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A geografia erotizada do corpo e das sensações

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EROTISM ILLUSTRATION
Richard Ross via Getty Images
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"A primeira vez dele ou a nossa primeira vez?", ela ia perguntar. Para logo depois responder: "A nossa primeira vez primeiro". Começaria do começo, era melhor, como se a cronologia explicasse qualquer coisa. Mas e se, talvez, a primeira-realmente-primeira tenha sido muito tempo depois, quase seis meses depois, quando ela se permitiu dormir? Com a intimidade já superficialmente conhecida que só o sexo e a cama podem logo proporcionar. Ou ao menos deveriam. No caso deles, foi preciso um segundo encontro que por um mero acaso ocorreu, mas que podia não ter ocorrido. Se ela acreditasse em energias e misticismos como ele... Mas ela era devota da razão.

Ela voltou a lembrar, depois daquele segundo encontro, que a primeira vez havia sido em setembro do ano anterior. Eram os dois o verão. Eram ambos meia-noite, mais de meia-noite. Em Lisboa, não se é meia noite quem quer, já dizia o Lobo Antunes. Mas naquela primeira noite, ele estava lá, com a beleza loira, não-lusitana, fluorescente no meio da escuridão.

Um salvador temporário, como ele se autodenominaria mais tarde? Salvador estrangeiro de quem ela pudesse se esconder atrás da pseudo-proteção do seu inglês estrangeiro e artificial? Salvador de quê ou de quem? Dele próprio ou dela mesma? E temporário porque estrangeiro? Ou porque tudo o que começa já tem fim?

Não, não, ele era português. Não era Nuno ou João ou José ou Pedro. Mas era português. Ele tinha nome próprio e sobrenome próprio e perfil no facebook como todas as pessoas têm, como logo tratariam de ver. Mas, no começo, naquele começo cujo princípio nem ela conseguia se lembrar muito bem, o inglês foi a língua que fez dela a holandesa dele, provavelmente a primeira, foi a moeda de troca para se poder ser quem se quisesse ou pudesse ser.

Quando já não se pertence a lugar nenhum. Quando o medo de se ligar a alguém é saber da dor que é a de se desligar depois. Ela sabia que beijar em inglês, pensar em inglês, se perder em inglês era a segurança. A segurança do artificial, mas que também não leva a lugar nenhum.

Ele diria mais tarde que teria de ter mais cuidado com ela do que o oposto. Porque ele não engana ninguém, não tem tempo para nada, é honesto e fiel, friamente direto, como nenhum latino é capaz de ser. Mas ela não pensaria muito sobre isso naquele momento. Já era sábado de manhã, e ela já falava em português no taxi que os levou para a casa dela, enquanto ela tentava deixar claro que não haveria sexo, quando depois ficaria claro que era impossível que não houvesse sexo. Sexo em português.

Ele estava ali para isso? Para ensiná-la que em português também se fode? Foi ele capaz de faze-la sentir o corpo com a língua que era o trabalho, a pesquisa e o cansaço dela. Língua que ela, ainda hoje sem entender muito bem, deixaria, pela primeira vez, roçar o seu corpo e a sua vida. Iria roçar a sua língua na língua de Luís Camões, como disse o Caetano. Mas iria também roçar na língua dele. Literalmente só na dele. Sentir, estar, se cansar, gozar na língua em que falava. Fariam sexo em português. Sexo que não era amor, sexo que era foder.

Iriam encharcar os corpos, as peles, as vidas e os lençóis de suor. Gemeriam e rebolariam em português. Uma mistura de gerúndio e infinitivo, variantes como só duas línguas podem ser. Ela iria perder a virgindade com o português de Portugal, língua e homem. Uma primeira vez longa, em que ela teve medo, mas que ele prometia, a cada novo encontro, tentar amenizar. Horas de sexo, de quase ginástica, de beleza, de suor, de vida e de morte.

Freud tem sempre razão... A pulsão de morte, aquele desejo de se acabar no outro. E, no caso dele, uma penetração em que quem comia era ela. Não é, então, a mulher quem come o homem? Ele era um objeto de arte. Ele era a língua que ia da boca, pelo corpo, pelo suor, pela cona ou pela buceta, palavra que ele depois parecia preferir. Sem se dar conta do peso pesado que a combinação de letras adquire do outro lado do Atlântico, o lugar para onde ele nunca quer ir.

Mas da herança assexuada do Pessoa, do seu não erotismo quase misógino com a Ofélia, o Caetano e a Bahia eram mais forte na carioca mais lisboeta que ele próprio: era bom roçar a língua na língua de Luiz Camões. Roçar a língua em todo um corpo que fala, respira, pensa e vive em português. Aquele com sotaque, que "vem-se", aquele que "foda-se, caralho" era um corpo-geografia. Ela sabia bem. E Lisboa, tão infinita e feminina nas suas possibilidades, já havia tentado dizer a ela que era preciso se perder para se encontrar.

