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Em fortaleza, ele recebe para ajudar pessoas a caçarem Pokemóns

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outro dia eu escutei: a inovação não é um monopólio do mercado ou do fantástico reino das startups. desde dois minutos depois de o país ocupado, dia desses, em 1500, sem dúvidas muitos de nós sobreviveu pois encontrou na sevirologia, como diz o reinaldo pamponet, a melhor estratégia para se manter existindo nesta terra em que tudo dá. mas que também, quase tudo, toma, em contrapartida.

é que se não fôssemos, nós, criativos e inovadores como somos, pouco provável que chegássemos onde chegamos, seja lá o que isso queira dizer, num país em que R$ 200 bilhões são perdidos, anualmente, apenas em desvios por corrupção.

sim, R$ 200 bilhões.
por ano.

na mesma terra em que os nossos deputados federais - apenas eles, atente-se - custam aos cofres públicos - os cofres de todas nós - R$ 1 bilhão por ano.
salário: R$ 33.763
auxílio-moradia: R$ 4.253 [ou apartamento de graça para morar]
verba de R$ 92 mil para contratar até 25 funcionários
R$ 30.416,80 a R$ 45.240,67 por mês para gastar com alimentação, aluguel de veículo e escritório, divulgação do mandato, entre outras despesas.
dois salários no primeiro e no último mês da legislatura como ajuda de custo, ressarcimento de gastos com médicos.

multiplica por 513 deputados.
depois, por 12 meses.
com dados do congresso em foco.

veja, não é bem aquilo que a alexa clay e kyra maya escreveram, em [a economia dos desajustados], mas acho que o conceito por trás do livro vale para o denis paz, 32 anos, morador de fortaleza e criador da pokemoto, serviço que oferece aos adoradores do jogo segurança e mobilidade para caçar os bichinhos pela cidade: existe uma organização economica que, longe dos índices oficiais da bolsa ou da capa da melhor revista de negócios que você leu ontem, gerando trabalho e distribuindo riquezas para pessoas no mundo real.

aquele mundo real em que, de 2007 a 2016, os alimentos subiram 129%.

o denis ficou desempregado tem pouco mais de um mês. conta, sempre trabalhou em duas rodas; quando era criança como entregador, de bicicleta, e depois que foi se adultando, como motoboy, mesmo. ser motoboy sempre foi o sonho dele.

spoiler antijulgamento: é que os sonhos, ele me explicou, tem mais a ver com o propósito que ele cumpre na nossa vida e no nosso imaginário, do que com o seu tamanho ou com o objeto sonhado, em si. de moto, o denis se enxerga mais livre, conhece toda a cidade e ainda ganha para isso.

ouça a minha entrevista com ele clicando aqui.

pai de dois filhos, e um apaixonado por jogos de computador desde pequeno, denis ficou sabendo do pokemon go pela imprensa, pouco mais de um mês e meio atrás. entendeu que tinha a ver com andar pela cidade e capturar bichinhos virtuais. pouco depois ficou desempregado. e aí, ligou os pontos: e se eu oferecesse às pessoas que vão jogar isso aqui no brasil a chance de levá-las onde estes pokemons estarão?

contou a ideia para alguns amigos, que riram dele. bem verdade, o denis me contou nesta boa conversa que tivemos, que metade riu por não saber do que ele estava falando ou por não acreditar na ideia que ele teve. e a outra metade, também.

mas ele continuou com a ideia fixa na cabeça. aproveitou os dias de espera para fazer alguns cálculos e chegar ao valor de R$ 25 por hora rodada, sempre dando F5 nas páginas de internet. e na própria esperança. e o tal jogo nunca que chegava. e aí foi batendo o desespero: as contas chegando, e nada de pokemon go acompanhá-las. e ainda tinha o risco de não dar certo. mas é que isso, para o denis e tantos e tantas outras, não é bem um risco: é apenas vida acontecendo, mesmo.

o jogo foi lançado na quarta-feira, 3 de agosto. à noite, ele fez esta arte aí da foto e postou em alguns grupos de trabalho. se enganou ao achar que a postagem seria apenas para o seu bairro ou a cidade, mas acertou em cheio na ideia que teve. ele explicou, que quando pegou o celular no dia seguinte tinha dezenas de mensagens e ligações. de outros estados, inclusive. depois, vieram as reportagens: sites, revistas, televisão e entrevistas em emissoras de rádio.

os filhos estão felizes: ele está sendo reconhecido em todos os lugares que vai, todo hora alguém o procura para falar da ideia. e para propor negócios: um amigo e ele vão oferecer um carro, com ar condicionado, água e música ambiente para quem tem medo de andar de moto. tem também uma pessoa de são paulo, motoboy igual ele, querendo ajuda pelo facebook para divulgar trabalho parecido.tem amigos que querem pensar como podem criar um grupo associado para oferecer o serviço na cidade.

não é sobre o jogo este texto - o maior coletor de dados pessoais que alguém poderia inventar; nem sobre a moto, muito menos sobre a ideia, em si. este texto é sobre o denis. e sobre como a gente vai se virando, mesmo não tendo as mesmas chances que se viraram para uma parte considerável de nós.

este texto pode ser, também:
sobre conectar pontos;
estar atento aos detalhes;
persistência;
foco
e fim.

PS: pesquise sobre a Universidade da Correria.
PS2: ouça a entrevista dele, link aqui no texto.
PS3: leia os termos de uso do pokemon go.

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- sobre paixão, política e postes

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