Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Vinícius Andrade Headshot

Este refugiado deixou a guerra na Síria e agora é dono de um restaurante em São Paulo

Publicado: Atualizado:
SIRIO
Vinicius Andrade/Especial para o HuffPost Brasil
Imprimir

"É matar ou morrer. Se você não atirar, eles vão atirar em você."

Em novembro de 2012, Mohammad Hamwia, 31, optou por não efetuar nenhum disparo e deixou sua casa, na cidade de Homs, pela última vez. A residência, perdida em meio aos destroços de um conflito classificado como "pequena guerra mundial", já não abrigava os outros membros de sua família.

Os frequentes bombardeios, o barulho ensurdecedor de tiros e as ruas "cheias de sangue" haviam levado a mãe, Hana, os três irmãos e três de suas quatro irmãs a se dividir entre Dinamarca, Dubai e Estados Unidos, somando-se aos mais de 4,8 milhões de refugiados sírios que hoje vivem ao redor do mundo, de acordo com dados da Agência da ONU para Refugiados.

Único a selecionar o continente latino-americano como destino, Hamwia aproveitou um dia de trégua no confronto armado para seguir em direção ao Líbano, passando por Dubai e pelo Egito antes de desembarcar em São Paulo. Quando atravessou as portas automáticas do Aeroporto Internacional de Guarulhos, não conhecia sequer um dos aproximadamente 12 milhões de habitantes da capital paulista. Mesmo assim, a alternativa parecia ser razoável.

Na Síria, meses após o início da revolução, em meados de 2011, o refugiado presenciou a repressão do regime de Bashar Al-Assad converter em vítimas até felinos, que percorriam distraidamente as calçadas: "Atiradores do governo disparavam contra os gatos, dizendo que precisavam praticar".

"Se a polícia pegava alguma pessoa, torturava-a até que ela denunciasse outras. No final, a pessoa acabava falando o nome de um conhecido que também se opunha ao governo e morria. Assim, eles continuavam pegando outras pessoas. E mais outras. E por aí vai."

Bacharel em literatura inglesa e mestre por uma escola de negócios em seu país, Hamwia lembra de ter dedicado alguns de seus últimos momentos no oeste da Síria para garantir a entrega de leite e pão para crianças pequenas e bebês - atividade dificultada pelo cerco à região.

"Tínhamos fornecedores de alimentos, mas eles não conseguiam chegar até onde estávamos. Portanto, tínhamos que ir até essas zonas, consideradas perigosas, pegar a comida e voltar", lembra o sírio, repetindo os movimentos que fazia para se desviar de tiros como quem reproduz a cena do último filme assistido.

Sem segurança para reivindicar a deposição de Al-Assad em público, o sírio passou a perder amigos para o cárcere, o desaparecimento e a morte.

'O bom é que o ser humano tem habilidade de se adaptar'

adoomy sírio

Sentado no pequeno banco em frente ao seu recém-aberto restaurante, na zona oeste de São Paulo, Mohammad agora atende por Adam. Com o cabelo rareando, olhos azuis e roupas confortáveis, Hamwia faz questão de mostrar algumas fotos de sua cidade natal, em dois períodos diferentes.

Anteriores à guerra, as imagens em seu celular impressionam pelas elegantes construções. Os retratos de Homs no presente, entretanto, revelam uma cidade fantasma, que ainda assombra a vida da metade da população que optou por lá permanecer: "Metade da população saiu do país. O resto ainda está lá, morrendo aos poucos".

Às 20h12 de alguma segunda-feira do mês de maio, Adam serve uma porção de buffalo wild wings para "um gringo que estava passando por perto" e revela outra imagem na tela do telefone móvel, desta vez da cidade de Aleppo, em que duas crianças brincam dentro de uma banheira.

O objeto, no centro da fotografia, é a única coisa que não está destruída na cena. "Olha isso, cara. E elas ainda estão sorrindo", lamenta o sírio, tentando compreender a mudança pela qual o país atravessa.

