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Labmovel e o aprendizado itinerante

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Colaboração, compartilhamento, acesso, distribuição. Essas são algumas palavras usada para definir a experiência do Labmovel, uma plataforma itinerante que compartilha arte e conhecimento a partir de atividades com mídias digitais. Coordenada por Lucas Bambozzi e Gisela Domschke, a iniciativa parte de uma premissa: propagar conceitos, práticas e saberes fora dos espaços tradicionais.

Uma Kombi modificada torna a proposta possível, ampliando o alcance do projeto em áreas desprivilegiadas. A cada permanência, o encontro com as comunidades acaba por ser, também, o encontro com o próprio território. Por isso, antes de tudo, os princípios do Labmovel são a escuta, o diálogo e a troca.

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Nesta entrevista, Lucas e Gisela refletem sobre a trajetória do projeto e contam mais sobre a definição dessa prática laboratorial que tem por objeto a subjetividade urbana.

A experiência de espaços que funcionem como um laboratório tem sido cada vez mais buscadas nos campos da educação e cultura. Qual o entendimento que vocês têm sobre a ideia de um lab? Gostaria que vocês falassem um pouco sobre isso na perspectiva do Labmovel.

Lucas: Pelo menos num certo meio artístico, há um consenso de que se deva valorizar a experiência, o processo e a pesquisa nas práticas artísticas e culturais. Se por um lado os procedimentos ligados às pesquisas criativas estiveram muito associados ao âmbito acadêmico, hoje é mais fácil desenvolver pesquisas envolvendo estruturas mais simples, mais acessíveis. Temos formas de cartografar ou produzir medições e mapas, que antes eram privilégio de grandes empresas ou órgãos governamentais, por exemplo.

Acho muito produtivo buscar a constante valorização dos aspectos ligados à tentativa e erro, ao caráter laboratorial de um processo artístico. Isso tem alguma confluência com um pensamento que une arte e vida, em um estado continuado de intercâmbio e revitalização recíproca. É uma idealização, mas que se torna mais possível nesse âmbito mais laboratorial. Mas ao falar de um lab não me refiro à estruturas isoladas, típicas dos laboratórios mais notadamente científicos. O conhecimento do próprio meio, do espaço imediato, do nosso entorno, é um exemplo de um laboratório com nuances artístico-sociais, e que demanda ferramentas muito simples.

No caso do Labmovel, houve num certo momento a necessidade de nos organizarmos levando em consideração o inevitável desmantelamento da produção artística mais tecnológica, em termos de manutenção de sua integridade física, sua constante obsolescência (técnica e conceitual), o que foi aliado a uma necessidade de mobilidade, de andar com pernas ou rodas próprias, de se tornar tanto o meio como sua finalidade.

Gisela: A existência de laboratórios de mídia é hoje mais evidente em função da expansão da cultura digital, mas sua história remonta às experimentações realizadas por vanguardas artísticas do século passado, numa interseção da arte com a ciência e a tecnologia. A exposição Cybernetic Serendipity, com curadoria de Jasia Reichardt, que aconteceu em 1968 no Institute of Contemporary Arts, em Londres é um marco dessa geração de artistas que exploravam novas linguagens, através da colaboração com cientistas e do uso de algoritmos produzidos por computadores. Parte dessa nova estética foi produzida dentro do Bell Labs. Nessa mesma época, aqui no Brasil, Waldemar Cordeiro iniciava sua colaboração com o físico Giorgio Moscati, que vai resultar na exposição Arteônica, em 1971. A partir dos anos 80 essas linguagens e práticas passam a ser promovidas dentro de instituições, surgindo centros como o ZKM em Karlsruhe, o Intercommunication Center em Tóquio, o MIT Media Lab em Massachusetts e tantos outros. A criação do Labmovel, em 2012, aconteceu dentro de uma busca de levar o laboratório para fora deste universo institucional.

