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O WikiLeaks coloca as mulheres turcas sob risco, sem nenhum motivo

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GABRIEL BOUYS via Getty Images
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ATUALIZAÇÃO: 27 de julho - Horas depois da publicação deste post, o blogueiro Michael Best, que escreve sobre segurança nacional e havia feito o upload das bases de dados divulgadas pelo WikiLeaks, disse ter cometido um erro, depois que o site para onde ele enviou as informações as tirou do ar. Os arquivos foram removidos por problemas de privacidade, segundo Best. O WikiLeaks não apagou seus posts nas redes sociais, que agora apontam para um link quebrado. Esta atualização continua no final do artigo.
Dias depois da tentativa de golpe que abalou a Turquia, o WikiLeaks divulgou cerca de 300 000 emails intitulados "os emails Erdogan". Em resposta, o órgão que regula a internet no país prontamente bloqueou o acesso ao WikiLeaks.

Para muitos, o bloqueio do WikiLeaks foi a confirmação de que os emails eram prejudiciais ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e seu governo, revelando corrupção ou outro tipo de crime. Vários artigos falaram em "censura". Até mesmo Edward Snowden tuitou a notícia do bloqueio do WikiLeaks, com o comentário: "Como saber se um vazamento é autêntico".

Mas Snowden não poderia estar mais errado. O vazamento foi um ato irresponsável, sem nenhum interesse público e que representa perigo potencial para milhões de pessoas comuns e inocentes, especialmente milhões de mulheres turcas.

Ainda assim, relatos da mídia ocidental, da Reuters à revista Wired, alguns de jornalistas que conheço e respeito, partiram do mesmo princípio que Snowden. Eles meramente relataram o bloqueio como um ato de censura e reafirmaram as alegações do WikiLeaks acerca do que os emails podem conter, aparentemente sem fazer nenhuma checagem.

Snowden não poderia estar mais errado. O vazamento foi um ato irresponsável, sem nenhum interesse público e que representa perigo potencial para milhões de pessoas.

Jornalistas e ativistas anticensura com quem mantenho contato na Turquia vêm examinando os documentos vazados. Até agora, não tenho conhecimento da descoberta de nada digno de nota. Segundo a capacidade de análise coletiva de ativistas e jornalistas na Turquia, nenhum dos "emails Erdogan" parece ser de fato do presidente ou de seu círculo imediato. Ninguém parece ser capaz de encontrar uma prova definitiva que exponha integrantes do governo. Isso não significa que algo não possa aparecer, mas a busca já acontece há dias.

Entretanto, o WikiLeaks postou links nas redes sociais para seus milhões de seguidores apontando para bases de dados enormes contendo informações sensíveis e privadas de milhões de pessoas comuns, inclusive uma base de dados de quase todas as mulheres adultas da Turquia.

Sim - este "vazamento" contém planilhas com informações privadas e sensíveis do que parecem ser todas as eleitoras de 79 da 81 províncias do país, incluindo seus endereços e outras informações pessoais - às vezes o número do celular. Se elas forem integrantes do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (conhecido pela sigla AKP), o partido do governo, os arquivos também contêm os números de seus documentos de identidade, o que aumenta os riscos, pois esses documentos são usados para o acesso a vários serviços públicos. Somente o arquivo relativo a Istambul contém informações privadas de mais de 1 milhão de mulheres, e são 79 arquivos no total, a maioria incluindo informações de centenas de milhões de mulheres.

Não existe uma única razão para colocar tantas pessoas sob risco de roubo de identidade, assédio ou coisa pior.

Estamos falando de milhões de mulheres cujas informações pessoas e privadas foram lançadas na internet, com quase nenhum protesto. Seus endereços estão à disposição de qualquer stalker, ex-parceiro, parente contrariado ou maluco aleatório. E temos de lembrar que centenas de mulheres são assassinadas anualmente na Turquia, na maioria das vezes por seus maridos, ex-maridos ou namorados, e milhares de outras abandonam suas casas fugindo de seus parceiros.

Confirmei que esses arquivos de fato parecem conter informações corretas. Dezenas de amigas e parentes minhas em várias cidades estão incluídas nas bases de dados - para meu horror, com informações precisas. Os arquivos também informam se essas mulheres são integrantes do AKP - logo depois de uma tentativa de golpe sangrenta para derrubar o AKP.

Outro arquivo parece conter informações sensíveis, inclusive os números dos documentos de identidade do que parecem ser milhões de integrantes do AKP, listados como ativos ou falecidos. Um outro arquivo contém os nomes completos, números de identidade e telefones celulares de centenas de milhares de monitores eleitorais do AKP - a maioria membros ativos do partido.

Seus endereços estão à disposição de qualquer stalker, ex-parceiro, parente contrariado ou maluco aleatório.

