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Precisamos falar da cultura do estupro

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Recentemente fiz um texto abordando o estupro de uma menina, cometido por 33 caras, onde procurei falar da culpa que todos nós, homens, carregamos também neste caso, como em muitos outros.

Foi surpreendente ver a reação de muitos leitores (homens, óbvio) com relação a tudo o que foi dito e fica claro o que já é do conhecimento de muitos por aí: não há nada nesse mundo que seja mais frágil do que a masculinidade.

Sim, a masculinidade devia vir envolta em plástico bolha, com uma tarja de aviso escrita "Cuidado, frágil", pois basta dizer que todo homem é um estuprador em potencial, que diversos outros já aparecem com vinte pedras nas mãos e o velho argumento de "not all men", houve até quem tentasse culpar o funk pelo estupro ocorrido, houve (como sempre há) quem tentasse transferir boa parcela da culpa à vítima porque:

1. Ela era "bandida" e postava fotos com armas;

2. Ela escolheu levar essa vida, portanto, devia saber que coisa boa n√£o viria;

3. Ela se relacionava com um traficante;

4. Ela tinha costume de transar com v√°rios caras;

5. Ela estava em um baile funk;

6. Ela n√£o estava em casa, se estivesse isso n√£o teria ocorrido;

7. Ela j√° postou dizendo que iria transar com v√°rios caras.

Pois bem, vamos novamente aos esclarecimentos j√° feitos no texto anterior:

Primeiramente devemos nos lembrar que a vida que ela leva, o seu comportamento no dia-a-dia, seus relacionamentos, suas escolhas sexuais, enfim, nada disso deve ser usado para relativizar a culpa dos estupradores, nada disso deve ser usado a fim de produzir provas contra ela mesma e dessa forma, buscar culpabilizá-la por ter sido violentada, pois, se há culpados nessa história, são os 33 estupradores e todos aqueles que, mesmo de forma indireta, contribuem para a legitimação e para a propagação da cultura do estupro. Se ela escolhe transar com vários, é uma escolha dela e deve ser respeitada, mas acontece que o que houve não foi consentido, o vídeo e as fotos divulgados não foram consentidos. O que houve naquele vídeo não foi sexo consentido, foi estupro. Foi um crime.

√Č preciso tamb√©m, desapegar dessa ideia de que "em casa todos t√™m prote√ß√£o". Mentira! Grande parte dos abusos sexuais s√£o cometidos no ambiente familiar. Basta acessarmos o Mapa da Viol√™ncia de 2015 e veremos em sua p√°gina 49, que os casos de viol√™ncia sexual est√£o no 3¬ļ lugar, com um total de 23.630 casos, sendo a maior parte deles, cometidos contra crian√ßas ou adolescentes, e adivinhem onde estes crimes tem maior incid√™ncia? Exatamente. No ambiente familiar.

Mas como as pessoas podem vir a contribuir para essa cultura, se nem conhecemos todas as vítimas e nem temos nenhum vínculo com elas?

Pois bem, a participação indireta se dá nas seguintes formas:

1. Se você é conivente com piadinhas machistas;

2. Se você observa um homem agredindo uma mulher e nada faz por achar que "em briga de marido e mulher não se mete a colher";

3. Se você acha que por uma mulher estar usando roupas curtas e / ou decotadas, está "pedindo" para ser assediada;

4. Se você acha que o que ela escolhe fazer da vida dela, contribui para que ela seja estuprada;

5. Se você culpa a mulher por ter bebido demais dizendo "não seria assim se não tivesse bebido tanto";

6. Se você curte ou compartilha vídeos ou fotos íntimas de meninas que tiveram suas fotos divulgadas na internet;

7. Se você acha que a culpa é dela por se relacionar com "esse tipo de gente";

8. Se você acha que a culpa é dela por ter ido a um baile funk;

9. Se você acha que, se ela estivesse rezando / estudando isso não aconteceria;

10. Se você, de alguma forma acha que a vítima pode ser considerada culpada pelo abuso que sofreu;

Se você se utiliza dos exemplos citados acima, ou de qualquer outro exemplo para tentar justificar um abuso sexual, você está contribuindo para a propagação e legitimação da cultura do estupro.

A Comissão de Direitos Humanos da OAB de Tocantins fez uma imagem bem explicativa sobre como funciona a cultura do estupro, que é a seguinte:

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Precisamos falar da cultura do estupro, precisamos fazer um mea culpa. √Č preciso que os homens deixem de lado esse sentimento de "brother" que automaticamente nutrem um pelo outro, deixem de lado a caixinha da masculinidade de voc√™s e comecem a questionar seus amigos, conhecidos, enfim. Questionem a voc√™s mesmos sobre a participa√ß√£o de todos os homens na propaga√ß√£o dessa cultura.

