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'Pensa um menino da zona rural querendo ser fotógrafo e viajar o mundo. Não era assim antes'

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Pixland via Getty Images
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Decidido a despertar o sonho em seus alunos, professor cria projeto de leitura coletiva que explora a potencialidade do universo digital

Cléssio Bastos é professor de português na Escola Municipal José Carlos Pimenta, no Distrito de Vila Rica, em Goiás. A maior parte dos seus alunos são provenientes da zona rural e conciliam os estudos com atividades na agricultura e pecuária. Em 2015, após ver a nota da molecada despencar na avaliação municipal, Cléssio entrou em crise. A sensação de fracasso e a desmotivação estavam prestes por levá-lo a abandonar a sala de aula quando uma ideia diferente surgiu no horizonte - o projeto "Looking4Heroes".

Durante um mês, o desafio era aparentemente simples: colocar a turma para ler em roda. Para isso, Cléssio contou com a ajuda de um projetor, que ao permitir o ajuste no tamanho da imagem, facilitava a dinâmica para uma sala de 30 alunos que não gostavam de ler. Aos poucos, o desinteresse dos alunos foi transformando-se em motivação e o segredo do sucesso estava, bem ali, na própria obra escolhida para leitura: o livro "Eu sou Malala". A história, mais do que promover o ensino da língua portuguesa, despertava a identificação nos estudantes - estratégia pensada pelo professor desde o início do projeto.

Da ideia central de leitura coletiva e participativa, "Looking4Heroes" expandiu os horizontes por iniciativa dos próprios alunos, que não apenas chegaram ao último ponto final da obra como decidiram contribuir com a Fundação Malala. Ao final da iniciativa, que mobilizou pais e alunos, a comunidade havia contribuído com 100 dólares, doados ao instituto cujo lema - "A cada um dólar uma criança na escola" - havia sensibilizado e engajado os estudantes.

Empolgados com a ação, a ideia seguinte foi criar uma campanha de financiamento coletivo "Alimente heróis com livros". Nesse processo, novas aprendizagens entraram em cena como a gravação de vídeos, a elaboração de posts para redes sociais e a produção de fotos. Tanta novidade valeu a pena. Em dois meses, eles arrecadaram o valor esperado, foram as compras e saíram da livraria com 200 exemplares de obras literárias.

Nesse encontro entre tecnologia e educação, Cléssio segue confiante. Refletindo sobre o plano de aula, ele não hesita: "Não consigo me ver seguindo cartilhas". Em busca de uma metodologia própria, adequada à realidade de sua escola e de seus alunos, sua aposta segue integrando o tradicional, a prática, o erro e a experimentação como processo de aprendizagem contínua. Um caminho que não se resume ao amor. Pelo contrário, exige aprimoramento constante e investimento profissional.

Os resultados dessa caminhada já começam a florescer - em notas para as estatísticas do município e, principalmente, (talvez o mais importante) no sonho dos estudantes.

Leia a entrevista com Cléssio:

Há um ano você mobilizou uma turma inteira na leitura do livro da Malala. Na sequência, os próprios estudantes engajaram-se em uma campanha de crowdfunding para comprarem livros. Conte um pouco sobre essa evolução.

É notória a evolução deles. Eles melhoraram muito a atitude em sala de aula, escrevem cada vez melhor, estão cada vez mais antenados e também percebo que eles começam a ser quem são de verdade. Eles estão se definindo mais individualmente, gostos mais personalizados, antes todo mundo era praticamente um só. Todo esse processo está possibilitando o autoconhecimento deles, vejo isso em coisas simples como, por exemplo, a profissão que eles querem ter no futuro. Pensa um menino que mora na zona rural querendo ser fotógrafo e viajar o mundo, outro querendo ser youtuber. Não era assim antes. Eu sempre disse a eles que me frustrava com o fato deles não terem sonhos, eu perguntava o que queriam para o futuro e eles simplesmente respondiam: "NADA". Mas nem tudo são flores, eles continuam sendo alunos e me dão muito trabalho (rs)!

Qual a percepção dos alunos desde que eles gravaram o primeiro vídeo para a campanha e compartilharam suas histórias? De que modo isso reverberou dentro da sala de aula?

Meus alunos não estão inseridos na cidade da qual a Vila em que moram faz parte, tampouco estão inseridos no contexto cultural vigente. Desde que fizeram o primeiro vídeo até aqui, eu percebo que eles veem notando que são parte do mundo, que não precisam sair da vila para serem notados, que são capazes e conseguem mobilizar para alcançar objetivos. De certo modo eu penso que eles descobriram o mundo ao se verem em jornais, na internet ou na TV. Essa descoberta traz resultados imensuráveis para a sala de aula. Antes eu trabalhava assuntos do mundo com alunos que não se sentiam parte desse mundo, agora eu falo para alunos que se sentem agentes ativos, com voz. Isso é grandioso, viabiliza meu trabalho, encurta os caminhos e amplia nossas possibilidades de ação. Para os alunos não há dúvidas mais de que eles podem ser ouvidos.

