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De quem apanham os manifestantes contrários ao governo Temer?

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IMPEACHMENT PROTEST
Nacho Doce / Reuters
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Ontem estive no ato contra o Governo Temer que aconteceu em São Paulo e cuja concentração foi no Masp. Como já era de se esperar, foi "tiro, porrada e bomba".

Para quem só esteve em manifestos pró-impeachment é preciso avisar que a Tropa de Choque que conhecemos é muito diferente daquela que chega depois, vestindo quepe de gala, sorrindo e tirando fotos. O Choque que se faz presente não tem rosto: já aparece de capacete e batendo no escudo. Chega antes, cerca tudo e usa o vandalismo de cinquenta como justifica para bombardear dez mil. Ontem, quando a passeata estava na Rua da Consolação (que irônico!), foi disparada a primeira bomba de gás contra os manifestantes.

A partir daí a coisa degringolou. Quem nunca esteve diante da situação de impotência que é ser reprimido pela polícia armada em um ato contra um governo, não entende a revolta que motiva quem parte para o "quebra-quebra".

Não tive o desprazer de ver o ódio das depredações - fora as de alguns moradores de rua que resolveram sair quebrando lixeiras em conflito com suas próprias sombras. Mas eu sei que tudo isso aconteceu. E também me arrisco a dizer que se deixassem a caminhada continuar, tudo teria acabado muito antes e os danos seriam muito menores.

Bom, apanhar da polícia já é esperado. Embora eu tenha o sonho de que a Tropa de Choque ao menos use seu armamento com mais responsabilidade, para que ninguém perca a visão como aconteceu com a Deborah Fabri, ontem. O ponto é que não é só dela que a atual oposição apanha - tanto no figurativo quanto no literal.

A gente apanha de pessoas que pensam ser muito diferente do que somos, humanamente diferentes. É difícil aceitar que cidadãos comuns e que são, culturalmente, tão parecidos batem na gente. Conheço gente de grana e gente da quebrada, todas elas gostam de muamba. A diferença é que umas vão buscar em Miami e outras, na 25 de março. Por aí, só posso imaginar que a intolerância vem do abismo da renda entre as classes sociais - e do medo de que ele diminua, nesse caso.

Ontem eu e alguns colegas de trabalho, já estávamos fora da passeata, às dez horas da noite quando um carro em alta velocidade passou por nós e o motorista gritou: "Vai trabalhar!". Veja bem, era um dia de semana, estávamos na labuta desde cedo e ficamos taxados de vagabundos por estarmos na rua às 22h. Será que ele acredita que o pessoal que ia exigir impeachment na Av. Paulista em plena tarde de domingo também é vagabundo? Domingo à tarde tem muitos shoppings, restaurantes e cinemas funcionando. Tem muita gente trabalhando. Duvido que ele pense assim.

Antes disso, em alguns trechos onde passamos após a dispersão na Consolação, pessoas atiraram de suas janelas e varandas todo tipo de coisa com o único objetivo de machucar quem estava na rua. Não estou falando de bolinhas de papel, falo de copos de vidro. Não pensavam que ali também estava um pai de família (ou uma mãe), o melhor amigo de seu filho, seu funcionário ou colega que não iria trabalhar no dia seguinte por estar no hospital. Não pensavam em nada.

Se esse texto chegar a alguma das pessoas que fizeram isso, gostaria de dizer que você pode rir da nossa cara, debochar e fazer piada. Você pode nos vaiar, bater panelas e xingar. O que você não pode é tentar nos calar "na porrada". Isso chama-se repressão e é coisa de ditadura - além de ser sem noção e totalmente desnecessário. Afinal, a gente já sabe "por quem os cassetetes dobram".

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