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Era digital, uber e educação

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EDUCATION TECHNOLOGY
Óscar López Rogado via Getty Images
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Nossa relação com os novos de recursos de tecnologia passa por um misto de encantamento, medo e incompreensão. Quando meu pai viu um tablete pela primeira vez, atônito, disse: "Como cabe tanta coisa aqui?". Tentei explicar que ali tinha pouca coisa e que na verdade o conteúdo estava "na nuvem". Piorou. Deixamos para lá e ele passou a usar o tablet, mesmo sem entender como funciona.

É difícil perceber a dimensão das transformações quando somos atores no processo. O fato é que os recursos de tecnologia estão mudando dramaticamente a forma como vivemos, em todas as suas dimensões, desde formas de comunicação, relacionamentos, trabalho, incluindo a noção de distância. Amigos que têm filhos morando no exterior afirmam que têm tanto contato com eles como agora, quanto tinham antes de viajarem, via recursos de tecnologia.

Você lembra quando o Uber começou suas atividades? Sim, a gritaria foi geral e assistimos a manifestações de taxistas contra o serviço, tanto no Brasil quanto em outros países. O que incomodou naquele momento inicial (e ainda incomoda) foi o seu sucesso. Encobrindo os reais motivos, os taxistas usaram como argumento as taxas exigidas para prestar um serviço que é regulado pelo setor público e, portanto, "seria seguro" à população.

Mas os efeitos positivos da inovação e da tecnologia são perceptíveis em diversos setores. O caso do Uber é inconteste. Forçosamente, o serviço de taxis melhorou muito desde que os aplicativos passaram a predominar. Quem não se deparou com taxistas mal educados, com o rádio alto, tocando a música dele, fazendo trajetos mais longos? A avaliação pelo usuário, nos aplicativos, mostrou-se arma importante contra o mau serviço. Mais que isso, passamos a ter interlocutor para os casos de reclamação. Já fiz isso e o serviço é muito rápido, simples e resolutivo. Em casos comprovadamente lesivos ao cliente, o taxista é descadastrado do aplicativo. Coisas que, sem a presença do agente privado, no caso a empresa do aplicativo, o setor público, como regulador, não faz e não fará.

Os recursos de tecnologia mostraram-se disruptivos, expondo as ineficiências e a inviabilidade de manutenção do antigo modelo. Primeiro, coloca sobre o próprio serviço regulado pelo estado uma camada de regulação privada (empresa do aplicativo) e social (avaliação do usuário e canal de voz a ele). Segundo, introduz concorrência no setor, pelas diversas empresas de aplicativo existentes no mercado e pelo Uber, que questiona a antiga ordem, escancara suas deficiências e atende a população com grande sucesso, a ponto de incomodar tanto os taxistas.

Esse é um exemplo emblemático da dificuldade que temos em não perceber a não neutralidade da intensiva adoção de recursos de tecnologia sobre a forma de organização da sociedade.

Independentemente da ação estatal, a adoção massiva pelos cidadãos afeta as relações sociais, incluindo a relação Estado-Sociedade, questionando crescentemente os modelos de prestação dos serviços públicos. Há muitos outros exemplos, inclusive os não exemplos - aquilo que já poderia ter sido implantado, mas que ainda não o foi, em detrimento do interesse público. Provavelmente em função da manutenção de status quo, incluídos aí os interesses corporativos.

Mas é questão de tempo. No caso do transporte urbano, o questionamento e o processo de ruptura já aflorou.

E na educação? Insistimos no modelo tradicional de escola, conteudista, com papéis estritamente definidos: o professor ensina e o aluno aprende; o professor fala e o aluno escuta. O aluno só faz o que for determinado pelo professor. Espera-se que todos aprendam tudo do mesmo, do mesmo jeito. O uso de smartphones e celular é proibido por lei.

Enquanto isso, no mundo real, a internet propicia conteúdos gratuitos, em formatos muito mais atraentes do que o professor pode oferecer na sala de aula. A aprendizagem pode se dar em qualquer local, ocorrer de diversas formas. Os alunos se juntam em grupos nas redes sociais para aprenderem, juntos, o que é de seu interesse. Nesses casos, protagonizam seu processo de aprendizagem. Não que isso seja suficiente como educação, mas explicita a contradição do modelo escolar.

Para além da inadequação ao perfil do jovem, nosso modelo de escola não é capaz de cumprir a missão de educar para a cidadania e para a inserção produtiva dos jovens no nosso mundo.

E nada acontece. Há décadas lutamos para melhorar a educação no nosso País. E continuamos numa enorme estagnação. O risco é que o mundo já se dá conta da nova realidade e nós continuamos apegados ao modelo do século XX, que nunca deu conta da inclusão, é excludente por natureza e já explicitou todos os sinais de esgotamento. Não será pela via reformadora que conseguiremos nos posicionar entre os países com processos e resultados educacionais satisfatórios.

Será que precisaremos de um efeito Uber para percebermos que o modelo atual não dá mais conta de prestar os serviços educacionais que a sociedade espera receber?

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