Quando morava em Londres, há mais de dez anos atrás, coordenei um laboratório dentro da Goldsmiths University, onde eu dava aulas no programa de MA de Cultura Digital. Essa foi uma experiência muito rica, pois nós estávamos dentro do Centre for Cultural Studies, um centro multidisciplinar, que colabora com os departamentos de Mídia, Sociologia, Computação e Artes, que hoje tem como corpo docente pesquisadores como Matthew Fuller (Evil Media, Software Studies), Scott Lash (China Constructing Capitalism, Economies of Signs and Space), e Luciana Parisi (Abstract Sex, Contagious Architecture). Nossos alunos vinham de todas as partes do mundo, e com interesses diversos, alguns eram artistas, outros designers, alguns com fortes motivações ativistas. Sendo um programa que oferecia tanto teoria como prática, nós tínhamos a liberdade de organizar seminários e eventos com convidados renomados não apenas da área acadêmica, como também artística. Ao voltar ao Brasil, em 2008, criei e dirigi o laboratório de mídias do MIS em São Paulo.

A possibilidade de poder compartilhar a experiência que tinha vivido em Londres dentro de um laboratório de um museu público aqui no Brasil foi algo muito motivador, mas ao cabo de um ano percebi que o fato do laboratório estar dentro das paredes de uma instituição impedia que o projeto se realizasse plenamente, enquanto espaço de encontro e troca de experiências.

Quatro anos depois, quando recebi um convite do Ministério da Cultura da Holanda para propor um projeto colaborativo entre os dois países, vi a oportunidade de criar um laboratório independente, que tivesse a mobilidade para acessar um público que dificilmente frequentaria o LABMIS. Convidei o Lucas Bambozzi do Arte.mov, a entrar no projeto junto ao The Netherlands Media Art Institute (NIMk) de Amsterdã. Assim surgiu o Labmovel. Na época já existiam outras iniciativas semelhantes, como o Ônibus Hacker (SP), o EME (Rio), projetos onde a mobilidade abre a prática laboratorial para um engajamento com o espaço público.

Como foi o processo para vocês chegarem a uma definição dos eixos de atuação do Labmovel?

Lucas: A grosso modo chegamos a um consenso de que o Labmovel atua em regiões onde não há oferta de oficinas culturais e artísticas ligadas a práticas em arte e mídia. Talvez não tenhamos chegado ainda em eixos muito precisos e tão definidos de atuação. Inclusive porque ao longo desses anos, nos envolvemos com contextos bastante distintos. Mas de fato é um processo bastante rico de entendimento de especificidades e aptidões, o que envolve o próprio veículo (a kombi), os equipamentos, a equipe, e claro, o projeto em desenvolvimento. Mas fomos testando uma diversidade de opções, desde a condução de uma residência, oficinas com artistas, oficinas junto a festivais e instituições culturais, oficinas mais ligada a investigação, oficinas mais práticas, ligadas a processos artísticos já intrínsecos dos artistas convidados, entre outras iniciativas.

Gisela: Como disse o Lucas, o Labmovel vem realizando projetos de formatos distintos, pois depende, para tanto de programas de fomento, mas acho que todos têm uma característica comum que é a da troca com a comunidade. Os artistas são convidados a proporem livremente o formato da oficina, mas pedimos que levem em consideração o contexto local e a identidade do grupo em questão. Buscamos também trabalhar com materiais e tecnologias facilmente replicáveis. São projetos que considero pilotos. Uma oficina de áudio e eletrônica em Capão Redondo pode despertar um interesse inusitado em alguns dos participantes, mas seria bacana podermos voltar lá para dar continuidade ao que foi iniciado. O ideal seria tornar o Labmovel mais sustentável, com uma metodologia escalável, de forma que pudessem ser criados vários laboratórios móveis em todo o país, por agentes diversos.

E como se dá a atuação em cada eixo? Eles funcionam com projetos próprios ou vocês também "abraçam" projetos de terceiros?

