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Pelo direito de contar a própria história

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Boris Austin via Getty Images
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outro dia ouvi assim: a gente não necessariamente conta ao mundo o que gente vê. a gente conta ao mundo, mesmo, o que a gente é. fiquei bem pensando se isso era mesmo verdade. pois, as histórias são sempre contadas a partir de um lugar, partem de alguém. alguém que, nascido e existido, sempre carrega uma história inteira de memórias, de aprendizados, de tristezas e tudo mais, que, juntas, somadas, moldam nossa visão de mundo. e toda vez que a gente conta algo que viu, e interpretou como a realidade, na escolha ou na ausência de uma ou outra palavra para narrar isso, já manifesta essa visão de mundo.

nem uma palavra é em vão.

foi assim que, desde bem menor que hoje, vários amigos e amigas, questionaram sempre a repórter que aparecia lá no campo limpo, na brasilândia, em cidade tiradentes, no grajaú e por aí vai, narrando a história de quem morava lá com um punhado de palavras que não apenas adjetivavam a gente, mas nos esvaziava de sentido, mesmo. funciona assim, até hoje: quem de 18 anos, classe média, que é pego vendendo drogas ilícitas: jovem; nas periferias, traficante. o julgamento é automático, implícito. quase um sobrenome.

e este é só um exemplo, mas tem outros.

ó: quem nunca, ao contar o seu trabalho para a TV ou algum jornal ou revista, contou ali nos dedos da mão esquerda quantas vezes apareceu a palavra carente para contextualizar você ou seu bairro? eu, mesmo, já perdi as contas disso. e teve até um dia, que até perguntei o motivo de tantas vezes essa palavra quando se referiam das periferias e favelas. e o repórter, que é de uma revista grande, respondeu assim: ué, mas é que vocês são mesmo. Não, é? e a nossa conversa continuo, a gente contando ali para ele que a carência, que virou sobrenome para um dos lados da cidade, se fazia mais presente numa filha matava os pais nos jardins por causa da herança, do que quando a energia elétrica ou saneamento básico não chegavam como deveria na nossa rua. no primeiro caso, era uma escolha a carência de humanidade; no segundo, e nosso, era mesmo uma consequência. faltava pra gente para que sobrasse nos bolsos de alguém.

nós últimos anos, brotaram dezenas de coletivos de comunicação pela cidade de são paulo, e pelo país. pessoas que, vendo que suas histórias não eram contadas nos meios oficiais, escolheram um caminho que nossos pais e mães não tiveram a chance de escolher: serem o silvio santos de si mesmos.

e foi assim que foram se organizando, crescendo, se estruturando. passaram então a modelar negócios, a pensar estratégias para se autofinanciarem e darem continuidade às suas atividades. enquanto o grande veículo vai caindo no descrédito com o Tio João, que vende pipoca na Praça do Campo Limpo e nunca se vê representado, estes coletivos vão criando seus canais de distribuição de conteúdo, seus próprios jornais, revistas, portais e aplicativos. já esteve com algum deles em mãos ou na tela do seu computador? estes produtos e veículos de comunicação narram uma vida que não cabe bem no horário nobre. tratam de temas que são importantes, mas nem sempre para quem toma as decisões. estes coletivos, e novas formas de organização, produzem uma comunicação que humanizam a narrativa em busca das pessoas escondidas atrás dos fatos. estão fazendo isso, pois não vêem sua cor na TV, ou ouvem seu sotaque no rádio, ou não compreendem as palavras escolhidas para contar a si mesmo, na revista ou no jornal.

esta semana, essa história toda dá mais um passo: está nascendo em são paulo, a Rede Jornalistas das Periferias, grupo autônomo, apartidário e autorganizado, que reúne comunicadores populares, profissionais de comunicação que moram nas periferias e coletivos de mídia e comunicação das várias linguagens e lutas. o grupo, que até aqui tem 12 coletivos, quer debater, estudar, produzir, distribuir conteúdos e abrir espaço para o fortalecimento de uma narrativa que considere que a cidade somos todas nós. e que o centro do que quer que seja, é apenas um ponto de vista.

especialmente quando se fala da cidade.
para conhecer, clique aqui.

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