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Como a busca de Prince pela liberdade artística mudou a indústria musical

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PRINCE
REUTERS/Chris Pizzello
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*Adam Gustafson, Pennsylvania State University

A morte de Prince marca o fim da carreira brilhante de um dos mais talentosos e ecléticos artistas da música pop. Um virtuoso de vários instrumentos, mestre em arranjos e produção e um showman nato, Prince nos deixou um legado de músicas tão diversas quanto seu elaborado guarda-roupa.

Mas sua busca pela completa liberdade artística - e pela proteção legal dessa liberdade - será parte significativa de sua obra. Seus vários embates com gravadoras, serviços de streaming e usuários de mídias sociais inspiraram outros artistas a exigir liberdade artística e a receber a parte justa dos lucros.

A chegada do menino prodígio

Em 1978, aos 19 anos, Prince assinou com a Warner Bros. e lançou seu álbum de estreia, For You. Ele gravou todos os instrumentos e cantou todos os vocais do disco, o que era incomum no começo do boom das "megaestrelas" que definiram o estilo musical dos anos 1980.

Álbuns desse período costumavam depender de um exército de produtores, arranjadores, compositores e músicos. Off the Wall (1979), de Michael Jackson, lista quase 40 músicos de estúdio e mais de 15 compositores e arranjadores.

Embora não tenha sido um grande sucesso, For You já demonstrava a genialidade nascente de Prince e seu desejo de manter controle sobre todos os elementos de seu trabalho, o que lhe permitiria ser fiel a sua visão artística.

For You foi o primeiro de uma longa série de álbuns de estúdio que ele produziu com a Warner. Depois do lançamento de dois outros discos, vieram 1999 (de 1983) e Purple Rain (1984), que o estabeleceram como um dos artistas pop mais diversos e dominantes dos anos 1980.

Amarras contratuais

Mas, no começo dos anos 1990, a relação entre Prince e a Warner dava sinais de esfriamento. Depois do sucesso de Diamonds and Pearls (1991), Prince assinou um contrato de 100 milhões de dólares para gravar mais seis discos com a gravadora.

Detalhes do contrato, entretanto, levaram a uma longa batalha judicial e criativa a respeito da propriedade do catálogo de Prince lançado pela Warner. Segundo o contrato, a Warner Bros. seria a dona de tudo o que Prince havia lançado. Já o artista receberia dinheiro para continuar trabalhando no seu estúdio, Paisley Park Records, em Minnesota.

Prince estava cada vez mais frustrado por ter entregue os direitos de suas músicas e passou a se apresentar com a palavra slave (escravo) escrita no rosto. Foi nessa época que ele mudou seu nome para um símbolo, decretando a morte de "Prince".




Prince com a palavra slave (escravo) escrita no rosto durante um show.
Brian Rasic/Rex Features

Para cumprir a obrigação de entregar os discos previstos no contrato, ele optou por entregar à Warner material que já estava gravado. O último disco desse período, "Chaos and Disorder" (1996) é uma mistura de canções escritas apressadamente - uma vingança contra a Warner e uma maneira de livrar-se do contrato.

Lutando por sua parte

Dada a longa e pública disputa com a Warner, o dano poderia parecer irreparável. Mas os dois lados fizeram as pazes em 2014, e Prince obteve a propriedade dos trabalhos lançados pela gravadora.

Prince passou a última década de sua vida combatendo outras áreas da indústria da música, para garantir a proteção de seus trabalhos criativos. Em 2007, Prince e a Universal Music processaram uma mãe que postou no YouTube um vídeo de seu filho dançando uma música do artista.

Em 2014, ele processou 20 pessoas que teriam violado seus direitos autorais postando suas músicas na internet ou compartilhando arquivos em serviços de pirataria. Prince exigia 1 milhão de dólares em danos de cada um dos réus.

O objetivo dos processos era chamar atenção para a questão das violações dos direitos autorais, não arruinar a vida das pessoas que compartilhavam músicas online. Depois que os acusados pararam de fazê-lo, os processos foram suspensos.

Mais recentemente, Prince, junto com artistas como Taylor Swift, começaram a exigir que lojas de downloads e serviços de streaming pagassem mais royalties para os artistas. Em 2015, ele retirou seu catálogo da maioria das lojas online e serviços de streaming, optando por oferecer tudo exclusivamente pelo Tidal, serviço comprado pelo rapper Jay Z.

A luta de Prince para proteger sua voz criativa reverberou até nos cantos mais remotos do mundo da música. Arranjadores de corais - que costumam pagar uma taxa para acessar músicas - são proibidos de usar as músicas do artista.

O legado de Prince como músico brilhante e extraordinariamente único vai perdurar nos quase 30 álbuns de estúdio que ele produziu.

Mas o artista também deve ser lembrado por seu trabalho em defesa da propriedade dos músicos em relação a suas obras. Ao longo de sua carreira, a determinação de Prince de comprar essas brigas teve papel fundamental na grande onda de insatisfação com a indústria da música, hoje encabeçada por Jay Z, David Byrne e Neil Young.

Assim como For You mostrava um artista com controle total de seu meio, a luta de Prince para manter controle sobre suas músicas ao longo de sua carreira vai garantir que seu legado permaneça na voz que ele sempre quis.

Artigo publicado originalmente no The Conversation, publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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