Lucas: Os projetos foram desenvolvidos, em sua maioria, a partir da obtenção de recursos destinados ao desenvolvimento de um conjunto de ações mais ou menos pré-definidas. Ou seja, criamos um projeto que envolve a reunião de certos artistas e pesquisadores e executamos isso a médio ou longo prazo. Com o apoio do edital de arte e tecnologia da Fundação Telefônica desenvolvemos incialmente 5 oficinas e percebemos que haviam recursos para mais uma (em parceria com a Casa do Zezinho). Com o apoio do Prince Claus Fund realizamos 4 oficinas, envolvendo 5 artistas/mulheres em regiões nitidamente periféricas. Com o edital do Proac de Espaços Independentes em artes visuais desenvolvemos 4 oficinas, com 3 delas direcionadas ao contexto de outras cidades, enfrentando outras questões, logísticas, formas de abordagem e tecnologias.

Mas participamos de uma série de ações em apoio ou suporte a eventos, acontecimentos ou formas de ativismo, como foi o caso da Ocupação Processual da Galeria Marta Traba no Memorial da America Latina; participação no movimento Parque Minhocão, em conjunto com a equipe do organização ALT AV; ação em defesa da Cátedra Foucault, no entorno da PUC-SP, apoio ao movimento secundarista, em dezembro de 2015 e outros. Somos sempre convidados a participar de ações desse tipo. Esse ano fizemos atividades junto com a galeria Choque Cultural, junto do Labcidade e há propostas em andamento que nem sempre temos condições de aceitar, pois muitas vezes envolve custos além do que temos de reserva ou a formação de uma equipe para viabilizar uma participação efetiva. Ou seja, em certa medida "abraçamos" sim projetos de terceiros, mas nem sempre é possível, inclusive por conta de agenda de cada um de nós. Um caso interessante refere-se a nossos projetos recentes, em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SMDU) - junto com secretarias municipais de Educação e Cultura - , que envolveu inicialmente o atendimento a uma demanda, mas que foi orientada pelas próprias secretarias a partir do que já vínhamos desenvolvendo. A partir disso foram traçadas diretrizes comuns, em uma forma muito produtiva de parceria.

Gisela: Essa experiência com a SMDU estabeleceu uma prática de oficinas de escuta do Labmovel. Fomos convidados a fazer um mapeamento cultural dos futuros territórios CEU na Vila Maria, em Pirituba e na Penha. Foi um trabalho de imersão com diversos grupos na comunidade. Os relatórios produzidos são utilizados no planejamento urbanístico do território, assim como no planejamento da programação do futuro CEU. É um trabalho laboratorial de escuta e mediação de interesses de extrema relevância para a implantação adequada dos futuros territórios CEU, onde os desejos e as necessidades da comunidade são ouvidos durante o processo. Tratam-se de projetos pilotos. Aqui também seria desejável uma ação mais sustentável, ainda que a nível municipal.

Ao observar a trajetória do Labmovel é perceptível um esforço em proporcionar não apenas uma formação/conhecimento técnico específico, mas também um encontro com o próprio espaço por onde o Lab passa. Gostaria que vocês falassem um pouco sobre essa questão da experiência, do encontro e compartilhamento.


Lucas:
Essa sua observação é nossa premissa. O encontro com o próprio espaço onde vai ocorrer uma ação requer atenção, percepção e entendimento das forças e fatores envolvidos. Isso não pode se dar de uma maneira unilateral, mas em escuta, diálogo e troca, em uma compreensão muitas vezes profunda do contexto. São encontros com as pessoas, com o espaço em suas visualidades e sons, elementos visíveis e não visíveis de um ambiente. O compartilhamento ocorre a partir dessas premissas. Mas muitas vezes somos bastante autocríticos com relação aos resultados obtidos. Gostaríamos muito de poder voltar a certos lugares, encontrar os participantes de alguma ação e estabelecer alguma proposta mais continuada, por exemplo.

