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Engenharia e antropologia do automóvel amanhã

Publicado: Atualizado:
EDUCATION BRAZIL
Marcos Alves via Getty Images
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Procura-se professor de antropologia para lecionar no curso de engenharia automobilística.
Esse anúncio poderia até ter parecido estranho dez anos atrás, mas, nos dias de hoje, não faz sentido pensar em uma engenharia automobilística que se restrinja à mecânica, à produção e à eletrônica. Não será possível mudar o conceito dos veículos sem preparar nossos engenheiros para projetar algo completamente novo. Algo que seja muito mais do que um meio de transporte e lazer; um produto que se torne parte indissociável de nós, como o celular hoje.

Mas como projetar e produzir algo inteiramente novo? De onde virão as ideias, os insights, as perguntas que vão gerar as inovações dos próximos anos, seja na indústria automobilística, seja em quaisquer outros segmentos? Da pesquisa básica? Do desenvolvimento experimental? Dos algoritmos e do Data Analysis?

Minha resposta a isso é que as inovações dos próximos anos começarão a nascer no ambiente mais estimulante, mais miscigenado, mas permissivo à tentativa e ao erro que existe. Esse ambiente é a escola. Do ensino fundamental à engenharia automobilística.

É na escola que, primeiramente e de forma ousada, deveríamos nos permitir experimentar, acertar, comemorar; tentar, errar, corrigir, tentar de novo, errar de novo, não desistir. Devemos pensar na educação e nas escolas como incubadoras de inovações. Como fábricas-laboratório que criem a partir de perguntas sem respostas.

No entanto, talvez esse sonho de uma nova educação e de uma escola reeditada para ensinar a inovar tenha se distanciado ainda mais no momento em que o governo propôs seu plano de reforma para o Ensino Médio, no mês passado.

Vou explicar por quê.

A educação é o tema mais sério e impactante para o futuro da nossa nação. Da capacidade de empreender e inovar de nossos jovens é que dependerá a inserção competitiva do Brasil. Mesmo assim, o MEC dá claras evidências de que não sabe o que está fazendo. A barbeiragem mais recente foi flexibilizar as aulas de educação física e educação artística no currículo obrigatório das escolas.
Ok, o atual ministro da Educação, Mendonça Filho, veio a público com mil explicações e disse que nenhuma disciplina está excluída nem incluída, por enquanto. Falou, falou, mas o fato é que, a valer o que diz a Medida Provisória apresentada pelo governo (e nem estamos tratando aqui do absurdo que é reformar a educação por Medida Provisória), só cursariam essas duas disciplinas os jovens que as escolhessem.

Parece que os atuais gestores da educação estão pensando na formação dos nossos jovens como se eles fossem robozinhos sendo preparados para empregos tradicionais em empresas tradicionais, que valorizam as ciências exatas e as abordagens técnicas. Empregos esses que talvez nem sequer existam nos próximos anos. Por outro lado, as ciências humanas, o espírito artístico - essa educação, sim, pode torná-los capazes de vencer. Deveríamos estimular conteúdos que realmente façam a diferença para essas crianças. Economia colaborativa e criativa, gestão da diversidade, por exemplo.

Em alguma medida, vivi isso na pele. Quando eu era criança, as aulas de artes eram as minhas preferidas. Era nelas que eu me realizava, compreendia a essência humana. Gostava também das aulas de educação física. O esporte me ensinou o que sei sobre disciplina, competitividade, respeito aos adversários e, principalmente, sobre como buscar melhoria contínua. Características que, anos depois, fizeram de mim um engenheiro atento aos processos e à qualidade dos produtos.

Logo que entrei no mundo corporativo, fiquei fascinado ao descobrir que as organizações são sistemas vivos, complexos, dotados de alma e onde se estabelece uma teia de relações. Mudei de carreira e me dediquei à administração.

Fiz mestrado na área de humanas, buscando entender as reações das pessoas diante de grandes programas de mudança. Só então, depois dos 30 anos de idade, encontrei a real satisfação plena no trabalho e reconheci minha vocação. Hoje faço bem o que faço, e só faço bem porque gosto de fazer. Como dizia Ulysses Guimarães, o grande segredo é transformar o dever em prazer, e, no mundo do trabalho, essa é a regra que separa o perdedor do homem de sucesso.

Estamos errando ao reduzir o Ensino Médio às disciplinas "duras". Deveríamos fortalecer a educação sensível, a educação para a arte. Deveríamos valorizar a nossa história, a história brasileira, em toda a sua riqueza, com seu belíssimo folclore, sua cultura e suas tradições. E capacitar jovens para um mundo novo, no qual as experiências humanas estarão no centro dos negócios e talvez não existam mais fábricas como as conhecemos hoje. E, definitivamente, isso não se faz colocando em segundo plano as artes e os esportes.

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