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Uma pessoa LGBT morre a cada 28 horas no Brasil

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GAY REVOLUTION
Oleksiy Maksymenko via Getty Images
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No domingo, 3 de julho, manifestantes foram à Avenida Paulista, em São Paulo, demonstrar seu apoio ao deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que é réu no STF por incitação ao estupro e alvo do Conselho de Ética da Câmara por apologia da ditadura militar. O parlamentar, conhecido por suas declarações homofóbicas, racistas, misóginas e xenófobas, é pré-candidato à presidência em 2018 e tem mais de 3 milhões de curtidas em sua página no Facebook.

No mesmo dia, a imprensa divulgou a morte de Diego Vieira Machado, aluno de letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Aos 29 anos, Diego foi encontrado já sem vida dentro do Campus do Fundão, na zona norte da cidade, seminu e com sinais de espancamento. Ele era gay, negro, pobre, nortista e, segundo amigos, vinha sofrendo diversas ameaças. Até a publicação deste artigo, quatro pessoas são suspeitas de envolvimento em seu assassinato.

Um dia antes, a vítima foi André Felipe Colares, de 24 anos, encontrado morto após uma festa de formandos da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Minas Gerais. Ele apresentava um corte no pescoço e sinais de tortura, com os dois olhos perfurados com palitos, além de estar com a calça e a cueca abaixadas. Segundo a família, André era homossexual.

Em junho, pelo menos outros três crimes motivados por LGBTfobia foram destaques na imprensa brasileira. No Rio de Janeiro, o corpo de Wellington Mendonça, também de 24 anos, foi achado em Olaria, bairro da zona norte da capital carioca, sem camisa, com o rosto deformado e bastante ensanguentado.

Em Manaus (AM), uma travesti, identificada como Gabriel Vieira Lima, de 21 anos, foi assassinada com uma facada no pescoço por dois homens em uma motocicleta. Apesar da polícia ter registrado o crime como latrocínio (roubo seguido de morte), nenhum pertence da vítima foi levado.

Dias antes, na Bahia, dois professores gays de uma escola estadual de Santaluz, cidade a 260 km de Salvador, foram encontrados dentro do porta-malas de um carro às margens da rodovia BA-120. Tanto o veículo quanto os corpos estavam carbonizados.

Detalhe: todos esses crimes aconteceram em menos de um mês, e estes foram somente os casos divulgados pela imprensa.

Epidemia de ódio

De acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), uma das poucas organizações que divulgam dados sobre crimes motivados por LGBTfobia no Brasil, até agora 160 gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis foram assassinados em 2016 por aqui. No ano passado, foram 319, e nos últimos quatro anos, 1.600.

Esses números, porém, não refletem a realidade da violência contra LGBTs brasileiros. Como não existe uma lei federal que obrigue as delegacias a registrarem crimes motivados por LGBTfobia, é muito difícil dizer quantas pessoas são realmente vítimas deste tipo de violência. Mas, segundo as estimativas atuais, pelo menos um LGBT é assassinado a cada 28 horas no Brasil.

Este cenário alarmante fez o Brasil ser destaque também na imprensa internacional, ainda perplexa com o brutal atentado em Orlando, na Flórida, que matou 49 e feriu outras 53 pessoas numa boate gay. Em reportagem do The New York Times, publicada no começo de julho, nosso país aparece como o epicentro de uma "epidemia de ódio contra gays", sendo o que mais mata LGBTs no mundo, em números absolutos.

A ascensão de discursos conversadores e LGBTfóbicos de figuras como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Levy Fidelix, Magno Malta, Silas Malafaia, Ana Paula Valadão e cia., além de digna de nossa #SantaIndignação, é um dos principais fatores para a onda de violência contra LGBTs, que faz vítimas há muito tempo e está longe de acabar.

Um de nós

O assassinato de Diego é o mais recente caso de homofobia divulgado pela mídia, mas, a julgar pelas estatísticas, provavelmente não é o caso de homofobia mais recente. Se a cada 28 horas uma pessoa LGBT é morta, pelo menos outras três morreram desde que o corpo de Diego foi achado às margens da Baía de Guanabara no domingo, dia 2.