Há muito tempo sou crítica da censura imposta pelo AKP, e continuarei mantendo essa posição. Mas não existe uma única razão para colocar tantas pessoas sob risco de roubo de identidade, assédio ou coisa pior - especialmente depois de o país viver uma tentativa de golpe sangrenta cujo alvo era justamente este partido. Também não consigo entender como o vazamento de dados tão privados e sensíveis tenha sido relatado de forma tão pouco crítica pela imprensa numa semana tão perigosa.

Os emails vazados pelo WikiLeaks foram apresentados em uma base de dados pesquisável, ilustrada com uma caricatura de Erdogan em cima de um tapete voador, com o título: "Do: AKP". Não me importo com a imagem orientalista - é pura burrice. O maior problema aqui é a enganação - porque os emails não são do AKP. Na realidade, a maioria são emails enviados para o partido, no que parece ser um grupo do Google. Há alguns emails com endereços gov.tr e akp.org.tr, mas eles não pertencem a pessoas da liderança do partido, pelo menos segundo as pesquisas realizadas até agora.

Os emails incluem o que você esperaria: correntes, receitas, desejos de bom feriado, spam, pedidos de emprego, emails sério pedindo providências a respeito de problemas como buracos de rua. Alguns deles são simplesmente encaminhados para um grupo. Eles não estão censurados e muitas vezes contêm informações pessoais.

O WikiLeaks deveria retirar os links para todas as informações pessoais o mais rápido possível.

A maior parte da mídia de massa da Turquia vem ignorando o vazamento, o que é compreensível, pois as atenções estão voltadas para as consequências do golpe fracassado, e a imprensa do país não é conhecida por suas investigações. Mas os links para esses arquivos circulam amplamente nas redes sociais, e meu medo é que o dano já esteja feito. O WikiLeaks deveria retirar os links para todas as informações pessoais o mais rápido possível.

Jornalistas ocidentais mal comentaram sobre o conteúdo dos arquivos. Mas isso não os impediu de escrever sobre o assunto. Mesmo aqueles que trabalham para os veículos mais atentos têm apenas relatado buscas por certos nomes. Um jornalista que notou que o ex-presidente da Câmara dos Deputados americana Denny Hastert foi "mencionado" foi retuitado quase 500 vezes, como se essa informação fosse importante. Uma simples busca no Google com uma frase contida naquele email mostraria que ela foi copiada de uma reportagem de 2014 que especulava sobre a visita de um empresário turco aos Estados Unidos.

A revista Christian Science Monitor, repetindo o que disse o WikiLeaks, afirmou que 1 400 emails eram relacionados a Fethullah Gulen, o clérigo turco que lidera uma rede internacional secreta e que o governo acusa de orquestrar a tentativa de golpe. Esses 1 400 emails na verdade eram meramente uma busca pela palavra "Gulen", que também significa "sorriso" ou "sorrir" em turco. Ou seja, anúncios de férias no Mediterrâneo ("Çeşme está sorrindo!") foram incluídos nos tais 1 400 emails incriminatórios junto com mensagens que continham trechos copiados de reportagens sobre o clérigo.

Muitos se perguntam por que tanta gente no mundo tem receio da "liberdade da internet", quando ela pode significar violações de privacidade sem sentido.

Há duas semanas, a Turquia viveu uma tentativa de golpe que foi vencida pelos cidadãos (incluindo as mulheres) enfrentando tanques e franco-atiradores. Muitos morreram ou ficaram feridos. Em meio a tudo isso, um grupo que não prestar responsabilidade a ninguém efetivamente expês milhões de mulheres e integrantes do partido político que foi alvo do golpe. E nenhuma reportagem (que eu tenha encontrado) mencionava esses fatos ou que os emails não continham nada de interesse público.

Espero que as pessoas lembrem dessa história quando forem escrever sobre um país sem antes checar com alguém que fala a língua local; quando elas apoiarem vazamentos enormes e não-filtrados sem pedir a ajuda de partes responsáveis como jornalistas e ativistas éticos ; e quando se perguntarem por que tanta gente no mundo tem receio da "liberdade da internet", quando ela pode significar violações de privacidade sem sentido. Prudência não é censura.

CONTINUAÇÃO DA ATUALIZAÇÃO: Cerca de três horas depois da publicação deste post, Best tuitou:

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Depois da descoberta de grandes quantidades de informações pessoais, o hack do AKP no Internet Arquive foi desabilitado.

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Os dados pessoais pertenciam a cidadãos privados e não tinham interesse público.

Eis um trecho do post de Best, em que ele descreve uma "tempestade perfeita de eventos que eu poderia ter evitado":

O WikiLeaks teve várias horas para examinar o link que eu enviei antes de compartilhá-lo, o que significa bastante tempo para fazer uma análise em uma amostra dos dados... Compartilhar o link foi um erro cometido sem má fé da minha parte e da parte do WikiLeaks.

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O mais importante a fazer agora é minimizar os potenciais danos.

