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O que mudou depois da revolta de Stonewall?

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STONEWALL
Shannon Stapleton / Reuters
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Imagine viver em uma sociedade na qual a homossexualidade é considerada uma doença mental e, ao mesmo tempo, um desvio de comportamento. Era assim os Estados Unidos da década de 60.

Naquela época, gays eram frequentemente internados em clínicas, submetidos a lobotomias, castrações químicas e outras formas de "tratamento". Na televisão, eram exibidas propagandas que alertavam para os "perigos" de se conviver com homossexuais, comparado-os sempre a pedófilos.

Por isso, muitos eram expulsos de casa e não conseguiam arrumar emprego somente por serem gays. Para sobreviver, acabavam tendo que se prostituir.

Vivendo nas ruas, eram espancados, estuprados e mortos diariamente. A frequência era tamanha que apanhar ou receber a notícia da morte de um amigo não eram mais novidades. A única fonte de diversão para essas pessoas eram os poucos bares gays que existiam, e ainda assim olhe lá.

Por causa de uma espécie de "lei seca" exclusiva para homossexuais, os bares eram proibidos de vender bebidas alcoólicas para os clientes, de modo que o comércio dos drinks era controlado pela máfia local, que subornava policiais e, sem precisar se preocupar com fiscalização, podia cobrar preços muito mais altos e descuidar da higiene. Não havia água corrente e as bebidas eram servidas em copos sujos e contaminados, para se ter uma ideia.

Só que, apesar da vista grossa, a polícia não deixava de irromper os bares durante a noite e levar um número considerável de frequentadores para a delegacia. Se alguém estivesse usando mais de três peças de roupa que não condiziam com seu sexo, então a prisão era certa.

Quando voltavam da delegacia -- se voltavam --, tinham seus nomes publicados nos maiores jornais do país como forma de punição.

Gay Power!

Todo esse cenário de perseguição incessante à comunidade LGBT levou ao episódio que ficou conhecido como as "revoltas de Stonewall".

O motim aconteceu na madrugada de 28 de junho de 1969, quando frequentadores do Stonewall Inn, famoso point gay da Rua Christopher, em Nova York, se rebelaram contra a ação da polícia. A reação inesperada dos LGBTs, cansados de tanta violência, deu início a uma série de protestos que culminou no surgimento do chamado Gay Power e na primeira marcha do orgulho LGBT, exatamente um ano depois.

A revolta de Stonewall provocou intensas mudanças na legislação norte-americana e inspirou movimentos similares ao redor do mundo. A partir do momento em que as pessoas, em sua maioria homens gays, se rebelaram contra a repressão policial e disseram "chega" para a violência, a casa de cartas da LGBTfobia institucional começou a desabar nos Estados Unidos.

Muito por causa disso, a realidade de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais de 47 anos atrás parece muito distante da realidade atual, e de certa forma é mesmo.

Se hoje a homossexualidade não é mais considerada uma doença, muito se deve aos jovens que arremeçaram tijolos e garrafas contra a polícia em frente ao Stonewall naquela noite. No entanto, as semelhanças e os resquícios da perseguição podem ser sentidos e vistos de perto mesmo nos dias atuais.

Afinal, a liberdade de ser quem é, o direito de curtir uma festa a noite inteira sem interrupções, poder ingressar no mercado de trabalho, andar na rua livremente sem medo e ter acesso aos serviços públicos de saúde já são direitos alcançados. Só que não por todos.

Hoje é mais fácil ser gay?

Segundo dados recentes da ILGA, uma associação internacional que monitora a legislação de centenas de países no que diz respeito aos direitos da comunidade LGBT, a homossexualidade é crime em pelo menos 73 países. Destes, 13 ainda preveem a pena de morte como forma de punição.

E mesmo onde os avanços são mais evidentes, como é o caso dos Estados Unidos, o amor nem sempre vence. Em junho deste ano, menos de um ano depois da Suprema Corte norte-americana ter aprovado o casamento gay em todo o país e a hashtag #LoveWins tomar conta das redes sociais, um homem invadiu uma boate em Orlando, na Flórida, assassinou 49 pessoas e feriu outras 53. Foi o pior atentado por lá desde o 11 de setembro.