Ele então se tornou a perdição que a cidade colocou no seu caminho. Era o recado/pecado para ela/dela. Sim, de Lisboa, com amor: vai aprender a ser em português, falar a sua língua, escutar a língua do seu corpo, do corpo dele, na cidade e nos corpos que vivem e repiram em português. Vai usar a língua-mãe, língua-pátria, a língua que pode ser trabalhada e trabalhar. A língua em que talvez você se possa achar. Língua, parte do corpo e objeto erótico, língua-linguagem em que ela aprendeu a falar e agora podia pedir.

Ele era aquele capaz de chupá-la e de abraça-la depois. Porque um homem, ele disse, tem que oferecer carinhos e miminhos também. Fazendo ela acreditar que sexo e amor podem andar juntos. Mesmo que por um dia. Mostrando que, antes de qualquer coisa, era também um romântico, talvez o último deles deste lado de cá do Atlântico. Talvez porque fosse músico, localização personalizada da extrema sensibilidade.

Idealização dela? Ela que idealizava nele e na sua música a magia de atingir o sono ideal, dormir em paz, esquecendo temporariamente as insônias que ardem nela durante as noites que nunca se cansam de chegar. Por isso, foi tão bonito para ela descobrir que ele tinha pesadelos. Ela, assim, não era mais a única a ter distúrbios do sono. Estavam mais próximos na sensibilidade que afeta o afeto, no inconsciente, na sensibilidade que ameaça a dita capacidade absoluta da razão.

Ela pensava muitas vezes que toda a beleza dele vinha da ambigüidade, uma mistura de romantismo e violência. Como ela, mas com outros sintomas? Mas era irresistível a ambiguidade dele, mais bonita que o bonito que ele era. O desejo de ser frio e honesto atrás do europeu-latino que se apaixonou pela juventude de uma mulher de 19 anos.

Que também me ouviu dizer que na minha latinidade americana também superava com dificuldade um alemão, pela primeira vez um homem mais velho. Duassolidões tentando se curar, se salvar? Sentiriam menos as perdas ao sentirem mais, no sexo, pelo sexo? Talvez ela também estivesse ali por ele. Como ele disse estar por ela. E quanto sexo fazer para, quem sabe, talvez amar. Porque amor à primeira vista é para principiantes.

Com ele, disse a verdade, a verdade em língua portuguesa. Dizer em voz alta, para ele, mas também para ela, da dificuldade que é ter um orgasmo. O quanto é terrível estudar o erotismo das nações e das pessoas sem saber o que é isso no próprio corpo. Para ele, deixou-se ver-se molhada, exausta, sem máscaras, mas também apreensiva com medo de uma intimidade que apavora porque expõe.

Ela não era o que mostrava. E confessar trouxe mais beleza às tentativas que haviam de fazer. Era bonito ver o quanto ele se importava em dar prazer, como se prazer se reduzisse ao orgasmo, esquecendo-se do olhar, do toque, do quão bom era quando o pau dele entrava nela. E do quanto o português é também língua erótica. Língua falada e língua sentida, ao ouvido, o que ela só veio perceber um pouco depois. Só agora.

No desencontro que foi o encontro deles, usavam os corpos para esquecer outros dois. Havia a beleza das duas visões sobre o sexo. O orgasmo para ele é o vazio, o alívio da te(n)são, quase de uma dor, uma solidão final. Para ela, era o nunca atingir, a falta constante do êxtase, um acúmulo infinito que parece nunca se acalmar, gerador constante de ansiedade, de solidão. E um pouquinho de sofrimento que ele desafia ainda hoje, provocando-a a continuar, a deixar-se levar. Mas, se ela deixar, ele vai estar lá?

Quando voltaram a se encontrar, seis meses depois, por mero acaso, ele era o nórdico português que aguentaria a bebedeira dela depois de uma semana de dor. Aquele com quem ela ia ter paz para dormir, mais do que para foder, que a levaria para longe da vida dela, da casa dela, do país dela. Foi ele que trouxe de volta o sexo, as mordidas, as dores, os roxos, tudo aquilo que foi necessário para mostrar o quão viva ela estava.

Era novamente capaz de sentir. Mas o sono compartilhado era objeto de luxo incomparável na escala de desejo dela, momento de intimidade e confiança extrema e especial mesmo que temporária. Foi ao dormir ao lado dele que pôde voltar a sentir a vida. A vida das palavras e da vivência pequena de todos os dias. Sentia que havia descansado para a aguentar mais uma semana de vida. Porque cansara o corpo e descansara a mente. Quando foi para casa, lembrou-se, ironicamente, da música que fazia com que se lembrasse dele: "Sleep alone".