Faz dois anos e meio desde a última vez que vi alguém da minha família. No ano passado, passei o Natal sozinho. Mas o bom é que o ser humano tem essa habilidade de se adaptar. Não posso ficar aqui chorando: preciso ser superforte.

A adaptação à mudança é tema recorrente da vida de Hamwia. Ao longo de sua passagem pelo Brasil, já passou por Blumenau, Caxias, Caraguatatuba, Curitiba, Florianópolis, Foz do Iguaçu, Guarujá, Ilha Bela, Ilha Grande, Joinville, Nova Petrópolis, Paraty, Porto Alegre, Ribeirão Preto, São Sebastião e Ubatuba. Para abrir o Adoomy, em novembro de 2015, elegeu o bairro da Vila Madalena. Por que São Paulo? "As chances de conseguir algum emprego são bem maiores por aqui."

Apreciador da noite paulistana, o estrangeiro já fez algumas boas amizades no País, que o auxiliam, inclusive, na hora de resolver algumas questões burocráticas. Sobre relacionamentos amorosos, a inquietação cotidiana atrapalha: "Terminei com minha namorada porque não tinha tempo para ela. Bem, não tinha tempo nem para mim!".

'Com ou sem crise, as pessoas precisam ir a restaurantes'

adoomy

Pontualmente, Adam Hamwia acorda às 8 horas e passa a manhã atarefado com a parte administrativa do negócio, antes de finalmente começar a cozinhar: "Sou também o diretor administrativo, o diretor financeiro, o diretor de marketing e o assessor de imprensa do restaurante".

No momento, há apenas um outro funcionário, brasileiro, que o assiste, principalmente, durante os horários de pico. "Sofro com os 'turnovers'. Muitos começam a trabalhar e depois resolvem sair".

Apesar disso, o cozinheiro faz um esforço extra para não deixar que as portas da casa se fechem. "Tenho que deixá-las abertas devido à imagem do restaurante. As pessoas vão passar, olhar e pensar: 'Acho que vou experimentar mais tarde'. Isso vai entrar no subconsciente delas".

O sírio também sabe exatamente a quantidade de pessoas que vão passar em frente ao seu restaurante. Durante o período de almoço, são cerca de 140, somente a pé.

Fazer que as pessoas provem e conheçam a minha comida é mais importante do que obter o retorno financeiro imediato.

O hábito de calcular o número de potenciais clientes, garante, "é um ABC dos negócios" - lição aprendida desde quando trabalhava em uma empresa de consultoria no Oriente Médio.

No novo país, antes de se envolver no meio gastronômico, trabalhou por alguns meses como professor de inglês, em uma escola de idiomas.

Mesmo com a nova língua ainda dando trabalho, não abre mão de arriscar algumas frases em português com a clientela, sempre em tom simpático. "Quando cheguei, não sabia falar nem 'obrigado'. Já estou melhorando", comemora.

Em meio à recessão enfrentada pelo País, Hamwia lembra que chegou "com o dólar a R$ 2,15". Após atingir R$ 4,55 no ano passado, a moeda agora está na casa dos R$ 3,50. Além da dificuldade na compra de insumos, devido aos custos mais elevados, o objetivo de não alterar os preços do estabelecimento se torna ainda mais difícil com os obstáculos enfrentados pela economia brasileira.

O empreendedor, contudo, acredita que é possível traçar uma estratégia eficiente: "Com ou sem crise, as pessoas ainda precisam ir a restaurantes". Atualmente, "fazer que as pessoas provem e conheçam a minha comida" é mais importante do que "obter o retorno financeiro imediato". Até quando será possível manter o plano? "É claro que não consigo sobreviver por muito tempo com essa crise."

'Às vezes, esqueço de dormir'

adoomy restaurante

Embora o gosto por cozinhar tenha despontado logo na infância, a principal motivação para a abertura do Adoomy veio de uma experiência na Arábia Saudita, onde Hamwia confessa ter experimentado "o melhor frango frito do mundo" no restaurante Al Baik.