Gisela: Considero esse encontro e essa troca com a comunidade o foco principal de nossa prática laboratorial. Não estamos apenas realizando a difusão de oficinas sobre determinada técnica ou linguagem artística. Estamos realizando um projeto que tem por objeto a subjetividade urbana.

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Pensando nas ferramentas que vocês utilizam, há um espaço destinado para os softwares livres?

Lucas: Por princípio sim, por acreditarmos em ferramentas livres e de fácil acesso. Mas sabemos na prática que isso nem sempre é possível. Por outro lado, observando nosso histórico de atividades, é possível perceber que optamos menos por "ensinar" algo e mais produzir algum tipo de impacto que dispare desejos e intenções de aprofundamento. Quero dizer com isso que grande parte de nossas atividades não demandou o conhecimento de algum software, mas sim de uma abertura para conhecer mais do universo apresentado.

Gisela:
Podemos considerar a metodologia que estamos desenvolvendo um software livre, que tem na sua criação a participação e colaboração de vários agentes.


Qual o principal desafio para fazer a engrenagem funcionar (pessoas, finanças, infraestrutura, público, um pouco de cada coisa)?

Lucas: Um pouco de cada coisa. E muita paciência. O Labmovel envolve um custo contínuo de manutenção, e por muitos meses ao ano, não existe recursos para tanto. A equipe é um ponto fundamental nessa engrenagem. Já tivemos bastante mudança em nossa equipe. Em vários momentos a equipe se 'voluntariou' a fazer ações mesmo sem nenhum recurso envolvido, como nos casos mais ativistas.

Gisela:
Como todo projeto cultural, nós passamos por muitos desafios, e sua existência depende de nossa perseverança e do envolvimento da equipe e dos colaboradores.

Ainda pensando nisso, qual a importância ou a participação dos editais governamentais para a manutenção das atividades do Labmovel?

Lucas: Acho que isso foi colocado parcialmente na descrição dos projetos continuados. De forma geral, sim, a importância dos editais é bastante grande, mas haveriam formas, um tanto mais sofridas talvez, de atuação de forma ainda mais independente.

Gisela: Os editais foram importantes para a criação do Labmovel e a realização de três de seus projetos. Agora estamos com o projeto aprovado na Rouanet e no ProAc, na atual situação que estamos vivendo. Existem outros caminhos, acho que valem ser considerados, pois podem levar a transformações positivas.

Por último, que balanço vocês fazem da trajetória do Labmovel até aqui: o que ficou dentro e/ou fora do esperado e o que ultrapassou o que era imaginado?

Lucas: Acho que essa pergunta, como no caso da primeira, demanda uma avaliação mais pessoal, da visão de cada um de nós coordenadores (em todos os projetos coletivos em que me envolvo, busco falar em nome de um organismo em comum, e não em perspectivas pessoais). Arrisco dizer que o Labmovel ultrapassou em muito as perspectivas iniciais. Isso aconteceu inclusive pelo desdobramento dessas ações no tempo. Poderia ter sido um projeto com uma duração mais "expirável" mas vem durando há um tempo maior do que o previsto (de 2012 até 2016) e isso vem nos levando a novas configurações de sua organização e gerenciamento, algumas ainda por serem feitas. Pensando em um balanço ainda mais amplo, há que se admitir que em termos estruturais o veículo impõe uma série de limitações e isso dificulta o engajamento em projetos mais ousados ou de maior prazo - como seria por exemplo pensar ações em torno da região de Mariana (MG) ao longo do Rio Doce, afetada por lama tóxica, produção de intervenções urbanas em maior escala, uso de equipamentos mais potentes em termos de projeção, ou processos de formação mais imersivos no interior do estado ou do Brasil, pra citar algumas possibilidades bem aleatórias.

Gisela:
Labmovel é um projeto piloto, onde cada ação realizada é uma nova experiência. O interessante é notar que essas experiências diversas acabam contribuindo para a formação de uma prática metodológica orgânica, ligada à vida e a seus processos transformadores. Daí o seu valor laboratorial.

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