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A violência que só acontecia na casa dos outros

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Em abril desse ano, recebi na minha casa em Amsterdam a visita da minha irmã e do namorado dela por três semanas. A minha irmã, como toda a nossa família, tem sido colocada à prova todos os dias da sua vida desde que o nosso pai foi diagnosticado com Alzheimer. Desde que ele ficou doente, a doença nos contagiou a todos. Repetimos tudo várias vezes, relembramos que já almoçamos ou que precisamos almoçar, procuramos os documentos de identificação do meu pai quase todos os dias, procuramos por ele muitas vezes nas ruas e lugares que ele frequenta. Sempre ativo, o meu pai pode ter perdido parte da sua memória, mas continua fazendo caminhadas, querendo falar com as pessoas, passeando com os cachorros, querendo nos acompanhar até nas atividades mais insuportavelmente burocráticas.

Sem emprego, cansada e lidando diretamente com as dificuldades da doença do meu pai, a minha irmã veio me ver. Tínhamos combinado que teríamos três semanas juntas para rir, conversar, passear, para que ela pudesse sair do sofrimento que o Alzheimer traz - mas que ninguém entende (ou quer ouvir falar) até que surja alguém doente na sua própria família. Desde que o meu pai foi diagnosticado com a doença, já ouvi desde que podia agora usar livremente o cartão de crédito dele até o comentário que a morte diária de uma pessoa com demência é poética. Devo desejar uma vida cheia de poesia para todas as pessoas do mundo? Aliás, que porra de poesia e literatura as pessoas andam lendo?

Mas o descanso que a minha irmã merecia não ocorreu. Na nossa relação, havia uma outra variante que era o namorado dela, aquele tipo de homem que no Brasil chamamos de heterossexuais apenas porque fazem sexo com mulher. A cultura masculina, como já se devia saber há mil anos, é toda homoafetiva, voltada para os direitos dos homens, a amizade e a solidariedade misógina entre eles, justificando o ódio que sentem quando uma mulher também pode "ser". Ser humana.

No fim das três semanas da viagem da minha irmã, fui agredida pelo namorado dela quando mandei ele ir embora da minha casa pela forma como ele se comportava aqui, cínico e debochado. Bom menino (sempre meninos) e trabalhador, ele me bateu e me mordeu quando eu disse para que ele saísse do meu apartamento. Depois disso, não só ainda tenho uma cicatriz da mordida dele, como aquele momento parece nunca mais sair de mim, da minha mente. A violência, assim como o Alzheimer, só aconteciam na casa dos outros. Todo o ódio que aquele ato me causou gerou uma outra consequência: eu passei a ser considerada maluca, doida, psicótica, escolha a melhor palavra. Até quando fui fazer o BO em Amsterdam, a polícia ria. Teoricamente por aqui, na Europa rica e civilizada, também temos que ser recatadas e do lar. Uma mulher não pode ter o direito de ter raiva.

Com o tempo, pagando por tratamento, tentando entrar numa rotina e voltando a escrever a minha tese de Doutorado, fui dando pequenos passos para me recuperar. Até o último sábado, 24 de setembro. No último sábado, como em todos os fins de semana, a minha irmã estava com o namorado agressor dela. E, como em todos os fins de semana, ela não atende o telefone quando está com ele. Naquele fim de semana, por algum motivo, voltei a me sentir mal com a situação, perguntando a mim: você também agiria da mesma forma? Você continuaria saindo com alguém que agrediu sobretudo fisicamente a sua irmã? E resolvi perguntar a ela como ela fazia para ter se recuperado tão rápido enquanto eu ainda penso nisso.

No fim do domingo, quando ela pôde me responder no telefone, ela foi honesta pela primeira vez sobre o caso: "Eu nunca vi nenhuma agressão. Eu apenas vi você descontrolada, chorando e gritando com todos. E me preocupo com a sua saúde mental." As fotos que mostram os ferimentos, o sangue, o BO, nada disso existiu. O que ela viu foi o meu descontrole. E, então, pela primeira vez, eu pude entender como ela justifica para si mesma o fato de não me ter acompanhado ao hospital, não ter ficado ao meu lado e ter quebrado, de uma certa forma, a nossa irmandade.