.@n_led @Doener Contatei outros para que eles retirem suas versões do torrent, e a versão que subi foi apagada.

É bom ver pelo menos uma pessoa assumir a responsabilidade de sua parte, aprender com o incidente e tentar mitigar os danos. Mas o papel desempenhado pelo WikiLeaks se mantém inalterado. O WikiLeaks não se deu o trabalho de apagar seus posts no Twitter e no Facebook, lidos por milhões de pessoas, propagandeando as bases de dados como "os dados completos de nossos emails do AKP da Turquia e mais" e oferecendo um link onde eles poderiam ser facilmente baixados.

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Eis os dados completos de nossos emails do AKP da Turquia e mais

Tentei explicar a situação diretamente para o WikiLeaks, mas me chamaram de "defensora de Erdogan". Depois de mostrar ao WikiLeaks que ativistas anticensura e advogados turcos afirmam que o vazamento não tem interesse público e não deveria ter sido postado, o WikiLeaks me bloqueou no Twitter. Temo que será uma arma para as forças pró-censura na Turquia: a ignorância da mídia ocidental e dos supostos ativistas a respeito da publicação de dados de cidadãos turcos comuns.

O WikiLeaks defende o vazamento basicamente dizendo que "não fomos nós que o subimos". Mas não é defesa dizer que o grupo meramente linkou e divulgou informações que representam uma ameaça direta e grave para milhões de turcos, especialmente no caso de um grupo que tem poderes enormes de divulgação e, portanto, tem a responsabilidade de agir eticamente. A decisão ética seria tentar ajudar a retirar os arquivos, ou pelo menos evitar que as pessoas chegassem a eles - não propagandeá-los como "dados completos" para milhões de pessoas. Graças à marca WikiLeaks e sua grande quantidade de seguidores, qualquer stalker ou justiceiro pode encontrar o endereço de casa de uma jornalista dissidente na Turquia, por exemplo. Essa é uma preocupação real no país.

Outra objeção do WikiLeaks parece ser que eu não deixei claro imediatamente que eles tinham linkado para os arquivos (agora apagados). Em vez disso, eu teria usado linguagem vaga sobre o trabalho de divulgação do grupo. Fiz isso de propósito, para não entregar o caminho direto até os dados. Parte da minha pesquisa se concentra em censura por governos autoritários, e sei que qualquer passo extra significa que menos "amadores" vão ter acesso à informação. É por isso que governos usam métodos que sabem que podem ser driblados - passos extras funcionam como filtros. Este posto foi atualizado com informações relevantes e menos vagas depois que os arquivos foram apagados e representaval menos danos potenciais.

Além das bases de dados com informações pessoais, lembre-se de que o WikiLeaks publicou os endereços de centenas de milhares de cidadãos comuns de listas de email cujo objetivo era compartilhar notícias e atualizações, às vezes contendo informações pessoais, mas que são identificadas pelo WikiLeaks como "os emails do AKP". Até onde eu saiba, o WikiLeaks não disse uma palavra sobre essa descrição equivocada.

Em 2010, escrevi um artigo na revista The Atlantic criticando grandes plataformas de internet e serviços de pagamento por punirem o WikiLeaks, o que chamei de "imposto de dissensão". O artigo, um dos muitos que escrevi contra a censura, mostra que me importo muito com o potencial positivo do fluxo livre de informações. No artigo, alertei para os poderes centralizados da internet, que não respondem a ninguém e atuam como censores de fato. Deveria ter acrescentado outra ameaça: grupos que também não respondem a ninguém e privam as pessoas comuns de seu direito à privacidade e à segurança.

O fluxo de informações online não vai morrer por causa de tentativas de censura por parte dos governos - pessoas comuns no mundo inteiro, inclusive na Turquia, sabem driblar esses bloqueios. Na realidade, o que faz as pessoas desconfiarem do livre fluxo de informações são essas violações sem sentido de sua privacidade. Este vazamento, que não tem nenhum interesse público, será uma arma nas mãos de quem apoia a censura.

O que ocorreu foi uma falha ética de várias partes, começando por quem coletou e disponibilizou essas informações sem criptografia em servidores mal protegidos; as pessas que hackearam esses dados sem entender do que se tratava, e mesmo assim os passaram adiante; quem os enviou para o WikiLeaks sem fazer uma apuração cuidadosa; o WikiLeaks, que distribuiu os dados globalmente; os jornalistas que escreveram a respeito de informações de outro país sem nem sequer contar com a ajuda de quem fala a língua ou entende o país.

Espero que no futuro se preste mais atenção a cada um desses aspectos e que todas as partes envolvidas se lembrem desse exemplo de falha ética. Todos precisamos refletir e aprender com o que aconteceu.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- O quebra-cabeça que se instaurou na Turquia

- A relação perigosa entre o ataque na Turquia e o avanço do conservadorismo europeu

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