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MC Queer denuncia homofobia em 'Fiscal', mas erra feio ao reforçar estereótipos

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14 de novembro de 2010. O estudante de jornalismo Luís Alberto Betonio, então aos 23 anos, foi agredido por um grupo de homofóbicos que quebraram uma lâmpada fluorescente em seu rosto, em plena Avenida Paulista. Mas, o que levaria alguém a cometer um ato tão violento?

Em protesto ao caso de Luís, o funkeiro MC Queer apostou em uma resposta a essa pergunta já indicada por estudos científicos: a de que os 'fiscais de amor', ou seja, os homofóbicos de plantão, escondem certos desejos retraídos.

Lançado em 23 de maio, o hit de estreia Fiscal tornou-se o número 1 da lista de virais brasileiros do Spotify, com um recado nada afável aos agressores de Luís Alberto: "Todo mundo tá ligado, quer dar ré e vai de segunda, quebra a lâmpada na cara pra não enfiar na bunda" (assista o vídeo ao final desse artigo).

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Imagens de lâmpadas quebradas aparecem ao longo do clipe

Também viral no YouTube, com cerca de 80 mil visualizações em apenas dois dias após o lançamento, Fiscal é um protesto bem-vindo e uma alfinetada dolorosa nos gays enrustidos que usam aplicativos de "pegação" na igreja.

É um grito de coragem e inspiração para os que não se acovardam diante da violência sofrida diariamente. E, especialmente, um convite criativo à comunidade LGBT para continuar protestando fora do armário, sem deixar de lado o humor, a alegria e a festa. Afinal, o "fervo" também é luta.

Largamente utilizado no mundo LGBT para se referir a agito, festa e azaração, o termo "fervo" foi aproveitado pelo funkeiro, que faz um chamado para festejar com consciência política.

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MC Queer contrói um 'exército' para lutar contra a homofobia

Mas mesmo com um vídeo bem coreografado, alegre e engajado, o MC Queer repete alguns erros comuns na comunidade gay.

O maior deles é o de disseminar padrões de uma sociedade machista, baseados em comportamentos e identidades binárias entre macho e fêmea, como no verso: "Tem que ser macho pra caralho pra poder dar o próprio c*".

MC Queer também errou no tom do protesto ao fazer um ode a imagens fálicas, como aos 35 segundos do clipe, em que um dos protagonistas aparece beijando um bastão de beisebol.

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Um dos erros do clipe é a repetição de padrões machistas e falocêntricos

Por último, mas não menos importante, o funkeiro cometeu outro erro que não vai agradar em nada ao Ministério da Saúde e às secretarias estaduais do País que têm lutado para combater doenças sexualmente transmissíveis.

No final da música, ele canta "tô bem de saco cheio, então tu me respeite, ou cala tua boca ou enche logo ela de leite", em uma clara referência ao sexo oral sem proteção.

Esses erros são uma caricatura de uma comunidade gay brasileira ainda muito vinculada a padrões heterossexuais e cisgênero. Mostra o quanto essa comunidade ainda precisa se reinventar, em vez de reproduzir padrões fincados na revolução sexual dos anos 60 e 70.

Esses erros enfraquecem o protesto, mas não o invalidam. Afinal, os crimes por homofobia no Brasil respondem por 44% dos casos letais em todo o mundo, de acordo com um estudo divulgado em 2014 pela Agência Brasil e pelo Huffington Post Brasil. 'Fiscal' é, claramente, uma reação que vem da alma, a tanta violência injustificada.

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