Vivendo na Holanda por quase três anos, já sei que o sofrimento psíquico aqui se aguenta com o mínimo de remédios possível. Se, no Brasil, há uma indústria do Rivotril e afins viciando milhões de pessoas todos os dias e sendo receitados por psiquiatras ou por médicos de qualquer outra especialidade, nos Países Baixos você vive o oposto: é preciso vencer sem remédios. Como se você pudesse enfrentar a sua depressão apenas com força de vontade. Aqui, todos ultrapassam a depressão se quiserem. Aqui e provavelmente no Brasil, as pessoas são deprimidas porque gostam de ser preguiçosas e gostam de cair de bunda e da cara, falhar e falhar da mesma forma que o Diego Hypólito antes do Rio2016.

Ao entender o pensamento sexista da minha irmã, ao entender como as maginalizadas da sociedade (sim, as mulheres são 50% da população do mundo, mas são sempre o Outro, as que não existem, ou as que existem para servir os patrões) reproduzem o discurso do centro patriarcal, todo o trabalho de quatro meses para estar melhor foi perdido. Toda a educação do mundo não foi capaz de tirar dela a visão androcêntrica do mundo. Eu voltei a chorar, eu voltei a sofrer, eu voltei a ter ansiedade e pânico. Na palavra do namorado dela, eu voltei a ser psicótica.

A incapacidade(?) das pessoas para entenderem o que é ser agredida e desqualificada é cruel e machuca. Sei que a dor psíquica é invisível, porque é na mente, mas é tão grande que, para que ela tenha fim, a gente aprende a criar uma dor no próprio corpo, dor física, uma dor que alivia porque tira o seu pensamento do que te traz muito mais sofrimento. Você aprende a se machucar, você aprende a bater com a cabeça na parede, você aprende que existem formas de acabar com essa vida. O problema é que o seu direito sobre o seu corpo, ainda que para destruí-lo, te coloca num nível acima na escala médica e patriarcal da loucura.

Como dizem nas redes sociais, é preciso falar sobre violência e agressão, é preciso falar sobre suicídio, é preciso falar de tudo que questiona a organização de uma sociedade dita civilizada que, para existir, simplesmente passa por cima de grande parte dos indivíduos. Principalmente daqueles que não são homens, que não são brancos, que não são europeus. É preciso falar de países como a Holanda que, sem as justificativas sociais do Brasil, não tem preparo algum para lidar com a tentativa de suicídio do outro, o outro que não é você, o outro que você não sabe pelo que vem passando, o Outro que é mulher, que é brasileiro, que é o subalterno do mundo.

O machismo existe, a violência de gênero existe, o suicídio existe, o sofrimento psíquico existe. A mulher, bem, a mulher normal também deveria existir, disse o psiquiatra ao me perguntar se eu me considerava normal por tentar me matar. Psiquiatras que nunca leram Foucault na vida, mas sabem o que é ser normal. Psiquiatras que não te deixam sair da sua solitária enquanto o seu namorado, teoricamente dono do seu corpo, não autorizar.

Um país que permite o uso de drogas (da onde elas vêm?), a prostituição (da onde essas mulheres vêm?), que homens mijem na rua e que mulheres tenham que pagar para ir ao banheiro, é o país em que dois homens (um médico e um ex-namorado) são donos do seu corpo também. O país dos sonhos para homens que querem foder por 20 euros mulheres da Ásia inteira e, depois, ficar chapado por mais cinco euros com ervas vindas da violência da América Latina. Um país da onde estou indo embora, já muito tarde, e que vende a ideia de liberdade da mesma forma que vendeu ao mundo inteiro essa máquina de fazer dinheiro que é o Big Brother. Como diria o Bial, estão de olho. Por isso, seja uma boa menina. A civilização agradece.

LEIA MAIS:

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