Na internet, as avaliações da rede de fast food costumam trazer inúmeros elogios ao prato, que compensaria as longas filas do local. Em terras brasileiras, o estrangeiro garante nunca ter provado uma versão satisfatória do prato. "Em Curitiba, por exemplo, visitei seis lugares diferentes, todos especializados em frango frito. Só que nenhum era bom."

No número 150 da rua Rodésia, desenvolveu "a textura, os temperos e o sabor" de seu tradicional prato, que avalia como "muito bom".

O Adoomy, inicialmente localizado na parte superior da casa ao lado, mudou de lugar, para o número 140, devido à extrema dificuldade na busca de novos clientes, que antes precisavam passar por um considerável lance de escadas para chegar ao local, além da inevitável concorrência de outro restaurante vizinho, no piso térreo.

Um dia - e não sei quando - eu me tornarei cidadão brasileiro. E quero que meu país seja o número um.

O Adoomy ganha vida em uma pequena garagem, contando com uma cozinha minúscula, geladeira e caixa. Em algum dos cinco bancos de madeira, todos de mais ou menos um metro de altura, os consumidores estão acostumados a ouvir histórias do dono do local.

Pela falta de espaço, porém, alguns pratos precisam ser preparados na parte superior da casa ao lado, endereço anterior do restaurante, onde Hamwia atualmente mora. Para contribuir com a renda extra, alguns cômodos são alugados para estrangeiros - testemunhas regulares de seus experimentos gastronômicos.

Inquieto, o refugiado sempre está atrás da próxima tarefa. Enquanto um jovem de vinte e poucos anos mexe no celular, à espera de seu pedido, e o som ambiente é tomado pelo pop canadense que toca no rádio, Hamwia saca um maço de Malboro Gold. Ao longo da entrevista, fuma três cigarros e faz algumas pausas para conversar em árabe com um amigo sírio que está na cidade, através de um rádio comunicador preto.

Close
Refugiado sírio abre restaurante em SP
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual


"Às vezes, esqueço de dormir", diz. "Não é fácil ter seu próprio negócio e empreender. Mas, às vezes, sinto que as pessoas não são corajosas o suficiente e só querem empregos fáceis".

No início, ainda sofrendo com a barreira linguística, Adam tinha dificuldade com o baixo número de pessoas que falam a língua inglesa no país: "Muitos tiravam vantagem de mim por causa disso. Paguei o salário para muitas pessoas que nunca mais retornaram".

Em relação ao Brasil, Adam é otimista e se diz esperançoso. "Um dia - e não sei quando - eu me tornarei cidadão brasileiro. E quero que meu país seja o número um. O Brasil tem recursos naturais, água, lugares maravilhosos, por que ainda não é o número um?", reflete.

O maior sonho? "Abrir outras franquias do Adoomy no Brasil e, depois, ao redor do mundo". Sobre a Síria, admite que não sente tanta saudade: "Minha cidade é muito mais bonita do que o Itaim Bibi. Mas tudo o que vi quando era pequeno agora está destruído", lamenta.

Além da família, com quem se comunica por meio de grupos no WhatsApp, os antigos amigos fazem falta, mas Hamwia não sabe dizer se eles ainda estão vivos.

A respeito dos remanescentes na região, o dono do Adoomy diz que seu país chegou a um ponto em que a chance de permanecer vivo é de 50/50.

"Há pessoas que se acostumam a essa situação e aguardam pela morte. Agora, como elas vão morrer? Quando elas vão morrer? Ninguém sabe."

LEIA MAIS:

- Governo Temer fecha a porta para a chegada de refugiados sírios

- 'Não pode achar que, por ser refugiado, você para', diz congolesa que vai às Olimpíadas

Também no HuffPost Brasil:

Close
O drama dos refugiados
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual