Huffpost Brazil
Yo-Yo Ma Headshot

Por trás do violoncelo

Publicado: Atualizado:
Print Article

Yo-Yo Ma reflete sobre o papel das artes, a criatividade e os limites da vida. Seus comentários foram adaptados de uma conversa com o WorldPost.

Na civilização global altamente interdependente, muitas coisas não estão funcionando.

Quando viajo pelo país e pelo mundo para me apresentar, percebo em muitas conversas uma crescente sensação de que o primeiro Iluminismo -- que defendeu o reinado da razão acima da emoção e dos sentimentos -- está se tornando um pouco falho, limitador e mesmo contraproducente.

O neurobiólogo Antonio Damasio escreveu sobre o erro de Descartes que, em poucas palavras, é "Penso, logo existo". Damasio, ao contrário, apresenta o argumento convincente e empiricamente baseado na neurologia de que sentimentos e emoções, conforme expressos na arte e na música, desempenham um papel fundamental no raciocínio cognitivo de alto nível.

Os atuais avanços na neurobiologia deixam claro que os seres humanos têm vias neurais duplas: uma para o pensamento crítico e outra para o pensamento empático. Apenas uma via pode ser ativada de cada vez, de forma que quando uma está ligada a outra está desligada. No entanto, estamos cientes também de que a ponderação sábia e equilibrada resulta da integração entre o pensamento crítico e o pensamento empático, levando em conta as emoções, assim como a razão. Embora isto não possa ocorrer ao mesmo tempo, agora sabemos que realmente ocorre por meio de um processo cíclico de camadas de retroalimentação.

Essas descobertas indicam que é possível uma nova forma de pensar, uma nova consciência -- talvez um novo Iluminismo --, que reúna novamente as artes e as ciências.

Essa nova consciência pela qual buscamos intencionalmente apoiar os circuitos de retroalimentação integradores de nossas vias neurais duplas poderia fornecer nova energia para a criatividade em nossa civilização desgastada.

Essa conscientização integradora é especialmente importante hoje, na medida em que nosso mundo tecnologicamente avançado e orientado para a ciência está se subdividindo em cada vez mais compartimentos, especializações e disciplinas -- enquanto a interdependência da globalização cria mais ligações com outras culturas, por meio das quais o entendimento empático é vital.

Conseguir colocar-se no lugar de alguém sem preconceitos é uma habilidade essencial. A empatia surge quando entendemos algo profundamente por meio das artes e da literatura e podemos então realizar conexões inesperadas. Estes paralelos nos colocam mais perto das coisas que, caso contrário, pareceriam distantes. A empatia é a qualidade última que reconhece nossa identidade como membros de uma só família humana.

Visionários como Elon Musk falaram sobre a internet e o alcance planetário da mídia como "circuito do pensamento global". Precisamos ter certeza de que esse circuito de conexão se refere à comunicação e não apenas à informação, ao incentivar tanto o pensamento empático quanto o crítico.

DE CTEM PARA CTEAM

Como a economia mundial é extremamente competitiva, grande parte da educação atual, das escolas de Cingapura e Xangai às escolas americanas, se concentra em CTEM -- ciências, tecnologia, engenharia e matemática. Embora tudo isso seja muito importante, essa visão é míope. Precisamos acrescentar à mistura o raciocínio empático das artes -- CTEAM.

Os valores subjacentes à integração das artes -- colaboração, pensamento flexível e imaginação disciplinada -- conduzem à capacidade de inovar. Um pianista qualificado a ler e improvisar música está aberto a escutar o que o rodeia, mas sabe que, para alcançar excelência, precisa filtrar a imaginação pela disciplina do conhecimento. Quando se apresenta, sabemos instantaneamente se atingiu o equilíbrio correto e se seu desempenho é bom ou não.

Para mim, a maneira mais proficiente de ensinar os valores da colaboração, flexibilidade, imaginação e inovação -- todos os conjuntos de habilidades necessárias no mundo atual -- é através das artes cênicas. Se a pessoa tem estas ferramentas, pode se sair bem em qualquer campo, da engenharia de software às biociências.

A empatia é outra ferramenta fundamental. Empatia e imaginação, camadas artificiais de realidades diferentes, estão vinculadas. A empatia é a capacidade de imaginar o que alguém está sofrendo, pensando, sentindo e percebendo. Isto não apenas oferece outra perspectiva sobre quem somos -- perspectiva esta continuamente corrigida pelas evidências --, mas também quais são as possibilidades alternativas.

O pensamento empático é algo muito em falta na educação de hoje, que é orientada apenas para CTEM. Todos querem inovação, recuperar o espírito inspirado e inovador de JFK falando sobre o homem ir à lua. No entanto, não se pode alcançar o topo sem o resto.

As artes nos ensinam que há algo que nos conecta a todos e é maior que cada um de nós. Nos dois casos, é questão de equilíbrio, de centrar-se no ponto correto de balanceamento entre o indivíduo e a comunidade.

Todos nos preocupamos com os mesmos problemas com nomes diferentes a eles relacionados.

A fórmula CTEAM nos ajuda a resolver a questão da educação. As crianças vão querer ir à escola por ser paixão e privilégio, não obrigação.

TUDO TEM A VER COM EQUILÍBRIO

Encontrar sentido e continuar a viver -- tudo o que fazemos como seres humanos em sociedade -- ocorrem naquele espaço cerebral entre a vida e a morte. Em nossas sociedades industriais há muita controvérsia atualmente sobre o que é a vida e quando começa e como enfrentamos a agonia da morte, algo sobre o que, na sociedade industrial, procuramos evitar pensar. Portanto, gastamos uma quantidade incrível de dinheiro em tratamentos médicos nos últimos anos de vida.

As artes nos ajudam a lidar com essas questões ao integrar, e não evitar, as profundas emoções de perda íntima envolvida e recontar muitas vezes a história da condição humana e seus limites. Apenas então poderemos recuperar o equilíbrio espiritual e encontrar sentido, mais do que tentar administrar tecnicamente cada aspecto de nosso ser, do útero à tumba.

BORDAS NECESSÁRIAS

Equilíbrio é o que todas as formas de vida buscam para sobreviver. Evolução é o equilíbrio entre a estabilidade e as mudanças necessárias para fazer face aos novos desafios do meio ambiente.

Neste mundo, podemos apenas sobreviver dentro de uma faixa estreita de condições -- oxigênio, hidrogênio, luz, acidez, temperatura.

Dentro dessa faixa estreita, a maior parte do que existe se concentra no meio. No entanto, como percebemos na ecologia, há também as "bordas necessárias". O "efeito de bordas" na ecologia ocorre na fronteira em que dois ecossistemas se encontram -- por exemplo, a savana e a floresta. Naquela interface, em que há a menor densidade e a maior diversidade de formas de vida, cada ser vivente pode aproveitar o núcleo dos dois ecossistemas. É aí que surgem novas formas de vida.

Em nossa espécie avançada, também temos essas "bordas necessárias". As ciências exatas estão sondando uma extremidade da faixa, buscando as origens do universo ou os segredos do genoma. Os artistas sondam a outra extremidade da faixa. Sem as "bordas necessárias" que fazem interface com um ambiente em mudança e encontram uma resposta inovadora, o meio vai saltar sobre a borda como lemingues. Os que estão na borda são, de fato, os batedores que dizem "há uma cachoeira, há uma elevação, há perigo pela frente. Pare. Não avance por este caminho, vá por outro lado".

O equilíbrio ocorre quando a informação das bordas está disponível no núcleo. Apenas quando os meridianos ou caminhos que conectam as bordas até o meio estão abertos, uma forma de vida sobrevive e até mesmo prospera. Apenas quando a ciência e as artes, o raciocínio crítico e empático, se ligam com a fonte principal encontramos um equilíbrio sustentável na sociedade.

O perigo é quando o centro ignora as bordas ou as bordas ignoram o centro -- a arte pela própria arte ou a ciência sem perspectiva humanista e comunitária. Então caminhamos em direção ao fim, mesmo sem o sabermos.

A GLOBALIZAÇÃO CRIA CULTURA

Minhas jornadas musicais reforçaram esse ponto de vista. Concluí que as interações possibilitadas pela globalização não exatamente destroem a cultura; podem também criar uma nova cultura e revigorar a disseminação de tradições que existem há séculos, precisamente por causa do "efeito bordas". Algumas vezes, o mais interessante acontece nas bordas. As interseções das bordas podem revelar conexões inesperadas.

A cultura é um tecido composto de colaborações de cada canto do mundo. Uma forma de descobrir o mundo é cavar fundo em suas tradições.

Muitas vezes usei esse exemplo: no núcleo do repertório de um violoncelista estão as Suítes para Violoncelo de Bach. No cerne de cada suíte há um movimento de dança denominado sarabanda.

A dança teve origem com a música dos berberes do norte da África, onde era uma dança lenta e sensual. Apareceu depois na Espanha, onde foi proibida, pois era considerada indecente e lasciva. Os espanhóis a levaram para as Américas, mas também foi para a França, onde se tornou uma dança da corte. Na década de 1720, Bach incorporou a sarabanda como movimento em suas Suítes para Violoncelo. Hoje eu, um músico americano descendente de chineses, nascido em Paris, toco Bach. Então quem é o verdadeiro dono da sarabanda? Cada cultura adotou essa música, investindo-a com um significado específico, mas cada cultura deve compartilhar sua titularidade: a música pertence a todas.

Em 1998, fundei o Projeto Silk Road para estudar o fluxo de ideias entre as muitas culturas entre o Mediterrâneo e o Pacífico durante vários milhares de anos. Quando o Silk Road Ensemble se apresenta, procuramos reunir grande parte do mundo em um palco. Os membros formam um grupo de virtuoses, mestres de tradições vivas, sejam europeus, árabes, azeris, armênios, persas, russos, da Ásia Central, da Índia, Mongólia, China, Coreia ou Japão. Todos partilham generosamente seus conhecimentos e são curiosos e ávidos por aprender outras formas de expressão.

Nos últimos anos, concluímos que cada tradição é resultado de uma invenção de sucesso. Uma das melhores formas para garantir a sobrevivência das tradições é a evolução orgânica, usando todas as ferramentas disponíveis na atualidade, do YouTube à sala de concertos.

SOMOS MAIS DO QUE PODEMOS MEDIR

Vivemos em uma sociedade tão calculista, que tendemos a colocar as pessoas em uma caixa que podemos guardar em nossa prateleira mental. As pessoas pensam em mim como violoncelista, porque podem ver minhas apresentações e me avaliar como músico. Penso em minha vida de músico como a ponta do iceberg. É apenas a parte audível da minha existência. Debaixo das águas há a vida que estou vivendo, meus pensamentos e as emoções que brotam em mim.

Todos estaremos em apuros se pensarmos que o universo existe apenas na matéria que podemos ver e medir, e não na antimatéria que é a contrapartida que une tudo.

Michelangelo disse uma frase famosa: "Eu libero a escultura do mármore". Da mesma forma, minha música surge da vida ao redor, que todos compartilhamos. Uma é condição da outra.