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Se o jornalismo fosse uma pessoa, ele seria...

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Se o jornalismo fosse uma pessoa, ele seria um homem, branco e de classe média. O último levantamento da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), feito em 2012, chegou à conclusão de que 72% dos profissionais das redações é branco, a maioria com renda entre 5 e 10 salários mínimos e que 36% eram homens.

Ainda que essas tenham sido estatísticas de 2012, o quadro da representatividade de mulheres, negros e pessoas pobres no jornalismo ainda é questionável. O genocídio jovem, negro e pobre no Brasil continua sendo subnoticiado (com exceção de alguns veículos independentes) e casos de assédio contra as mulheres na mídia continuam a acontecer.

O jornalismo também pode ser uma profissão com grau de elitismo. Dentre os profissionais, 98% possuem faculdade e a maioria tem renda entre 5 e 10 salários mínimos. As contratações na área tendem a preferir diplomados, ainda que não haja obrigatoriedade do diploma, e o ensino superior se torna um fator selecionador de classe, dadas as dificuldades de acesso.

Mulheres nas redações

O caso da jornalista Giulia Pereira, assediada por MC Biel e depois demitida pelo iG, é um dos exemplos de que ilustram a desigualdade e violência de gênero na profissão.

Além disso, dentre os jornalistas homens, 65,5% possuem renda superior a cinco salários mínimos. Esse número cai para 31,9% quando se analisa entre as mulheres. Ou seja, a desigualdade de gênero no salário também se replica até em ambientes onde as mulheres são maioria.

A maioria dos colunistas são homens nos grandes veículos brasileiros, a maioria das fontes consultadas também é homem, o ponto de vista é machista, a linguagem é machista, mesmo que os jornalistas não se deem conta.

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP) chegou a abrir um formulário online onde casos de assédio moral e sexual podem ser denunciados. As informações chegam até uma funcionária mulher do SJSP, para que o contato fique menos desconfortável para as jornalistas que optarem por denunciar casos de assédio. Segundo pesquisa do site Vagas.com, cerca de 80% das mulheres já sofreram assédio sexual no trabalho.

"O jornalismo é uma profissão machista, não só no modo como ele é produzido. Você vê que a maioria dos colunistas são homens nos grandes veículos brasileiros, a maioria das fontes consultadas também é homem, o ponto de vista é machista, a linguagem é machista, mesmo que os jornalistas não se deem conta. É preciso lembrar que quando se está inserido em uma sociedade machista, a linguagem é um dos primeiros campos influenciados por isso. E por ela ser muito natural, principalmente pros jornalistas que lidam com isso todo dia, essas coisas passam despercebidas", explica a jornalista Nana Queiroz, autora do livro Presos que Menstruam, diretora de redação da Revista AzMina e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Nana também explica porque a presença de mulheres dentro das redações é importante. "É para que outras mulheres também tenham figuras inspiracionais. Elas acreditam mais que vão chegar longe quando veem outras mulheres que chegaram longe. A Eliane Brum trabalhava a duas mesas de mim quando eu estava na Revista Época. A existência dela me inspirou e me permitiu achar que eu podia ser jornalista investigativa, apesar de como andava mal o mercado", conta a jornalista.

A questão da negritude

Em setembro deste ano, a edição 111 do Le Monde Diplomatique trouxe em sua capa uma representação assumidamente racista de um homem negro. As reações dos leitores negros levaram a publicação a fazer um debate chamado "Mídia e Racismo", no qual foi discutida a relação da esquerda branca com as reivindicações do Movimento Negro e a representatividade dentro da redação do próprio Le Monde.

Produzir informação não é o mesmo que produzir automóveis ou cadeiras. Você está lidando diretamente com a construção de estereótipos e imaginários sociais sobre determinados grupos e assuntos.

O número de pretos e pardos dentro das redações não representa nem metade dos que vivem no Brasil, proporcionalmente falando. São mais de 53% de moradores negros no país e somente 23% dos cargos de jornalismo são ocupados por eles.

"Primeiro, acho que tem uma questão estrutural. Não dá para vivermos numa sociedade de maioria negra em que as profissões que exigem formação universitária (medicina, direito, jornalismo, engenharia, história, sociologia, entre outras) sejam dominadas por brancos. Há um problema de acesso ao ensino superior e, consequentemente, de acesso a determinadas profissões. Eu mesma quando fiz minha graduação, no início dos anos 2000, dividia a turma com outras duas negras apenas, de um total de 40 alunos". Isso é o que conta Ana Claudia Mielke, coordenadora executiva do coletivo Intervozes, jornalista e mestre em ciências da comunicação pela USP.

Ana Claudia ainda acrescenta que o cenário de acesso da negritude ao ensino superior tem se alterado, mas que isso só se deu devido às lutas do movimento por políticas públicas, como as cotas e o ProUni. Ela ressalta "o número de meios de comunicação negra que surgiram nos últimos dez anos, uma forma de dar vazão a esta formação que foi crescendo", a despeito de uma mídia majoritariamente branca.

Apesar da leve mudança no ingresso na faculdade, pessoas negras também esbarram no racismo que existe dentro do mercado de trabalho, não somente no jornalismo. Especificamente na área da comunicação, assim como a presença das mulheres, a presença da negritude também se faz importante. "Produzir informação não é o mesmo que produzir automóveis ou cadeiras. Você está lidando diretamente com a construção de estereótipos e imaginários sociais sobre determinados grupos e assuntos. Então, se não há negros numa redação, mais predisposta ela estará em (re)produzir temáticas relacionadas à negritude que não dialogam diretamente com a realidade. Ela estará mais predisposta a cometer erros, a construir estereótipos e a invisibilizar agendas e grupos que não estão ali presentes", conclui Ana Claudia.

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