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A inspiração da inovação frugal

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Marcos Alves via Getty Images
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Recentemente, viajei em férias para o litoral do Rio Grande do Norte. Fui em busca de descanso e inspiração para liderar os programas de inovação em nossos clientes da consultoria. Não poderia ter escolhido lugar melhor.

Baía Formosa é um povoado de pescadores situado em uma belíssima encosta rochosa, repleta de pontas e reentrâncias. Lugar de gente amável e com uma atmosfera mágica, carregada de boas vibrações da natureza e do mar.

Observar a pacata vida da população local ensina muito a um cidadão de São Paulo.

De onde estávamos, é possível ir até a praia da Pipa, a mais famosa da região. O trajeto é pela praia, de buggy, ou atravessando fazendas de cana de açúcar, de carro. Ao todo uns 20 ou 30 quilômetros separam Baía Formosa da Pipa. Há, no entanto, que se cruzar dois pequenos rios. Como? Muito simples. Sobe-se com o carro em embarcações tipo chatas; os barqueiros usam longas varas como alavancas e empurram o fundo dos riachos, movendo as balsas. Cobram em torno de 10 reais por veículo a cada trecho.

Outra típica solução local são os barcos de pesca, claramente uma evolução das históricas jangadas. Assim como as balsas, são embarcações bem planas, medindo 4 metros de popa à proa, aproximadamente, só que com um surpreendente sistema de propulsão: um motor a combustão, desses de bomba d'água, acoplado a um longo eixo com uma hélice no final. Uma espécie de Jugaad nordestino.

Jugaad é o nome dado na Índia a inovações de baixo custo, mas que resolvem. A palavra é de origem híndi e define uma solução improvisada, fruto da combinação entre ingenuidade e inteligência.

Na Índia, o Jugaad é também um caminhão de madeira a cujo eixo é acoplado, diretamente, um motor estacionário. Chocante para um engenheiro, mas suficiente para atrair o interesse dos Estados Unidos, da Alemanha e de outros polos de inovação no mundo, que decidiram estudar essas soluções rudimentares. Procuram novas fórmulas para inovar nos BRICs e, assim, acelerar o desenvolvimento econômico dessas regiões.

Jugaad foi traduzido por alguns pesquisadores brasileiros como "gambiarra". Ao nosso ver, a tradução é pejorativa e inadequada. Os Jugaads brasileiros são na verdade "engenhocas". Alternativas simples e baratas encontradas "na raça" para superar desafios e se desenvolver.

Pesquisadores do assunto distribuem essas inovações em três grupos com diferenças muito sutis: as de custo, as frugais e as good enough innovations. O que as distingue são combinações possíveis entre nível de inovação, oferta de valor ao usuário e tecnologia aplicada. Em comum, todas resolvem desafios da forma mais simples possível e com custos muito, muito baixos.

Mesmo nas cidades mais desenvolvidas no Brasil temos inovações frugais. Poderíamos citar como exemplo o tanquinho, criado no final dos anos 1990. Claro, não se compara a uma máquina de lavar com 12 programas, mas é bem melhor do que lavar roupa no tanque. Ou o pau de selfie, que permite o autorretrato sem muitas tecnologias, na verdade inúteis. Tanto no caso do tanquinho quanto no do pau de selfie, a solução está longe de ser a ideal, de sonho, mas resolve - e por isso vende.

Não importa se desse tipo de inovação frugal emergirão fórmulas mágicas para inovar. Mas há algo indiscutível: nessas engenhocas estão impressas marcas importantes de toda e qualquer inovação de sucesso. Desde as da Nasa até as de Baía Formosa, são elas:

1) Todos somos Inovadores.
O dom, a capacidade de inovar não é exclusiva de poucos iluminados. Todos nós, seres humanos, somos inovadores por natureza. Independentemente do nosso nível de instrução, somos capazes de criar para superar desafios.
2) Inovação boa é a que funciona em cada situação e realidade. Sofisticação não é sinônimo de inovação; funcionalidade sim. Funcionar significa preencher uma necessidade experimentada ou não pelo cliente no campo material e, por que não dizer, emocional. O nome da chata que embarcou nosso veículo em Baía Formosa era Princesa...
3) Tudo muda, e isso exige inovação. Quanto mais profundas e rápidas as mudanças do mundo ao nosso redor, maior será a demanda por inovação. Seja em Baía Formosa, seja em Nova York.
4) Inovar e empreender são verbos irmãos. O rapaz da balsa opera ao mesmo tempo a balsa e o próprio negócio. Vende, recebe clientes, entrega serviços, cuida do seu empreendimento, ouve elogios e queixas! Ele vive em uma realidade certamente mais livre para empreender, com menos limitantes e fatores inibidores da inovação e do empreendedorismo do que o menor dos empresários da cidade grande.

Enfim, frugal ou tecnológica, inovação é o que move os negócios e a prosperidade. Dos indivíduos, das empresas e dos países. Tenhamos orgulho das nossas engenhocas e do nosso jeito de inovar. Talvez esse seja justamente um primeiro pequeno passo para nos tornarmos mais e mais uma Nação Inovadora.

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