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'Enfrentamos mares nunca antes navegados e um país dividido'

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Eu votei pela permanência na União Europeia. Não foi um "permanecer" alegre ou acrítico. Foi um "permanecer" indignado. Quando os resultados foram sendo anunciados, ficou claro que os eleitores também estavam indignados, mas não somaram a parte sobre "permanecer na UE" a esse seu sentimento de raiva. Assim, estamos diante de mares nunca antes navegados, com o país dividido.

Nos próximos dias haverá a tentação de reapresentar os argumentos do plebiscito. Mas isso não mudará o resultado. O povo se fez ouvir.

Nos últimos meses eu debati a questão da UE por toda parte no país, em supermercados, lares de idosos, usinas elétricas, em pubs, no Facebook e no Twitter. O sentimento de frustração das pessoas era palpável.

As pessoas estão frustradas com o "business as usual". Estão frustradas com a política. Sentem que há muito tempo ninguém lhes dá ouvidos e sentem que não estão no controle de suas vidas. A mensagem da campanha pela saída da UE identificou essa insegurança com precisão.

O GMB defendeu o voto pela "permanência crítica" na UE. Era um voto pragmático dizendo que, depois de pesados todos os prós e contras, estaríamos melhor se continuássemos na União Europeia. Essa posição era baseada na defesa dos direitos no local de trabalho pelos quais lutamos há décadas através da UE. Ela reconhecia os problemas com a UE e se comprometia a lutar para resolvê-los.

Mas o país não concordou. Eleitores demais não conseguiram convencer-se a votar por algo que enxergam como um status quo falido.

Por exemplo, muitos dos trabalhadores da construção civil que nosso sindicato representa estão frustrados há anos pelo fato de seus salários, termos e condições de trabalho serem enfraquecidos por empregadores que querem ganhar algumas libras a mais às custas de trabalhadores migrantes mal pagos. Em muitos casos, eles disseram que não viam outra opção senão votar pela saída, para preservar seus empregos e conseguir condições de trabalho melhores.

Sabemos que o governo poderia intervir, sabemos que esses trabalhadores migrantes também são explorados, sabemos que são os patrões sem escrúpulos que fomentam essa disputa, que leva à tensão social e coloca em risco a coesão de comunidades. Mas qualquer pessoa que tente convencer as pessoas de que a imigração não é o problema, quando a experiência cotidiana delas lhes diz (com ou sem razão) que é, só pode fracassar.

E esse é apenas um exemplo - há outros. Empregos em armazéns que são anunciados no exterior antes de serem anunciados aqui. Empregos no setor manufatureiro transferidos para fora do país por patrões que querem pagar menos à sua mão-de-obra do que nós aceitaríamos para trabalhadores britânicos.

Muitas pessoas não conseguiram enxergar ou sentir os benefícios de permanecer na UE porque não sentem que desfrutam desses benefícios em sua vida, hoje. O irônico é que muitos desses problemas - como a sobrecarga atual dos serviços públicos e a falta de imóveis residenciais - às vezes eram atribuídos à UE, sendo que na verdade eram culpa de Downing Street, consequências de escolhas políticas feitas em Westminster.

Nas próximas horas, dias e semanas vamos ver e sentir o impacto econômico da decisão tomada pela nação. No momento em que escrevo este texto, a libra esterlina está em queda livre. Haverá um choque econômico.

O que vai acontecer a seguir não pode ser decidido por um governo eleito com 37% dos votos e um primeiro-ministro que perdeu o plebiscito com o qual engajou-se pessoalmente, ou por um premiê que não chegou a ser eleito pela população. Muitos dos votos pelo Brexit dados ontem foram dados porque as pessoas rejeitam os impactos do mercado trabalhista flexível e da busca do livre comércio acima de tudo.

Nosso lugar no mundo não pode ser um lugar baseado numa filosofia de livre mercado e vale-tudo do Partido Conservador.

Uma corrida para baixo que priorize sobretudo a eliminação das chamadas barreiras comerciais e a flexibilização do mercado de mão-de-obra vai trair os interesses dos trabalhadores e dos próprios eleitores que tomaram a decisão de sair da UE. Com a perspectiva de termos de aceitar o livre movimento da mão-de-obra para preservar o livre comércio, é preciso haver um esforço coordenado para defender e melhorar as proteções das pessoas no trabalho, os salários e as condições gerais de vida. É por isso que o GMB vai lutar, como sempre lutou.

No prazo imediato, o primeiro-ministro precisa agir agora, numa plataforma suprapartidária, para conciliar e representar o país como um todo, não apenas as divisões em seu próprio partido. Isso quer dizer um plano urgente para proteger empregos e uma garantia de que nenhum direito do local de trabalho será derrubado. Os passos seguintes devem ser negociados com todos os partidos políticos no Parlamento, em vez de simplesmente entre o Primeiro-ministro e os deputados de seu partido ou seus rivais internos.

Pelo bem da política, espero que as promessas já feitas sejam cumpridas. Se isso acontecer, todos poderemos esperar por novos hospitais locais, com serviços públicos de primeiro nível. Mas, para falar francamente, continuamos céticos. Nos tempos que vêm por aí, a melhor maneira de se proteger no trabalho será filiar-se a um sindicato.

Tim Roache é o secretário-geral do GMB, sindicato geral britânico com 631 mil filiados em diversas categorias profissionais.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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