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Ser gay não faz de um homem menos misógino

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Medioimages/Photodisc via Getty Images
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Recentemente, o vlogueiro Felipe Mastrandea publicou um vídeo em seu canal no YouTube sobre um suposto preconceito contra gays brancos.

O título por si só já deixou muita gente sem entender, mas as coisas ficaram ainda mais confusas quando ele resolveu comentar no vídeo uma antiga polêmica na qual esteve envolvido.

O episódio aconteceu em agosto do ano passado, quando Felipe convidou alguns amigos -- todos youtubers gays -- para serem filmados enquanto assistiam a um vídeo pornô de lésbicas. As reações dos convidados foram as piores, mais lesbofóbicas e misóginas possíveis, com direito a expressões de nojo, insinuações de que sexo entre mulheres não pode ser considerado sexo (porque falta "alguma coisa"), além de comentários sobre o "cheiro de bacalhau" de vaginas.

O vídeo logo viralizou e Mastrandea se tornou uma referência no meio gay -- só que não pelos motivos que ele gostaria. Foi acusado de misógino, lesbofóbico, entre outras verdades.

Quase um ano depois, no novo vídeo, em vez de pedir desculpas ele preferiu se justificar, admitindo que, sim, errou, mas que foi "injustamente" acusado de ser misógino, uma vez que a pessoa que ele mais ama no mundo é a própria mãe. A repercussão negativa se repetiu e o vídeo foi deletado do canal alguns dias após a publicação.

Felipe errou feio, errou rude.

Misoginia independe do amor que o homem cisgênero (ou seja, aquele que se identifica com o gênero designado no nascimento) sente por uma mulher, seja ela sua mãe, irmã, avó, amiga ou esposa.

Na concepção da jornalista Marina Braga, que integra a Frente Feminista Casperiana Lisandra, o desejo, o amor e até mesmo a aversão a mulheres são sentimentos construídos socialmente, o que explica por que a misoginia não pode ser definida somente pelos dicionários:

"Homens crescem sendo ensinados a terem aversão às mulheres e ao que é ser mulher, caso contrário seriam considerados gays -- o que, além de misógino, também é homofóbico, já que o gay é visto como quem tem 'jeito de mulher' e isso, para a sociedade, é errado"

A filósofa e teórica feminista norte-americana Marilyn Frye já escreveu sobre isso em 1983:

"Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens."

Mas se serve de consolo para Mastrandea, ele não é o único a não conhecer o real significado da misoginia. Há quem também acredite que o simples fato de um homem ser gay o impede de ser machista e misógino. Doce ilusão.

É bem verdade que pertencer a uma minoria social muitas vezes ajuda a treinar o olhar de alguém para a opressão que outras pessoas sofrem. Fortalece a empatia, dizem. Isso, no entanto, não quer dizer que uma vítima de discriminação não possa, ela mesma, ser o agente opressor de algo que ela não sofre. É o caso de homens negros héteros, mulheres brancas e, tcharam!: homens gays.

Ninguém ainda conseguiu descobrir exatamente quando surgiu o sistema patriarcal, então me sinto livre para concluir o seguinte: homens oprimem mulheres desde que se tem notícia. Ponto.

Ser homem cis, até hoje, é ser detentor de uma série de privilégios sociais que mulheres não têm direito. Privilégio social não é algo que se escolhe, é algo imposto, o que na militância chamam de socialização.

O blog Não me Kahlo tem um texto sensacional e bastante didático sobre esses tais privilégios.

Exemplos deles: facilidade para se colocar em espaços públicos e ser ouvido, ter a fala legitimada sem questionamentos, ganhar um salário maior simplesmente por ser homem e por aí vai.

"Então a culpa não é minha de ser machista e misógino". De certa maneira, não está errado. Se uma pessoa nasceu com um pênis, ela vai receber socialização masculina e não há muito como fugir disso.

Com essa socialização, vêm inúmeros privilégios, embora também seja verdade que a homossexualidade rompe com alguns deles. Isso porque assumir-se gay é considerado uma verdadeira afronta à masculinidade.

"Sair do armário" implica, muitas vezes, em ser expulso do "clube do bolinha", de modo que o homem gay, assim, "deixa" de ser homem aos olhos da sociedade homofóbica.

Só que isso não pode ser usado como moeda de troca para atitudes e discursos machistas e misóginos.

"Mas eu não consigo enxergar como eu posso estar sendo misógino". Para isso, é preciso olhar para si e problematizar seus próprios atos. Trata-se de um exercício contínuo, já que a desconstrução é eterna. Falar que sente nojo de vagina é um exemplo clássico de misoginia. Qual o sentido desse nojo? De onde ele vem?

A jornalista Laís Montagnana escreveu um ótimo texto sobre a demonização da vagina para o site Casal Sem Vergonha, que explica muito bem o que uma coisa tem a ver com a outra. Outro exemplo: sabe aquela drag que se diz "fishy"?

Pois então, para quem não sabe este é um termo em inglês bastante usado descrever as drags queens mais femininas, em uma óbvia alusão à ideia (misógina) de que vaginas têm cheiro de bacalhau. "Mas se eu não sentir atração sexual por mulheres eu vou estar sendo misógino?".

Não, você estará sendo gay. São coisas diferentes.

Mas ser misógino vai muito além de demonizar vaginas. Tocar o corpo de uma mulher sem a autorização dela, usar expressões como "vadia", "puta", "piranha" e suas versões em inglês para se referir a quem quer que seja, e praticar o famoso "slut-shaming" (clique aqui para saber mais sobre isso) são apenas alguns exemplos de misoginia - alguns deles muito comuns no meio gay.

"Mas a misoginia também atinge os homens gays, não?". Não exatamente. A misoginia é uma opressão estrutural que é praticada por homens cis contra mulheres. Homens e mulheres transexuais também são diretamente afetados por ela. O que acontece é que a misoginia "ricocheteia" e acaba afetando homens cis gays também.

Não é difícil observar que, no meio gay, o menino mais afeminado frequentemente é chamado de "passiva" -- assim mesmo, no feminino. Da mesma forma, o homem gay que é passivo no sexo -- e que não necessariamente tem trejeitos femininos -- é muitas vezes tachado como "rodada" ou "puta", enquanto que o ativo é visto como "comedor".

Aliás, não é justamente o perfil do homem gay branco, musculoso e heteronormativo que é endeusado? Por que será? Qualquer sinal da misoginia aqui não é mera coincidência.

Quando fundamentalistas evangélicos dizem que não estamos cumprindo nosso "papel de homem" por sermos gays, batemos o pé e reivindicamos o direito de sermos homens mesmo tendo uma orientação sexual que foge à norma. Mas quando mulheres nos chamam de misóginos justamente por sermos homens, nos defendemos alegando que somos gays, como se isso fosse um impedimento.

É preciso sempre rever nossos privilégios e dar mais ouvidos às mulheres. E não é para ganhar biscoito, não, é para praticar a empatia que tanto cobramos dos outros.

LEIA MAIS:

- Estupro: a história que não queremos contar

- Precisamos falar da cultura do estupro

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