√Č de suma import√Ęncia frisarmos que o estupro n√£o √© culpa de nenhuma escolha que a v√≠tima possa ter feito durante sua vida. Estupro n√£o √© puni√ß√£o, n√£o √© consequ√™ncia. Estupro √© crime! N√£o h√° nenhuma justificativa para o estupro, n√£o h√° nenhuma outra causa para o estupro, que n√£o seja o estuprador!

E como punir estupradores? Que tal castração química ou física?

Não, meus amigos, não. A castração química não resolverá o problema, visto que a castração química apenas atuaria para inibir a libido do estuprador, e o estupro não está ligado ao prazer sexual, o que o estuprador quer é afirmar à sua vítima que tem domínio, que tem poder sobre o corpo dela.

A castração física por sua vez, também não surtiria efeito, pois, estando sem o órgão sexual, o estuprador iria utilizar-se de outros meios para consumar o crime, pois, novamente reforçando, o estupro não está ligado ao prazer sexual, mas ao prazer da dominação de sua vítima.

"Nossa, mas tudo agora é estupro"

Não que tudo agora seja estupro, mas sim, todo ato libidinoso, cometido com o emprego de violência ou grave ameaça, não importa se ela é sua esposa, namorada, ficante, noiva, enfim. Se ela disse não, todo ato libidinoso que você tentar forçar será considerado estupro.

Se você vai a uma festa, e agarra à força uma mulher, isso é estupro.

Se você beija uma mulher sem o consentimento dela, isso é estupro.

Se você transa com uma mulher, estando ela desacordada, impedida de manifestar seu consentimento, isso é estupro.

Se você, durante o sexo, gosta de forçar a mulher a fazer o que você quer fazer, isso é estupro.

Dito isto, parem de achar um absurdo quando ouvirem dizer que "todo homem é um estuprador em potencial". Isso não implica em dizer que todo homem necessariamente vá estuprar, mas que todos eles tem sim, um potencial para fazê-lo e não há nada de absurdo em constatar isso.

Por fim, mas n√£o menos importante:

Estupradores n√£o s√£o animais;

Estupradores n√£o s√£o, via de regra, doentes;

Estupradores n√£o s√£o instintivos;

Estupradores n√£o s√£o coitados;

Estupradores s√£o estupradores!

√Č hora de darmos nomes aos bois. √Č hora de parar de aplaudir e sorrir pra estuprador que d√° entrevista em programas de TV e conta como estuprou uma mulher, e que, em seguida vai ao Minist√©rio da Educa√ß√£o propor pautas. √Č hora de parar de aplaudir pol√≠tico que fa√ßa homenagem a estuprador. √Č hora de parar de aplaudir pol√≠tico que diz a uma deputada que s√≥ n√£o a estupra porque "ela n√£o merece".

√Č hora de parar com as falas do tipo "agora vai pra cadeia, virar mulherzinha". Esse argumento √© t√£o violento, em tantos sentidos, que voc√™s n√£o fazem ideia, pois apenas demonstra o qu√£o arraigada est√° a cultura do estupro, por deixar subentendido que, agora que ele virou "mulherzinha", j√° pode ser estuprado. Voc√™s tem no√ß√£o do qu√£o violento √© usar isso para comemorar a pris√£o de um estuprador? Voc√™s que pregam esse discurso est√£o querendo combater um crime ao qual dizem ter total avers√£o, utilizando dele mesmo contra quem o cometeu. Conseguiram achar coer√™ncia nisso? Pois √©, nem eu.

Saia de sua bolha e pense:

Como você já contribuiu para a cultura do estupro hoje?

Quantas piadas machistas você propagou?

Com quantas atitudes misóginas você foi conivente?

Quantos vídeos/fotos você já ajudou a espalhar mandando pros seus amigos?

Quantas mulheres você já xingou por terem te dado um fora?

Quantas mulheres você já abordou na festa ou na rua, assobiando, chamando de gostosa ou olhando-a de forma clara a mostrar o quanto a estava objetificando?

Quantas mulheres você já oprimiu?

Quantas violências você já naturalizou?

Até quando você será parte dos 33?

LEIA MAIS:

- Cultura do estupro e como os homens contribuem para perpetu√°-la

- O machismo no sistema republicano de Ouro Preto

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