Como começa o seu processo de trabalho: você parte do desenvolvimento do conteúdo, das possibilidades de interação ou da "mistura" entre ambos?

As pessoas costumam associar o trabalho do professor ao sacerdócio, a amor abnegado, mas estão errados os que resumem nosso trabalho dessa forma. Existe amor sim, mas os resultados que venho colhendo não seriam possíveis sem investimento profissional, atualização dos meus métodos e conhecimentos, sem uso de ferramentas inovadoras e visão de mundo. Eu vivo em constante estudo, uma reportagem, um livro, uma viagem, a análise dos conteúdos tradicionais que preciso passar, o conhecimento individual de cada aluno etc. Conhecer as demandas da comunidade onde eles vivem, a realidade da escola e a realidade do mundo são pontos importantes no meu processo de trabalho.

De forma geral eu parto do conteúdo, analiso uma série de fatores que giram em torno dele, conexões com assuntos, textos, documentários, ferramentas digitais etc. Com essa análise pronta, eu parto para o trabalho efetivo com os alunos.

Muita coisa também acontece de forma intuitiva, no meio de uma aula vem uma ideia e eu simplesmente dou vazão a ela, às vezes começo a aula com tudo planejado, aí me vem uma ideia ou mesmo um aluno aponta algo e tudo muda. Eu obedeço muito os caminhos que eles indicam, aula é meio stand-up, a gente tem que dar vazão e ir sentindo se o público/aluno está viajando com a gente. Mas nem sempre dá para realizar uma abordagem diferenciada dos conteúdos, às vezes porque não me vem nada à mente, às vezes porque vejo que não é preciso fugir ao tradicional.

Quais desafios/necessidades surgiram quando você passou a utilizar diferentes ferramentas digitais?

O principal desafio é bater de frente com o conceito errado de educação que alunos, pais e professores carregam. Eu sou questionado por professores acerca de conteúdos como se toda a transformação que tenho promovido não seja importante. Eu levo meus alunos para frente de uma câmera em contato com o mundo, lendo livros vorazmente e aí chega alguém questionando se eles estão aprendendo verbos ou se estão seguindo o livro didático. Confesso que me frustra a falta de visão de muitos colegas de profissão, e até mesmo dos alunos, mas hoje eu estou em uma escola que me protege disso, já foi pior quando estive em outras escolas. Outro grande desafio é desbravar, passar por um caminho novo sem ter muito onde se apoiar, tem muita gente trabalhando como eu, anos luz à frente até, mas estamos isolados ainda. A sensação de isolamento é um desafio que aponta uma necessidade, devemos estar em rede.

Como você se define? Fale um pouco sobre como o encontro da tecnologia com a sala de aula vem modificando o seu entendimento sobre a identidade do professor.

Eu sou professor geração Y. Não consigo me ver repetindo um plano de aula, seguindo cartilhas, eu penso que sou um professor como deve ser um professor. Nada mais que isso. Na verdade, simples pra mim é ser esse tipo de profissional, se me tirarem a liberdade de criar, aí que será difícil, não é fácil pra mim seguir um livro vendo que não está funcionando para os alunos, porque na verdade não funciona pra mim também. E para funcionar, eu uso internet, tablete, música, documentários, mas também uso quadro e giz, livro impresso etc.

Para mim, a tecnologia deve ser meio, não fim. Eu não vejo razão para ler um livro em um celular se isso não trouxer resultados positivos com os alunos. Se for preciso usar métodos tradicionais eu uso, aliás eu sempre uso. A educação se perdeu nessa história de tecnologia, focaram muito nos instrumentos tecnológicos e pensaram pouco se esses meios estão sendo usados de forma a produzir resultados. Se uma tecnologia traz dispersão e desvia o foco, se ela chama mais atenção que o conteúdo, então ela não serve naquele momento, talvez seja o caso de ser tradicional e voltar algumas casas. A minha busca é para criar aulas que repitam a vida fora da escola, que crie situações que eles viverão no mundo.

Tudo isso que está acontecendo tem me ajudado perceber que precisamos pensar urgentemente a educação. Eu reprovei duas vezes na escola, fiquei uma vez de recuperação, fui o último colocado no vestibular, nunca fui um aluno exemplar na graduação. Muitos alunos meus, que hoje não se destacam ou simplesmente não conseguem alcançar os objetivos propostos pela escola tradicional, são vítimas do mesmo sistema que por pouco me tira da cena. É pensando em mim que eu os alcanço, talvez a palavra que deveria nortear o novo professor seria empatia.

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