Pensou ainda que, mais do que ter alguém com quem fazer sexo, ele era a pessoa para quem deveria telefonar quando quisesse/precisasse de dormir. Diria: Olha, tenho insônias, tenho medos, sou insegura, embora não pareça. E pediria: posso ir dormir aí 4 horas só para voltar a trabalhar e pensar melhor depois? Ela acharia a experiência bonita, ficaria orgulhosa. Mas ele já sabia que ela via beleza em muitas coisas, e por isso já havia dito que o seu orgulho não valia muito.

Mas ela iria dar um pouquinho de trabalho e encher a vida dele de questões e de sexo, e voltaria leve, como quando soube a história da primeira vez dele. E poderia imaginar pela primeira vez novamente, de uma forma quase pedófila, uma criança de 12 ou 13 anos que descobre o sexo, o seu próprio sexo. Iria imaginar o colega dele a dizer: sabe que, se você esfregar a sua pila, ela fica dura e sai dali um líquido?

E o colega diria mais, diria que é bom. E ele, por sua vez, questionaria: a sério? E chegaria à casa, para praticar. Para ver como, de fato, a a pila consegue ficar dura. E ver que de fato, saía um líquido. E sentir que era bom para cacete. E que vicia. E que um dia, muito tempo depois de desejar muitas das meninas do liceu para sentir aquela sensação com outros corpos pela primeira vez, aquilo tudo ia parar na língua dela. Pela primeira vez nela. Porque estavam ambos perdendo a virgindade de alguma forma a cada novo encontro. Quantas virgindade ainda tinham para perder na vida?

Talvez ela fosse mais romântica do que ele. Talvez, talvez, ela ainda tinha dúvidas. E ia tentando roubar dele as histórias que ele afastava para evitar a ansiedade. Ela sabia que as melhores histórias de amor eram as tristes, aquelas que fazem o corpo e a mente sofrerem. E sabia que podia lidar com aquilo eroticamente, só eroticamente, no cruzamento do desejo com o afeto. E às vezes com dor e compaixão. Ele, por sua vez, quebraria portas, destruiria a casa, pagaria copos a uma gangue e resolveria o problema.

E assumiria para ela as travessuras como quem pede compreensão. Ela não só entendia, mas ficava feliz porque ele assumir a sua fragilidade após horas de fortaleza era a ambiguidade que ela mais admirava nele. A coragem e o medo de assumir-se humano, ambíguo e inconstante, este era o lado dele que se equivalia ao sono dela. A humanidade como objeto de luxo. Assim como quando confidenciou que tinha pesadelos, para depois sumir. Sem não antes telefonar, claro. Sempre fora um gentleman.

Era o luso da experiência de vida dela, depois de quase uma década em Lisboa. Foi o único que ela permitiu entrar dessa forma. Era um romântico que se proclamava frio e direto. Era um conservador, apoiando-se na moral burguesa, mas era músico e designer. Era também uma criança, em busca de afeto e amor.

Era uma máquina sexual, capaz de morder mais e gozar mais vezes, sem se controlar, se ela pedisse. E ela pediu. Era tudo junto e misturado, quase líquido, não solidificável. Um líquido, ainda amargo, novo, que era dela, que ela experenciou na própria língua. Porque aquilo que a experiência com ele ia deixando já estava nela, era escrito por ela. Não ia mais desaparecer como as manchas roxas deixadas pelo corpo.

Talvez ele fosse difícil de se aprender e de se sentir, como a língua portuguesa. Ela tinha medo de voltar a cometer erros. De português, língua dela, língua dele, deles, língua-viva, da vida dela. Ele era para ela um desafio quando se começava a tirar as primeiras capas de superficialidade. Muito longe da herança portuguesa fixa e acabada. Ele é como a nova gramática, que ela defende, mas não domina.

Ele é a língua que ela tem medo de explorar porque é nela que sente, é nela que luta, é nela que pensa, é nela que sofre e é nela que ama. É a sua vida-língua. É a língua com que come e é comida. É nela em que estão nus. Língua que é corpo; que é vida; que é portuguesa. Ela queria se render e se perder. Talvez ele também. Talvez já estejam os dois perdidos. Ela não sabe. Ainda comete erros de português. Mas continuam ainda a se experimentar nos corpos e nas palavras, vivendo e morrendo, renascendo e tentando. Porque sem tentar a vida, onde e como encontrá-la?

LEIA MAIS:

- O quarto do Tobi

- As mortes (e as vidas) que importam

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