Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Valter Pieracciani Headshot

O futuro de antigamente

Publicado: Atualizado:
HIGH TECH
Paper Boat Creative via Getty Images
Imprimir

Recentemente, a propósito do Dia do Índio, fiquei imaginando como terá sido o choque de inovação que esse povo sofreu.

Vivendo tranquilos e integrados à natureza, de um dia para o outro os índios descobriram que não podiam mais viver sem espelhos, armas de fogo, ferramentas sofisticadas. Novos produtos e processos revolucionariam para sempre suas vidas. No Brasil, como descreve o antropólogo Darcy Ribeiro em sua obra-prima, "O Povo Brasileiro", o choque de culturas - ou, talvez fosse melhor dizer, de estágios de avanço tecnológico - pôs fim à paz que existia até então e redefiniu a realidade, deixando marcas na sociedade brasileira até os dias de hoje.

À primeira vista, pode parecer exagerado, mas acredito que o momento de transformação que vivemos hoje é tão intenso que permite um paralelo com o choque da chegada dos portugueses às terras indígenas. Em breve teremos que nos entender com uma realidade completamente diferente daquela na qual crescemos e nos desenvolvemos. Nessa nova fotografia do mundo, destacam-se os aplicativos e a tecnologia.

Você poderia dizer, com razão, que a história da humanidade é marcada por inovações, e que sempre houve mudanças. Verdade. Aristóteles, o filósofo, referindo-se às inovações de sua época, saiu-se com esta: "Agora que todos os bens para o conforto do homem foram inventados, só nos resta dedicarmo-nos ao espírito". Imaginem a sensação de inovação que reinava na Grécia Antiga para um pensador genial como Aristóteles sentir-se dessa maneira no século 4 antes de Cristo.

Se o homem inova continuamente, você prosseguirá, onde está a novidade? Eu responderei: na velocidade com que as inovações vêm ocorrendo. Tenho alguns exemplos.

As tecnologias financeiras e os aplicativos impactarão violentamente o setor bancário. Estima-se que em cinco anos o dinheiro em espécie desaparecerá.

As indústrias, tal como as conhecemos, serão invadidas pela Internet das Coisas, por impressoras 3D e por sistemas de produção ciberfísicos. Vão virar outra coisa: fábricas 4.0, nome que designa a quarta revolução industrial.

Na educação, a gamificação e a realidade ampliada substituirão os métodos de ensino que conhecemos. Em termos de conteúdo, é praticamente impossível prever o que teremos que ensinar às nossas crianças para que possam exercer profissões que nem sequer existem ainda.

Na saúde, microssensores inseridos em cápsulas que engoliremos entrarão em funcionamento dentro do nosso corpo, captando nossos sinais vitais e enviando-os para o celular do médico que nos acompanha.

A agricultura de precisão revolucionará nossas fazendas. E a capacidade de processar velozmente uma massa gigantesca de dados, à primeira vista dissociados, simplesmente riscará do nosso dicionário a palavra imprevisibilidade.

Não é futurologia. Tudo isso chegará depressa. Em poucos anos, esses e outros segmentos da nossa realidade serão reconfigurados. Teremos que mudar nossos modelos mentais.

Em um mundo em ebulição, será preciso desaprender muito do que aprendemos. No campo da gestão, por exemplo, valerá mais a adaptabilidade do que ter claras estratégias. Será mais importante a velocidade com que se incorpora a inovação, lidando com startups, do que ser hábil em reduzir custos. A capacidade de atuar em rede fará muito mais diferença do que saber gerenciar legiões de empregados. Gigantes terão que se reinventar partindo do zero e recriando-se sob uma lógica digital.

Nenhuma lei irá nos proteger da invasão da inovação, exatamente como ocorreu com os índios. As leis não conseguem acompanhar o ritmo das inovações e serão superadas pela dinâmica de mercado e do que é visto como valor pelos consumidores. Uber, VRBO e tantos outros são exemplos.

Em minha adolescência, na transição entre os anos sessenta e setenta, sentia intensamente um desejo de revolução. Achei que tinha vivido uma das maiores transformações da sociedade quando nós, jovens, assumimos o papel de protagonistas e nos rebelamos contra as regras sociais.

Não podia imaginar que 45 anos depois viveria outra tempestade social, bem diferente. Não mais coletiva, mas feita por indivíduos solitários e enamorados de suas criações tecnológicas. Se, no passado, clamava por mudanças, hoje, confesso, estou um pouco assustado com o que elas trazem para nossas vidas.

Mas não adianta temer: é preciso abraçar a inovação. Afinal, como cantou Renato Russo em sua música Índios:

"Quem me dera, ao menos uma vez,
Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente".

LEIA MAIS:

- De volta para o futuro: lições de empreendedores e de startups vencedoras

- Em 2016, você deveria ser mais grato e menos rancoroso

Também no HuffPost Brasil:
Close
6 negros transformadores do mundo dos negócios e da tecnologia
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual