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Mais dia, menos dia, todos seremos consultores

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Shutterstock / Thampapon
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É inevitável: mais dia, menos dia, seremos todos consultores. Não me refiro ao nome da profissão. Não. A denominação "consultor" já é usada comumente hoje em dia. Chega a ser curioso para alguém que, como eu, exerce a profissão há 30 anos. Quando, em rodas de apresentações, todos falam suas profissões e eu me apresento como consultor, vejo a interrogação que aparece no rosto das pessoas. Afinal, eu poderia ser um vendedor de cosméticos, que hoje chamam-se consultores. Ou talvez um corretor de imóveis - profissão importante, cujos profissionais hoje em dia chamam-se "consultores imobiliários", ou até mesmo cartomante, um consultor sentimental. O título é usado à exaustão e não é disto que estou falando.

Refiro-me à tendência de que o modelo de contratação praticado no negócio consultoria se expanda para todos os serviços, e mais: que reconfigure as antigas estruturas de empregos e empregados.

Olhe em volta. A destruição da economia no Brasil empurrou uma legião de pessoas competentes para fora do mercado de trabalho. Milhares de profissionais em transição de carreira, no dia seguinte ao desligamento, colocam o endereço de suas casas em um cartão de visitas sob o título "consultor". Isso não é novidade, mas nunca antes ocorreu de forma tão intensa.

Expandindo essa fotografia para o mundo do trabalho, consultoria e o que chamávamos de emprego se misturam. Antes do que imaginamos, todos seremos acionados para realizar alguma tarefa de nossa especialidade, provavelmente por meio de aplicativos - como, aliás, já se faz hoje, ainda em pequena escala - e poderemos (ou não) ser escolhidos para aquele trabalho. Em outras palavras, as empresas contratarão serviços profissionais de todo tipo por meio da internet e em um processo de leilão reverso. Explico: preciso de um layout para minha fábrica, do desenvolvimento de um software ou de consultoria para meu negócio? Entro na web, detalho meu problema ou minha necessidade em aplicativos gratuitos, criados especialmente para cada serviço, e profissionais do mundo todo, diretamente de suas casas, candidatam-se a serem "meus funcionários" enquanto durar o job.

Nos Estados Unidos, paramédicos já realizam pré-consultas a distância. Estúdios de Hollywood contratam equipes em diferentes continentes para executar etapas distintas da edição de filmes. Já não existe "longe demais"; o conceito de tempo e espaço foi reinventado.

Recentemente, um amigo, dono de serviços técnicos, reduziu drasticamente seu custo e seus prazos na execução de projetos ao contratar "tarefeiros" para a etapa inicial. Trata-se normalmente de tarefas simples, que, porém, consumem muitas horas-homem das equipes. Neste caso, por 30 dólares, ele conseguiu que o trabalho fosse feito por alguém do leste europeu que jamais conhecerá.

O resultado? Tinha a qualidade necessária para a continuidade dos trabalhos.

Você pode estar se perguntando: será a morte da excelência?

Creio que não e vou detalhar por quê.

A primeira pergunta a fazer é: o que determinará a escolha de uns e não de outros? Os eleitos serão aqueles que, pela equação qualidade/preço oferecida na execução de trabalhos anteriores, ficarem mais bem ranqueados nas lojas virtuais de serviços. Ou seja, ainda terá valor a experiência de cada um de nós. Uma espécie de meritocracia fria e forçada.

Além disso, nem todas as etapas dos processos poderão ser cumpridas por profissionais contratados a distância, sem conhecimento específico nem envolvimento com o cliente. Parte do valor percebido pelo cliente final em qualquer serviço diz respeito às emoções, e estas não viajam pela web. Sempre haverá espaço para aqueles cujos diferenciais sejam a criatividade, a sensibilidade e a experiência anterior.

Talvez isso represente o final do negócio da consultoria tal como ele é hoje. Pense nas horas-homem disponíveis de professores universitários - muitos já são consultores -, dos profissionais em transição de carreira e ainda das pessoas aposentadas - dirigentes de empresas de consultoria tradicionais, inclusive. Considere ainda o aumento na expectativa de vida dessa turma. Somando-se toda essa força de trabalho, a disponibilidade de serviços especializados no mundo é algumas vezes superior à demanda e ao tamanho do inteiro mercado de consultoria atual. Bastaria conectá-los.

Brigar com os fatos e os números pode ser a reação natural, mas não é a reação correta.

A reação correta, na minha opinião, é nos prepararmos para trabalhar em rede, escolhidos pelas áreas de especialidade e avaliados pela excelência dos trabalhos que realizamos.

Para isso, é preciso que saibamos em que somos superiores e invistamos na busca permanente do conhecimento de vanguarda.

Há pouco tempo, meu time de consultores e eu testemunhamos a contratação de uma startup por um grande cliente. A startup fora criada por um jovem de 21 anos que, desde os 16, investia em seu melhor talento: produzir tecnologia de realidade virtual. Seu nível de conhecimento específico era tão profundo que, quando isso ficou evidente, ele desbancou a concorrência.

Em vez de nos queixarmos ou acharmos que isso não chegará até nós, o melhor é cuidarmos de ser cada vez melhores no que fazemos.

Bom trabalho!

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