risco. Um colega do NICHD compara esse rastreamento em tempo real com um aparelho Fitbit - só que, em vez de usar o aparelho no pulso, você dirige a luz dele para sua placenta.

Essa analogia não deve ser correta, porque uma pulseira de fitness conta passos, enquanto um rastreador de placenta mede oxigenação, mas os dois aparelhos prometem fornecer dados úteis sem serem invasivos. "Qualquer medicação invasiva poderia prejudicar o bebê", explicou Amir Gandjbakhche, diretor de Biofotônica Analítica e Funcional do NICHD e um dos criadores do aparelho. "O bom do nosso aparelho é que a quantidade de luz que mandamos para dentro é como a luz de um farolete. É portátil. É sem fios. É extremamente seguro."

Gandjbakhche e Anderson estão desenvolvendo dois aparelhos desse tipo que eles esperam que sejam aprovados para uso mais amplo. Se isso acontecer, eles esperam que os cientistas em pouco tempo ganhem uma compreensão melhor de um dos papéis mais essenciais desempenhados pela placenta e que médicos poderão detectar condições perigosas, como pré-eclâmpsia e problemas no crescimento fetal, antes de eles chegarem a representar riscos graves à saúde.

Enquanto isso, o Projeto Placenta Humana segue adiante em sua missão de estudar a placenta "in vivo", e não apenas "in vitro". "A placenta é o único órgão que você pode desenvolver, descartar e voltar a desenvolver", disse Spong. "E ela permite que duas entidades geneticamente distintas coexistam e cresçam. É um órgão realmente, realmente importante."

Esta reportagem foi publicada originalmente no TheAtlantic.com.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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