Diego nasceu em Belém (PA) e mudou-se para o Rio de Janeiro em 2011 quando entrou na faculdade pelo programa de cotas. Aluno de letras, ele também frequentava a faculdade de arquitetura e de Belas Artes e pensava em trocar para publicidade. Por causa de sua renda e de não residir no Rio, recebia uma bolsa de 500 reais e tinha direito de morar no alojamento universitário.

Em abril deste ano, Diego denunciou em seu perfil do Facebook um caso de agressão e estupro a um estudante por parte dos seguranças de uma obra dentro do campus. Para alguns familiares, inclusive, essa pode ter sido outra motivação para o crime, embora o caso ainda esteja sob investigação.

Segundo amigos, Diego era assim: não levava desaforo para casa e insultos e agressões homofóbicas ou racistas não passavam batidos.

Sua resistência o tornou alvo. Em um e-mail veiculado em maio por meio da rede interna da UFRJ, um grupo autodenominado Juventude Revolucionária Liberal Brasileira fez uma série de ameaças a estudantes bolsistas. "Tomem cuidado [...] Vamos começar por um certo aluno que se diz minoria e oprimido por ser homossexual, que gosta de fumar maconha e outras cositas a mais", dizia.

Ainda não há evidências de que o trecho se referia a Diego, mas certamente reflete o clima de intolerância e discriminação contra minorias sociais da universidade. Além disso, a situação dos alojamentos vem sendo denunciada pelos próprios alunos há algum tempo.

Segundo eles, os principais problemas são a superlotação, a limpeza do local (onde vivem pelo menos 250 estudantes) e a constante sensação de insegurança. Reflexos do total descaso com quem depende do alojamento para estudar na universidade.

Em repúdio ao assassinato de Diego, o Diretório Central dos Estudantes Mário Prata, da UFRJ, divulgou uma nota na qual denuncia os problemas de segurança dentro do campus e no alojamento estudantil.

"É um momento muito duro para todos e todas estudantes da UFRJ. Um de nós se foi. Não podemos deixar de denunciar a falta de segurança, a situação de vulnerabilidade e violações de direitos que os moradores do alojamento estão submetidos diariamente", diz o texto. "Precisamos de mais segurança! Segurança para podermos circular no campus sem o medo de ter não apenas nossos pertences furtados, mas nossos corpos e vidas violentadas".

A manifestação do DCE Mário Prata reflete a sensação de todas as pessoas LGBT que convivem com o medo e a sensação de que podem sair de casa e nunca mais voltar, não só no Rio de Janeiro como em qualquer lugar do Brasil. Ainda assim, há quem diga que o problema é "geral", que a violência afeta a todas as pessoas e não somente quem é gay, lésbica, bissexual, travesti ou transexual.

Não deixa de ser verdade. Todos os dias alguém é vítima de homicídio, latrocínio e assalto, mas um tipo de violência que heterossexuais desconhecem é aquele motivado pelo ódio. Afinal, ninguém é morto, espancado ou torturado por ser heterossexual. Por outro lado, mulheres morrem simplesmente pelo fato de serem mulheres (femicídio), negros morrem simplesmente por serem negros (racismo) e LGBTs morrem somente por serem LGBTs.

Diego morreu porque era gay, negro, pobre e nortista. Ele não foi o primeiro e infelizmente não será o último.

Enquanto as pessoas continuarem enaltecendo os discursos de pastores fundamentalistas e de políticos que se acham no direito de entuchar suas crenças e dogmas goela abaixo da população, esse quadro dificilmente mudará.

A LGBTfobia é constantemente naturalizada e muitos lançam mão da liberdade de expressão para validar seus discursos preconceituosos. Para essas pessoas, fica a dica: discurso de ódio, que mata e perpetua a discriminação contra minorias sociais, não é opinião.

LEIA MAIS:

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- O mundo não é um lugar seguro para LGBTs

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