Hoje, apesar de LGBTs estarem ocupando vagas no mercado de trabalho formal, este não é um direito reservado igualmente a todos. Segundo dados oficiais, 90% da população brasileira de travestis e transexuais ainda está na prostituição. Da mesma forma, é raro encontrar homens gays e mulheres lésbicas ocupando cargos de importância nas empresas, principalmente se eles forem "pintosas" demais e elas, "machonas" demais.

Até em países ditos "desenvolvidos", onde a discriminação é menos acentuada, a lei que ontem proibia ser gay hoje é outra: até pode ser gay, mas não tanto.

Só que para alguns o tempo não passou e a lei permanece a mesma, pelo menos na prática. Afinal, andar na rua e amar sem temer não é para todo mundo.

Isso porque, se a aceitação e a tolerância fazem parte cada vez mais do dia a dia de LGBTs de classe média e da elite, o mesmo não pode ser dito sobre os que vivem na periferia das grandes cidades, no interior ou em áreas rurais.

Já o acesso à saúde, apesar de ser um problema universal, pois afeta toda a população que depende do serviço, é ainda mais difícil para pessoas em situação de vulnerabilidade social, como é o caso das LGBT, que necessitam de políticas públicas específicas e de atenção especial por parte tanto dos profissionais da saúde quanto de agentes sociais.

E isso fica ainda mais evidente quando se leva em conta que aproximadamente 40% dos jovens que vivem nas ruas dos Estados Unidos hoje são gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, de acordo com estatísticas da True Colors Fund -- organização pró-LGBT da cantora Cyndi Lauper.

Como era antes, como ainda é hoje

Nos anos 60, muitos homens gays de Nova York buscavam refúgio não somente nos bares do Greenwich Village, bairro onde fica o Stonewall Inn, mas também nos chamados trucks, localizados no lado oeste do tradicional bairro gay da cidade.

Estes nada mais eram do que caminhões de carga que eram estacionados e usados à noite como point para que gays pudessem fazer sexo. Sua função era exatamente essa, já que não havia nenhum lugar propício -- e seguro -- para que eles pudessem transar.

Depois de 1969, os trucks não deixaram de existir, mas passaram a dividir terreno com as saunas. E mesmo hoje, após tantas mudanças e avanços, elas não perdem a popularidade. E há uma razão para isso.

De lá para cá, certamente muita coisa mudou para a comunidade LGBT, mas o mundo não passou a ser exatamente um lugar onde gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais podem vivenciar livremente a descoberta da própria sexualidade da mesma forma que pessoas cis e heterossexuais o fazem.

Resiste, ainda hoje, a ideia de que não somente o sexo, mas toda e qualquer manifestação de afeto e carinho entre pessoas do mesmo gênero deve permanecer entre quatro paredes, longe dos olhares dos "cidadãos de bem".

O sexo clandestino, por isso, ainda é uma saída encontrada por muitos para satisfazerem seus desejos sexuais. Assim, as saunas, os banheiros públicos e até mesmo ruas e becos mal iluminados ainda são opções usadas por homens gays não só para fazerem sexo -- a exemplo dos trucks de décadas atrás --, como também para conhecer outros homens.

E se hoje a luta de muitos é pela legitimidade da adoção, pelo reconhecimento do casamento e pelo cumprimento dos direitos LGBT, outros permanecem na luta pela sobrevivência.

É o caso de travestis e transexuais, que têm expectativa média de 35 anos de idade -- menor que a de Serra Leoa, país africano que ocupa o último lugar no ranking da ONU de esperança de vida ao nascer --, de gays e lésbicas negros que vivem na periferia e outros bairros pobres, e de todas as pessoas que vivem em uma das 73 nações onde ser LGBT é crime.

A revolta de Stonewall ainda colhe os frutos de inúmeras conquistas acumuladas ao longo destes 47 anos, e o dia 28 de junho de 1969 é certamente um marco para o movimento, mas engana-se quem pensa que a LGBTfobia acabou. Ela ainda tem um longo caminho a percorrer até que cesse de vez.

LEIA MAIS:

- O mundo não é um lugar seguro para LGBTs

- Ser gay não faz de um homem menos misógino

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