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Afinal, você é relevante para quem?

Publicado: Atualizado:
RAPE BRAZIL
Ueslei Marcelino / Reuters
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aos meus amigos homens das áreas da transformação social, da mudança de mundo e afins. este texto é especialmente para vocês, de começo. e vocês entenderão o motivo.

passei as últimas horas pensando onde que todos nós estamos, quando as nossas lutas mais precisam da gente. leia com atenção dedicada: uma coisa são as nossas lutas, e outra bem diferente são os nossos projetos.

luta é a música "oração": em loop, cabem três vidas inteiras, cabe uma penteadeira. e cabe nós todos. já no projeto, o tempo e a gente são finitos; existem para acabar.

você pode ter uma luta, e 6 jeitos de lutar por ela.

quando eu escolhi fazer o que faço hoje da vida, e até hoje eu não sei dizer bem o que é, e me sinto confortável em estar assim, existindo para achar um nome, eu olhei para todas as coisas que eu gostava de fazer, para todas as coisas que eu sabia fazer, para todas as coisas que me encantava aprender, e procurei pontos de encontro entre todas elas e as minhas acreditações pessoais. quando estes dois pontos se conectam, e te fazem sentido, você para de trabalhar para lugares, e passa a trabalhar em lugares.

desloca a sua doação de vida do projeto para o propósito.

você deve estar sabendo que uma adolescente de 16 anos foi violentada por 33 criminosos, no rio de janeiro. e que a repercussão mostra basicamente três caminhos: ou nós, como sociedade, estamos inexplicavelmente em busca do vídeo que um dos criminosos postou; ou estamos revoltados e machucados com tudo que aconteceu e nos colocando em movimento para fazer alguma coisa ou estamos culpando a vítima e relativizando o caso, com o mais do mesmo de sempre: desumanidade já naturalizada e um machismo que deságua em um caso de violência sexual contra mulheres a cada 11 minutos no brasil.

fora destes três campos, pelo que pude perceber nas redes que faço parte, boa parte daqueles de nós que se se dizem, se reconhecem, e se orgulham de serem chamados de transformadores, de makers, de empreendedores sociais, de ativistas, do nome que você quiser usar para qualificar quem impulsiona sistematicamente transformações sociais no mundo, cultuando um silêncio ensurdecedor.

nada de postagens, de declarações, de intervenções de qualquer tipo. nada de inundar a própria página convidando as pessoas a morarem na sua indignação. nem um compartilhamento de matéria sobre tudo que aconteceu a ela.

e eu me perguntando aqui: por que?

quando uma adolescente de 16 anos é violentada por 33 criminosos, pouco importa se você luta pela paz em santo antonio da itinga, se você é presidente da onu, ou se é presidente da associação internacional de proteção às borboletas do afeganistão: é a humanidade de todos nós que foi machucada e violentada brutalmente. jamais sentiremos o que ela sentiu e sente, mas podemos nos esforçar para sermos mais empáticos. minimamente.

isso não mexe com você?
isso não te dá um nó na garganta a ponto de não conseguir se expressar em palavra?

quando uma adolescente de 16 anos é violentada por 33 criminosos, pouco importa se você está viajando para apresentar o seu projeto num evento incrível ou para falar com um potencial patrocinador para a sua ideia sair do papel ontem: é o mundo sobre o qual decidimos agir que está chorando, inquieto, em estado de inverno para dentro.

e isso não mexe com você?
isso não te faz questionar o porque escolheu este caminho, entre todos os caminhos possíveis?

quando uma adolescente de 16 anos é violentada por 33 criminosos, pouco importa se você luta contra o temer, contra a dilma, contra o aécio ou contra o cunha. é sobre uma justiça que não se corrompe, que não relativiza a violência, que não se acovarda culpando a vítima que estamos precisando.

e isso não mexe com você?
isso não te conecta às pessoas diferentes de você, mas que compartilham dos seus valores?

quando uma adolescente de 16 anos é violentada por 33 criminosos, pouco importa se você tem 45 reuniões na próxima semana para alavancar as novas ideias que teve na semana passada ou prestar contas sobre o primeiro semestre de trabalho. é sobre fortalecer com o seu talento e suas habilidades os espaços de luta e enfretamento contra a cultura do estupro que estamos falando.

e isso não mexe com você?
isso não faz você inventar tempo na sua agenda concorrida que tanto te orgulha?

quando uma adolescente de 16 anos é violentada por 33 criminosos, não existe espaço para frases de autoajuda, para citações inspiradoras de como se mudar o mundo, para postagens falando o quanto sua iniciativa está transformando a cidade ou o país. isso tudo tem o seu valor e o seu lugar nos dias, carinhosamente. mas é sobre usar a sua relevância, a sua visibilidade ou espaço de fala que você conquistou que estamos precisando para que casos de violência, de qualquer tipo, contra qualquer gênero, se reduzam até zero.

e isso não te provoca?

quando uma adolescente de 16 anos é violentada por 33 criminosos, não existem a ong, o ing, as startups, os movimentos, as organizações circulares, descentralizadas, os negócios sociais ou co-workings, e todo qualquer tipo de sigla e nome que ainda não me foi apresentada: o que existe é uma necessidade urgente de humanizarmos a humanidade, de olharmos menos para como vamos mudar o mundo, e mais para como ele, sendo o que é agora, não consiga nos distanciar de nós mesmos.

entende?

quando uma adolescente de 16 anos é violentada por 33 criminosos, e mesmo assim os meios de comunicação sustentam o caso como suposto estupro, é importante a gente repensar qual é a diferença entre trocar olhares com alguém no bar hoje, mais tarde, de assediar alguém da mesa do lado acreditando que ela tá na sua [como se nunca a gente pudesse estar na dela].

não é sobre serem 33 homens, não é sobre ela ter 16 anos, não é sobre este caso que ganhou visibilidade. mas é sobre tudo isto, também. e é sobre o todo, sobre a cultura do machismo, do nosso machismo diário, amigos, e sobre o que você e eu temos a ver com isso.

quando uma adolescente de 16 anos é violentada por 33 criminosos, e você é mais relevante para o seu próximo contratante ou evento, que para as lutas que te trouxeram até aqui, a indignante naturalização de crimes como este fica ainda mais - tristemente - compreensível.

pelo fim da cultura do estupro.
seja relevantes para as lutas.
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alguns homens que você, meu amigo, pode seguir nas redes para ampliar sua visão de mundo.
recomendo cada um deles.

Thiago Borges - https://www.facebook.com/thiago.borges1?fref=ts
Rafael Poço - https://www.facebook.com/rafael.poco?fref=ts
Robin Batista - https://www.facebook.com/robiefreakcode?fref=nf&pnref=story
Alex Barcellos - https://www.facebook.com/profile.php?id=100001674106350&fref=ts
Ricardo Borges - https://www.facebook.com/ricardo.borges.martins?fref=ts
Leo Fressato - https://www.facebook.com/LeoFressato/?fref=ts
Léu Brito - https://www.facebook.com/leonardo.s.brito?fref=ts
Caio Tendolini - https://www.facebook.com/CaioTendolini?fref=ts
Gil Marçal - https://www.facebook.com/cultgil?fref=ts

e tanto outros.

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