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O que se pode produzir num festival de cinema?

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Festival de cinema é espaço de encontro. Lá a gente mata a saudade dos amigos, conhecemos pessoas que só vimos nas redes sociais, recebemos elogios e críticas negativas sobre os filmes exibidos, distribuímos abraços, poesias, conseguimos emocionar pessoas, encorajar, dizer um ponto de vista, contar uma história que alguém nunca ouviu e até mesmo encontrar um grande amor. Não é possível listar todas as possibilidades que um festival pode produzir nas nossas vidas. Tem algumas coisas que são insignificantes, outras que te deixam marcas para toda vida, que você chega chora quando lembra do que viveu.

Estive em Recife na semana passada, participando do primeiro Festival Internacional de Cinema de Realizadoras, o FINCAR. Rolou de um tudo. Desde a empreendedora negra pernambucana, Isabel Freitas, fazendo uma análise semiótica sobre o projeto gráfico do Festival projetado na telona do Cinema São Luiz, explicando a relação racista que a imagem revelava. Desconforto, claro: ninguém gosta de reconhecer a naturalização do racismo que existe dentro da forma branca de pensar as coisas. Até uma mulher negra camponesa deslocar, numa fala que não durou um minuto, as nossas visões totalmente fincadas nesse centro que tanto criticamos.

Dia desses li em algum lugar que respeito significa olhar de novo. Além da curadora e diretora artística, Maria Cardozo, ter se pronunciado imediatamente em relação a análise de Isabel, e ter, publicamente, aceitado a crítica e prometer fazer alguma coisa, no dia seguinte, assim que entrei no cinema, para mais uma sessão do festival, o projeto gráfico projetado havia mudado totalmente. Comemorei!

Durante o debate, produzido em parceria com o FICINE (Fórum Itinerante de Cinema Negro), no Paço do Frevo, uma mulher negra mais velha entrou na sala após 30 minutos do início de uma roda de conversa sobre os olhares das mulheres negras no cinema brasileiro contemporâneo. Assim que ela deu o primeiro passo para a sala em que estávamos reunidas, as mulheres negras presentes a reverenciaram com um olhar e um sorriso no rosto, como quem diz: nossa rainha chegou.

Apesar do convite ter sido endereçado a mim, Janaina Oliveira, Juliana Lima e Cíntia Lima, para puxarmos o bonde, foi uma conversa de muitas. E só não foi mais por causa desse danado que é o tempo, que nos engole a todo instante. A mais velha sentou num cantinho e ouviu com muita atenção todas as falas das mais novas. Uma por uma, sem nenhuma intervenção, ouvia com o corpo inteiro. E ouvir com o corpo é uma coisa que já notei, e que só o tempo consegue nos ensinar. Confesso que estava ansiosíssima pela colocação dela no coletivo, e por alguns instantes, achei que ela não fosse falar. Até que ela lançou: "como vocês, mulheres negras no cinema estão pensando a conexão com as mulheres negras camponesas?" Pergunta cirúrgica, cheguei tremi: nunca tinha pensado sobre as mulheres negras camponesas. Foi a pergunta que, definitivamente, mudou as águas que cortavam o meu rio naquele instante.

Eufóricas falando sobre políticas públicas, sistema de distribuição, produção e linguagem cinematográfica, em momento nenhum falamos fora do enquadramento da cidade, em nenhum momento olhamos para o campo, e que, apesar de sermos todas mulheres negras ali naquela posição, só notamos alguma de muitas das nossas diferenças quando Luiza colocou a questão.

Quando falo de misturas nos espaços de cinema, eu falo disso também. Já falei um monte de vezes que eu não vejo nada de glamouroso no "fazer cinema", vejo muita responsabilidade. Quando a gente vai para festival de cinema, a gente também discute projetos políticos pro país. É mais do que falar sobre aquilo que amamos, da magia que é fazer cinema, das imagens, da linguagem, do roteiro, da narrativa, do processo de construção de um filme. Estamos ali, sentados na posição de realizadoras e realizadores de cinema sim, mas de fato o que realizamos também naquele espaço? Política. Odiamos o centro e todas as relações centralizadoras que ele impõe para todo o resto que não é considerado centro. No entanto, nossa visão é de centro. Falamos com muita segurança em ideias para transformar a cidade, mas nem sequer lembramos que há nessa geografia um país bem mais profundo.

Vida longa ao FINCAR!

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